Por que a literatura do homem é universal e a nossa tem sobrenome?

Portal Inhaí
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Por Isis Maria, para Cobertura Especial d’A Feira do Livro 2026

A frase saiu de Carla Madeira numa noite de sexta-feira, para uma platéia lotada na Feira do Livro de São Paulo. Ela não estava reclamando, estava constatando, com a maturidade de quem vendeu mais de um milhão de exemplares e ainda assim precisou responder, ao longo dos anos, por que vende tanto. Como se o número fosse suspeito. Como se a escala exigisse explicação.

A pergunta ficou no ar e organizou o papo que veio antes e depois dela: dois romances novos, dois processos de escrita, e uma conversa sobre o que significa escrever mulheres, sobre mulheres e, às vezes, deliberadamente longe das mulheres.

É o caso de Mariana Salomão Carrara, que lança Cláudia Vera, Feliz Natal pela Todavia. O narrador do livro é um juiz numa comarca pequena do interior, homem, solitário, incapaz de tomar qualquer decisão com leveza, sejam elas sobre o destino de outras pessoas ou sobre o arroz que molda em formato de pato para jantar sozinho. Mariana não chegou a esse narrador por acidente. Ela chegou por cálculo.

“Eu não me sentiria confortável fazendo uma juíza indecisa”, ela disse. “Estaria só reforçando um estereótipo.” Com um homem expondo as mesmas vulnerabilidades, a indecisão vira observação sobre a condição humana, não sobre a condição feminina. O olhar se desloca, mas os temas não: mulheres aparecem no livro o tempo todo, julgadas por ele, comentadas internamente, jamais diretamente interpeladas. “O tempo todo que ele tenta conhecer mulheres, julgá-las, tudo isso ele vai se envolvendo com temas que nos dizem respeito. A gente só deslocou o olhar e ficou ainda mais exposta.”

Carla, que lança em agosto Quando, também trabalha com deslocamento, mas o dela é de outra ordem. O livro começa na espera de uma mãe que denunciou o próprio filho de 17 anos e está prestes a reencontrá-lo duas décadas depois. Ao longo da narrativa, o leitor vai sendo implicado numa situação sem saída clara, oscilando entre vingança, restauração e uma pergunta que a autora faz sem resposta embutida: a gente vai desistir dos meninos de 17 anos?

A filha de Carla leu o manuscrito e perguntou se a mãe não conseguia escrever uma história mais levinha. Carla contou isso rindo. “Mas tem muito humor”, ela garantiu.

Humor é uma palavra que as duas usam para lugares que, de fora, pareceriam improváveis. Cláudia Vera é um livro sobre solidão e sobre a falência da justiça como instituição, e é também, nas palavras de Mariana, o mais divertido que ela já escreveu. O personagem escreve uma carta de defesa prévia num processo administrativo por atraso nos julgamentos e mistura, sem perceber, linguagem jurídica com confissões da intimidade. A origem veio de um colega defensor que trabalhou numa comarca do Mato Grosso, que disse “tia Vera, feliz natal” em algum momento que ficou guardado. Mariana ouviu muitos depoimentos e foi expandindo, formando casos e personagens a partir do que ela chama de “aglomerados de coisas horríveis ou boas que pessoas de fato fizeram.”

Ela é defensora pública há quinze anos, e esse livro em particular não existiria sem isso. “Mesmo que eu fizesse a pesquisa, chegaria nos temas, mas as rusgas, a forma como eles discutem entre si, é uma coisa de quem está dentro da sala.” Ainda assim, escolheu um juiz. Para não se ater ao que já viveu. Para criar mais. E porque a figura de quem tem poder decisório absoluto sobre vidas alheias, e não consegue decidir nada, era a premissa que ela queria explorar.

Carla escrevia à noite, depois de um dia inteiro numa agência de comunicação com mais de cem funcionários. Tudo é Rio, seu primeiro livro, ficou quatorze anos incubado antes de sair em oito meses. Com o tempo, cada livro foi pedindo mais silêncio. O atual levou quatro anos e atravessou três lutos. “A literatura como um lugar para lidar com o real.” Ela diz que está relendo o livro compulsivamente, que ainda não consegue largar. “Ele tá me sustentando num monte de lugares.”

Sobre a crítica que trata vendas como suspeita e a escrita de mulheres como subgênero, Carla disse que ficou mais tranquila. Que foi amadurecendo. Mas a pergunta ela não deixou de fazer: por que a literatura do homem é universal e a da mulher precisa de sobrenome? Literatura feita por mulher. Literatura feminina. “Vai ser muito bom quando a gente não precisar mais ficar carregando esses complementos.”

Mariana entrou na mesma veia: temas considerados menores, como a relação de uma pessoa com a mãe, o crescimento de uma criança dentro de um quarto, a vida doméstica que forma quem vai fazer a guerra, são tratados pela crítica como menos eloquentes politicamente do que história, conflito, acontecimento. “Mas tudo começa ali. Enxergar o detalhe do crescimento de cada um é material literário importantíssimo.” O zoom out que torna as coisas relevantes é, para ela, justamente o contrário.

A frase de Carla ficou no ar. Mas ela mesma já havia dado a resposta que importa, antes mesmo de fazer a pergunta. Disse que nos últimos quatro anos a literatura salvou sua vida. Que, mais do que saber para onde a literatura a leva, o que ela aprendeu é de onde ela a tira.



Por Midia Ninja

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