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Cinema

Plano Histórico #27 | O Mundo de Montefiore: as Famílias e a História

Os verdadeiros núcleos do poder. O post Plano Histórico #27 | O Mundo de Montefiore: as Famílias e a História apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Toda abordagem sobre a história do mundo depende de uma unidade de medida, um ponto de vista, um “pulo do gato” que levará o analista (e o leitor) a um recorte específico sobre o que se pretende narrar. Em seu calhamaço de 1384 páginas, O Mundo: Uma História Através das Famílias (The World: A Family History), Simon Sebag Montefiore escolheu a menor e mais antiga dessas abordagens para acompanhar os passos da humanidade, uma abordagem que, embora não seja única na historiografia, certamente é inovadora em termos de escala (tanto de tempo histórico, quanto de curadoria familiar). Na obra, lançada aqui no Brasil pela Companhia das Letras (2024), o historiador britânico conta a trajetória humana, dos primeiros hominídeos à invasão russa da Ucrânia, por meio de casas reinantes, clãs e linhagens de todos os continentes. Como justificativa para essa empreitada, ele diz, logo na introdução do livro, que “a família continua a ser a unidade essencial na existência humana — mesmo na era da inteligência artificial e da guerra galáctica. Teci uma história contando as histórias de múltiplas famílias em cada continente e cada época, usando-as para amarrar o avanço da história humana”. Como ponto de partida, o autor usa uma praia de Happisburgh, no leste da Inglaterra, onde a maré baixa revelou cinco conjuntos de pegadas, deixados, provavelmente, por um homem e quatro crianças entre 950 mil e 850 mil anos atrás. Ele cita que há pegadas mais antigas na África, mas fica com as inglesas porque elas são “o mais antigo traço de uma família”. Desse pequeno grupo nasce o método de um livro que às vezes parece romântico demais ou condescendente demais consigo mesmo, mas é excelente em quase todos os atalhos históricos que percorre, mantendo-se fiel à proposta geral, além de sustentar um texto de fácil entendimento e, muitas vezes, até mesmo cômico e emocionante.

A escolha da “família como medida” define a própria organização do livro. O volume (sobre o qual defendo veementemente que deveria ter sido pensado em duas partes) divide a narrativa em 23 atos e abre cada um com uma estimativa da população mundial, que passa de 150 mil pessoas por volta de 70.000 a.C. para 8 bilhões no último ato. Dentro de cada bloco, acompanham-se várias famílias ao mesmo tempo, em continentes diferentes — sim, as idas e vindas às vezes podem ser confusas –, algo que o leitor tem acesso já nos títulos, que mostram o arco geográfico e, às vezes, temporal, como vemos em Os Médici e os Mexicas, os Otomanos e os Aviz (Ato X – 350 milhões) ou Os Trump e os Xi, os Sauditas, os Assad e os Kim (Ato XXIII – 8 bilhões). O autor chama o projeto de “uma biografia de várias pessoas, e não só de uma” e resume a premissa política da obra com uma epígrafe de Samuel Johnson: “Se um reino é uma grande família, uma família, da mesma forma, é um pequeno reino, dilacerado em facções e exposto a revoluções”. Daí é que vem a principal consequência do método. Durante milênios, o Estado aparece no livro como patrimônio de uma casa, transmitido por herança, disputado entre irmãos e administrado por parentes. Não é uma abordagem que agradará a todos, mas que consegue ser, ao mesmo tempo, inteligente, enraivecedora, magnética e deliciosa de ler.

