
Os impactos do comércio ilegal ultrapassaram R$ 468 bilhões em 2024. A normalização da aquisição desses produtos e a impunidade no País alimentam o comércio pirata

O Brasil sofreu grandes impactos com o comércio ilícito em 2024, segundo o Fórum Nacional Contra a Pirataria (FNCP). Os prejuízos ultrapassam R$ 468 bilhões, somando perdas diretas da indústria com quase R$ 328 bilhões e R$ 140 bilhões de evasão fiscal. O setor mais afetado foi o de vestuário, registrando perdas superiores a R$ 87 bilhões, além de outros setores como o de bebidas alcoólicas, combustível, higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, que também sofreram impactos significativos.
A professora da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, Juliana Oliveira Domingues, diz que a sociedade tem normalizado a aquisição de produtos e serviços originários da pirataria. “Ao mesmo tempo, o comércio eletrônico traz facilidades que possibilitam que essas transações sejam feitas, e também fatores como a impunidade e as dificuldades de penalização da prática contribuem para o aumento da pirataria.”

A especialista, que foi presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, explica que essas mercadorias vêm de todos os lugares do mundo, pois não existe dificuldade ou barreira para que a prática aconteça. Ela também alerta que o risco é muito grande: “Muitos ignoram os problemas que esses produtos geram para a saúde e segurança dos consumidores. Esses produtos que são ilegais não possuem certificação, garantia e muitos canais de e-commerce estão comercializando sem trazer essa informação para os consumidores”.
Saber identificar quando um produto é de origem ilegal é fundamental. Segundo Juliana, no comércio eletrônico “se a empresa não tiver CNPJ ou se a página não apresentar um sistema de segurança, aquele cadeado que aparece no cantinho da página, é para se desconfiar que esse produto não entrou na comercialização de uma forma legal”.
Outra forma é pedir a nota fiscal na hora de comprar um produto. “Ao pedirmos a nota fiscal, temos a garantia do recolhimento de tributos e, caso não tenha, passa a ser um indício de que aquele comércio ou a comercialização do produto não segue as regras do mercado, pois não tem a certificação do recolhimento dos impostos”, explica a professora.
Impactos negativos
De acordo com a professora, são diversos impactos negativos gerados pelo comércio ilegal. “O primeiro são as perdas diretas para o desenvolvimento econômico, porque estamos falando de produtos e serviços que são comercializados, não pagam impostos e nem geram empregabilidade, também temos um grande nível de evasão fiscal, os produtos não tem certificado e nem passam por um controle de qualidade.”
Além disso, Juliana também aponta que os consumidores que têm consciência que estão consumindo pirataria podem ser responsabilizados criminalmente no Brasil. “A pirataria é considerada crime, com penas que vão variar entre detenção, reclusão e multa, dependendo da gravidade da infração. Temos também eventuais processos judiciais, não só para quem consome, mas para quem acaba distribuindo esse material pirateado de alguma forma”, explica a professora.
Legislação brasileira
Segundo a professora, o problema do Brasil não é a ausência de legislação, pois existem uma série de leis voltadas para o combate à pirataria. Juliana menciona que foi desenvolvido o Plano Nacional de Combate à Pirataria para 2022 até 2025, em que existe “uma série de ações para divulgar os efeitos da pirataria, malefícios da prática, o que é a contrafação, contrabando, delitos contra a propriedade intelectual, os impactos para a economia, segurança pública e para geração de empregos”. Ela ressalta que “é importante trabalhar com esse eixo educacional para tentar mudar a cultura de que é melhor comprar um produto pirateado, porque é mais barato, sendo que ele pode causar uma série de problemas, trazer riscos e causar uma perda relevante para o nosso País”.
A especialista aponta que são necessárias algumas medidas para combater a pirataria no País. “Temos que estudar e propor mecanismos de aperfeiçoamento necessários para evitar a aquisição desses produtos e serviços que são pirateados. São necessários mecanismos para apoiar os pequenos negócios, buscar dar atenção com relação a verificação de autenticidade dos produtos que são comercializados e promover um debate público para atrair a atenção do público por meio de todas as formas possíveis.”
*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares
O Jornal da USP no Ar, Edição Regional vai ao ar de segunda a sexta-feira, a partir das 12h, pela Rádio USP em Ribeirão Preto, com produção e reportagens da Equipe de jornalismo da Rádio USP Ribeirão. Apresentação: Mel Vieira e Ferraz Junior. Técnica: Luiz Fontana, Mario Brother e Gabriel Soares. Supervisão: Ferraz Junior. Coordenação: Rosemeire Talamone. Você pode sintonizar a Rádio USP em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em ribeirao.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.