PARA KAUAN, O NATAL DURA O ANO INTEIRO

Ghe Santos
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Em Piracicaba, no interior de São Paulo, existe uma casa onde o Natal não depende do calendário. Ali, o espírito natalino permanece vivo durante todos os meses do ano, materializado na coleção de Kauan, jovem de 18 anos que reuniu 98 Papais Noel — quase cem peças carregadas de memória, afeto e significado.

A relação com a figura do Papai Noel começou ainda na infância, de forma curiosa. Kauan lembra que, quando criança, tinha medo dos bonecos grandes expostos em lojas e fachadas. Com o tempo, o medo se transformou em curiosidade e, depois, em carinho. “O que era só comprar por comprar virou uma coleção”, conta. Junto com os objetos, vieram também as lembranças: a espera pela meia-noite, a ansiedade pelos presentes, a magia que faz do Natal uma data especial.

UMA COLEÇÃO FEITA DE HISTÓRIAS

Cada Papai Noel guarda uma história própria. Um dos mais marcantes é um modelo de fibra óptica encontrado no centro de Piracicaba. Kauan lembra da ansiedade para comprá-lo, da espera até conseguir buscá-lo na loja, já pago e reservado. “Fiquei esperando e esperando até o dia de ir lá buscar. Foi especial”, recorda. Esse sentimento de expectativa, segundo ele, é parte essencial da experiência de colecionar.

A coleção é formada tanto por peças compradas quanto por presentes recebidos ao longo dos anos. Algumas chegaram de maneira especialmente afetiva. Três Papais Noel e duas bonecas de porcelana, por exemplo, pertenceram a uma cliente da farmácia de sua mãe, que, antes de falecer, fez questão de separar as peças para Kauan, por saber de seu amor pela data. “Isso me marcou muito”, diz.

CUIDADO, ZELO E RESTAURO

Entre as peças mais queridas estão os Papais Noel de marcas norte-americanas, adquiridos no Brasil, e os modelos de fibra óptica, tratados com extremo cuidado. Kauan confessa ter muito ciúme da coleção. “Não gosto que ninguém toque. Em nenhum deles”, afirma, rindo.

Além de colecionador, ele também atua como restaurador. Algumas peças foram compradas quebradas, por valores simbólicos, e recuperadas com paciência e dedicação. “Às vezes eu compro por dez reais e arrumo. Dou outra vida”, explica. O gesto vai além do conserto material: é também um ato de preservação de memórias.

NATAL SEM DATA PARA ACABAR

Diferente do que acontece na maioria das casas, os Papais Noel não são guardados após o mês de dezembro. Eles permanecem expostos o ano inteiro. Kauan conta que, ao tentar guardar as peças uma vez, sentiu um vazio difícil de explicar. “Parecia que estava faltando alguma coisa. Pra mim, o ano inteiro é Natal.”

A coleção funciona como presença constante, quase como companhia. Mais do que decoração, ela representa conforto emocional, pertencimento e continuidade.

APOIO, RESISTÊNCIA E IDENTIDADE

O apoio à coleção vem principalmente da família materna. Do lado paterno, Kauan relata que há quem enxergue o hábito como algo infantil. Ainda assim, ele é firme ao afirmar que não pretende parar. “Isso faz parte de quem eu sou”, diz.

E quem Kauan é, ele afirma com tranquilidade: tem 18 anos, mora em Piracicaba, é LGBT e um jovem gay assumido. Sua coleção também dialoga com essa identidade — uma forma de afirmar afetos, resistir a padrões e preservar aquilo que traz sentido, mesmo quando não é compreendido por todos.

UM SONHO AINDA EM BUSCA

Entre os desejos futuros está um Papai Noel específico, vindo dos Estados Unidos, que carrega um livro, tem um relógio ao lado e toca uma fita VHS contando uma história. Por enquanto, a busca está em pausa por questões financeiras, mas o sonho permanece. “Um dia, espero ter ele na coleção”, afirma.

Para Kauan, o Papai Noel não é apenas um personagem natalino. É memória, afeto, esperança e infância — tudo junto e misturado. Um lembrete diário de que o encanto pode ser mantido vivo, mesmo fora de época.

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