Os primeiros capítulos testam essa premissa na Mesopotâmia e no Egito. Antes de Sargão, Montefiore resgata Kubaba de Kish, dona de tabernas e fabricante de cerveja, “a primeira potestade familiar de que temos notícia no mundo”, que foi sucedida pelo filho e pelo neto. Em seguida, apresenta a Casa de Sargão como “a primeira família no poder cujos integrantes conhecemos”. Segundo a inscrição atribuída ao fundador, ele foi posto num cesto de ramos e resgatado no rio por um aguadeiro. Mais tarde, nomeou a filha, Enheduana, suma sacerdotisa do deus da Lua, e o neto, Narã-Sim, aparece na Estela da Vitória como “o primeiro mortal a ser retratado como igual a um deus”. No Egito, a sequência vai de Khufu e da mãe, Heteferés, construtores de pirâmides, até a Casa de Amósis, que expulsou os asiáticos de Apepe graças a uma sucessão de parentes. Kamose era irmão do rei executado Sekenenré; o jovem Amósis herdou o trono aos 10 anos, e a mãe dele, Ahhotep, é descrita como “uma comandante e árbitra internacional”. Hatshepsut, que se declarou rei e vestiu saiote e penteado masculinos, fecha esse primeiro grupo de mulheres que governam, já com o leitor roendo as unhas e espantado com o tanto de informação e detalhes que o autor consegue costurar de forma coerente em tão poucas páginas — este, aliás, é um dos pilares de críticas que se faz ao livro (ou seja, a brevidade das abordagens), mas penso que só alguém muito desconectado da realidade, vá seguir esse caminho analítico num projeto desse tamanho.

A partir do segundo capítulo, o autor amplia o quadro para além do Nilo e acompanha casas que disputavam o mesmo espaço político. Entram em cena os hatianos (ou hatitas — eu sei que é confuso, mas não confundam com os hititas, o povo que conquistou e absorveu a cultura dos hatitas!) de Suppiluliuma, o faraó Akhenaton e Nefertiti, a jovem viúva Ankhesenamon, que escreveu ao rei de Hati pedindo um de seus filhos como marido, e o confronto entre Ramsés II e Muwatalli em Kadesh. Todos compõem uma trama diplomática em que casamentos e cartas decidem a existência de todo um reino, tanto quanto a guerra. Na mesma parte, são reunidas três rainhas: a sra. Fu Hao, comandante e alta sacerdotisa dos Shang, mencionada em 170 ossos-oráculos; Puduhepa, a rainha de Hatusa que conduziu grande parte da negociação de paz com o Egito; e Nefertari, a grã-esposa de Ramsés. O conjunto das muitas experiências políticas, sociais e culturais em diferentes continentes, além da presença de mulheres, homens e pessoas de todas as idades, são alguns dos aspectos que tornam o livro rico, capaz de fazer o leitor mudar o filtro de julgamento, porque não está apenas vendo a História por uma lente eurocêntrica.

O terceiro capítulo do primeiro ato expande-se para o confronto entre África e Ásia. A Casa de Alara, de Kush, unificou um reino a partir de Napata e tomou o Egito com Piye. Sob Shabaka, passou a governar “um dos maiores impérios africanos da história mundial“, até se chocar com a Casa de Tiglate-Pileser, da Assíria, em Eltekeh, onde o príncipe Taharca foi derrotado antes do cerco assírio a Jerusalém. O crítico alemão Stephan Wackwitz, no Die Zeit, escreveu justamente sobre a atenção do autor a episódios que as narrativas eurocêntricas costumam ignorar e chamou o livro de “gabinete de curiosidades e simultaneidades”, definição com a qual concordo, embora não seja grande fã da mentalidade de que a História, em abordagens acadêmicas, deva ser apenas assim, como uma revista CARAS da nossa espécie ou uma grande fofoca de séculos passada para as novas gerações. Entre as duas potências citadas, Montefiore acompanha ainda a casa de Omri em Israel, com Acabe, Jezebel e Atália (a propósito, cristãos pouco afeitos à leitura da História certamente terão um treco em algumas partes desse livro, ao perceber os termos e as nuances da pesquisa do autor para os hebreus/israelistas — não confundam com “israelenses“!). Depois, o livro aborda a ascensão dos haxamanishiya, os aquemênidas: Ciro derrubou o avô medo, venceu Creso e morreu na guerra contra a rainha cita Tomiris. Ao lado deles estão os alcmeônidas de Atenas, a família de Clístenes, cujo governo do povo, segundo o autor, “nunca era tão democrático quanto parecia ser — não quando os alcmeônidas estavam envolvidos”.

