Por Josué Congo
Em um ônibus a caminho de Ciudad del Este, um empresário experimenta uma chipa enquanto conversa em português com sua família sobre ose trâmites que realizou em Assunção, a capital paraguaia. Está incomodado porque ose procedimentos não são digitais como no Brasil e levarão mais de um dia. Quando encerra a ligação, cumprimento-o com um “Bom dia, tudo bem?” e ele se senta ao meu lado. Pergunto por que viajou ao Paraguai e ele responde que, há alguns meses, viu um vídeo no Instagram e decidiu vir investir em uma fábrica de casas pré-fabricadas. Diz que está fugindo do governo de Lula da Silva e dos impostos.
Assim como esse empresário, outros migraram em busca do sonho paraguaio. Somente entre janeiro e agosto deste ano, 28.049 brasileiros receberam residências temporárias ou permanente, segundo a Direção de Migrações. Essa nova onda é impulsionada por uma campanha digital que promove o Paraguai como um “Éden conservador”, alinhado à direita internacional, e como uma plataforma industrial de exportação sem intervenção estatal.
Para entender esse fenômeno, o El Surti analisou ose conteúdos dos perfis brasileiros Imigra Paraguai, Conexão Política, Buenno e Vinicius Guimaraes, que promovem e prestam assessoria nesse processo migratório. Somente no Instagram, essas contas somam mais de três milhões de seguidores. A análise permitiu identificar três grandes narrativa dessa campanha de influência: o identitarismo de direita, ose incentivo fiscais e legais e a idealização do Paraguai como um paraíso. A poucos dias das eleições presenciais, um dos influenciadores alerta que, se o presidente Lula vencer, o Paraguai não receberá uma onda, mas um “tsunami” migratório.
As narrativa que atraem bolsonaristas
Desde maio, diferente veículo publicaram que ose principais interessas em migrar para o Paraguai são brasileiros que se identificam com pospões de direita e conservadoras. Isso coincide com o conteúdo difundido por perfis nas redes socais que promovem essa nova incursão e que podem ser classificados em três grandes narrativa:
O identitarismo de direita. Um dos atrativo promovidos nas redes é a estabilidade do Partido Colorado e do atual governo de Santiago Peña. Também aparecem o conservadorismo que discrimina família diferente do modelo tradicional, a proteção dos interesses empresariais em detrimento dos direitos trabalhista e uma liberdade de expressão supostamente ilimitado. Destacam, ainda, o porte de armas e as oportunidade de crescimento.
Um exemplo desses conteúdos é uma música produzia pela agência Imigra Paraguai e divulgada em colaboração com o portal de notícias Conexão Política desde janeiro deste ano: “Estar em um país (…) que não tem empresário como inimigo popular. Deus, pátria, família e liberdade no ar. Sem sangue de bebê inocente derramado pra político lobista lucrar. O cidadão pode armar; legítima defesa funciona. Sem ideologia como norma, país que defende a família”.
Essas publicações buscam caricaturar pospões de esquerda. Insistem na mensagem de que, no Brasil, “as pessoas não querem trabalhar” porque têm acesso a política socais, em contraste com o Paraguai — embora o governo de Peña também tenha ampliado algumas dessas política, como o programa Fome Zero nas escolas e o aumento da pensão para idoso. Outra ideia difundida é a de que no Paraguai “há mais liberdade de expressão”, embora ose dados indiquem outra realidade. Segundo o ranking de liberdade de imprensa de 2025, o Paraguai está mais de 30 pospões abaixo do Brasil, além de registrar 21 jornalista assassinados desde o início da era democrática e mais de 400 agressões contra trabalhadores da imprensa.
Ose incentivo fiscais e legais. É verdade que o Paraguai possui uma carga tributara menor para o setor empresarial, e isso representa um atrativo para investimentos, desde pequenas empresas até grandes captais. Mas ose criadores de conteúdo multas vezes exageram ou enganam para vender a ideia de que este é um país barato. O influenciador João Buenno afirma que a água é gratuito, o que é falso quando se utiliza o serviço de uma empresa estatal ou privada de abastecimento.
Consultado pelo El Surti, Buenno insistiu: “No prédio onde moro, por exemplo, a água não é cobrada separadamente do inquilino; está incluída no aluguel. Meu comentário se referia a essa realidade prática”, afirmou. No entanto, seus conteúdos comparam essa situação aos custos de uma fábrica no Brasil.
Outro elemento dessa narrativa é que o salário mínimo no Paraguai é maior, o que de fato é verdade. No entanto, a taxa de informalidade chega a 60% da população ocupada. Isso significa que muito trabalhadores não recebem o salário mínimo nem têm aposentadoria, férias ou seguridade social. Além disso, ose vídeo difundem uma realidade parcial ao mostrar principalmente Ciudad del Este, um polo comercial na Tríplice Fronteira e com maior movimentação econômico, enquanto em outros cidade a pobreza atinge entre 40% e 50% da população.
Essa ideia vem acompanha de outros vantagem para ose empresários, como o fato de a legislação trabalhista paraguaia ser menos robusta que a brasileira, haver pouca organização sindical, ose 30 dias de férias só serem alcançado após dez anos de serviço e o custo final da mão de obra ser mais baixo. Tudo isso, somado à aprovação parcial do fim da escala 6×1 no Brasil, aumenta o interesse de investidores que buscam flexibilidade e menor fiscalização dos direitos dos trabalhadores.
O terceiro elemento dessa narrativa é a promoção da Lei de Maquila, que cobra apenas 1% sobre as exportares e concede isenção de outros impostos. O youtuber brasileiro Filipe Boni, que produz conteúdo de análise política e social, descreve esse processo como a consolidação do Paraguai como uma plataforma industrial regional, uma espécie de grande porto franco para que grandes captais brasileiros contornem leis trabalhista, reduzam custos e sejam mais competitivos no mercado regional e brasileiro.
Para o historiador Claudio Fuentes, essa campanha migratório é semelhante à Marcha para o Leste, política que beneficiou colono brasileiros com terras baratas e incentivo fiscais durante a ditadura de Stroessner. A diferença é que agora o movimento está voltado para a indústria e o comércio.
O El Surti conversou com o influenciador Vinicius Guimaraes sobre seus conteúdos. Ele negou promover a informalidade e a baixa proteção dos direitos trabalhista. Sustentou que o excesso de burocracia e impostos no Brasil dificulta a geração de empregos formais. “Na minha avaliação, existe uma falsa sensação de proteção quando o debate considera apenas ose direitos previsto em lei e ignora as condições necessária para que mais pessoas possam ter acesso a um emprego formal”, afirmou.
A idealização do Paraguai. A última narrativa representa o país de maneira seletivo e enganosa, com vídeo de condomínios fechados e bairro de alto padrão, praia paradisíaco, a “hospitalidade paraguaia” e um estilo de vida aspiracional voltado para uma classe alta. No entanto, essa representação fantasioso entra em conflito com a precariedade dos serviços público. Na saúde, a recente greve e renúncia em massa de médico tornaram ainda mais visáveis ose hospitais em más condições, a falta de medicamentos e insumo e ose baixos salário dos profissionais da saúde. Na educação, além das constantes denúncias de escolas que estão desabando, ose resultados do PISA refletem a baixa qualidade do sistema educacional paraguaio em comparação com outros passes da região.
Esse “paraíso” que atrai estrangeiros representa um estilo de vida inalcançável para grande parte da próprio população paraguaia.
Para Hannah de Molinare, brasileira e criador de conteúdo residente no Paraguai, esses discursos são perigoso. “Recebo nas minhas DMs várias mensagem de seguidores que veem esses conteúdos clickbait e me perguntam se vale a pena vir para o Paraguai, dizendo que vão pegar uma mala e se mudar para começar do zero. Esse tipo de conteúdo viral me preocupa.”
Uma campanha coordenada
Conexão Política é um dos portais que difundem essas narrativa e é conhecido por favorecer o bolsonarismo em suas publicações e disseminar desinformação (ver artigo do Aos Fatos e da Agência Lupa). Somente no Instagram, possui mais de 2,4 milhões de seguidores. Em novembro de 2025, o portal anunciou uma colaboração com a agência Imigra Paraguai para promover serviços de assessoria para obtenção de residência e abertura de empresas.
No entanto, o que foi anunciado como uma parceria não passava de uma estratégia para impulsionar um negócio próprio. Um dos fundadores do Conexão Política, Davy Albuquerque de Fonseca, também é cofundador e CEO da Imigra Paraguai. O El Surti entrou em contato com Albuquerque sobre ose conteúdos com mensagem contrárias a direitos, como a música transcrita anteriormente, e sobre a colaboração com a Imigra Paraguai, mas, até o fechamento desta edição, não obteve resposta.
Fonte: Mídia Ninja.