Além de explicar o poder, o método aqui adotado traz para o centro da narrativa quem vivia dentro das casas reinantes, um dos ganhos mais claros da obra. Montefiore afirma que o “foco na família também permite dar mais atenção à vida de mulheres e crianças”, e isso é muito verdade. Ao longo dos atos, o leitor encontra Kösem, a otomana que, segundo a introdução, “ordena o estrangulamento do filho e é estrangulada por ordem do neto”, e Sally Hemings, “meia-irmã escravizada da falecida mulher de Thomas Jefferson”, que criou em segredo os filhos do presidente. Também encontra as filhas adolescentes enviadas por pais frios para casar com estranhos em terras distantes, onde muitas morreram no parto (e este tipo de história não é exatamente novidade para nós, não é mesmo?). Pode-se fazer, a esse respeito, uma crítica mais forte ao autor por reforçar a presença das mulheres como objeto de desejo e como gestantes, forçadas, por jogos de poder, a dar um filho homem a seus maridos e/ou abusadores. No entanto, creio que este é um falso problema, porque ignora o fato de que Montefiore não está tirando esses acontecimentos da cartola. Na história da humanidade, as mulheres tiveram majoritariamente um tratamento negativo, subserviente, e, num livro sobre a história das famílias que destaca essas pessoas, como é possível expor eventos empoderados que elas nunca viveram?

Li também um texto que reclamava da abordagem sobre as crianças. Vejam, a construção da infância, tal como a concebemos hoje (como um período sagrado, protegido e isolado das pressões do mundo real), é um fenômeno cultural moderno. Portanto, é um anacronismo cobrar certas garantias, direitos ou sensibilidades de épocas passadas. Embora as sociedades antigas reconhecessem as limitações biológicas e psicológicas das crianças (sabendo que não eram meros “pequenos adultos“, como já defendeu a ultrapassada tese de Philippe Ariès), a realidade econômica impunha a elas uma integração precoce no mundo do trabalho e nas dinâmicas familiares de sobrevivência, exatamente o que Montefiore destaca em seu livro. Notem que não se trata de uma obra que pretende analisar a mudança das famílias (como instituição) ao longo dos séculos, mas sim como essas famílias podem ser utilizadas “como desculpa e influência” para a narração da história do mundo! Qualquer cobrança que se faça sobre ausência de termos, componentes antropológicos específicos ou interpretações para a constituição dessa instituição está cobrando da obra algo que ela nunca se dispôs (e nem deveria, mediante o recorte) a dar. O próprio autor fala desse recorte ao definir a obra como “mais uma batalha no longo embate entre estrutura e capacidade de ação, forças impessoais e caráter humano”. Admite também, a respeito das mulheres da pré-história, que, “na verdade, não sabemos praticamente nada sobre elas“. Ou seja, O Mundo: Uma História Através das Famílias utiliza essa instituição como ferramenta para narrar o poder, nada mais. Aconselho veementemente que quem deseja uma história social das famílias procure-a em outros autores. Este livro não é sobre isso.

Mas isso não significa que a família não ganha força analítica aqui, especialmente quando o escopo histórico está mais próximo de nós, com destaque para o século XX e XXI. Já na introdução, o autor diz que, mesmo nas democracias liberais, as dinastias evoluíram sem desaparecer. E então ele cita, como demodinastias (conceito que ele cria para definir o fenômeno de linhagens familiares e oligarquias políticas que conquistam e mantêm o poder em regimes democráticos por meio do voto popular), os Kennedy e os Bush, os Nehru, os Bhutto e os Marcos, recorrendo ao historiador Jeroen Duindam, para quem “formas personalizadas e duradouras de liderança na política e nos negócios tendem a adquirir traços semidinásticos mesmo no mundo contemporâneo”. Lá na frente, quando ele conclui o projeto, essa visão fica mais forte: “o poder das famílias está renascendo”. Para mim, o autor se mostrou bastante coerente ao longo de todo o livro. A linhagem que ele foi buscar nas pegadas de Happisburgh e na taberna de Kubaba continua decidindo quem herda o Estado no século XXI, ainda que hoje ela precise se vestir de partido, de eleição ou de cargo técnico para ajudar, enganar ou dominar os outros. Com todos os excessos, as simplificações e o gosto pela fofoca que apontei, o livro entrega solidamente o que promete: uma história do poder contada a partir de quem nascia, casava, conspirava e matava dentro das casas, premissa que, para nosso espanto ou realização da essência da nossa espécie, continua sendo os critérios que sustentam ou derrubam poderosos até hoje.

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Fonte: Plano Critico.

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