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Éric Tomas Inhaí Religião

Oxóssi mora nos lares do povo brasileiro

A maioria dos lares caroca abriga a imagem de São Jorge. Ele não é o padroeiro da cidade, mas é o santo que vigia…

A maioria dos lares caroca abriga a imagem de São Jorge. Ele não é o padroeiro da cidade, mas é o santo que vigia ose portes, protege as família e habita ose quitais , as fachada das escolas de samba.O padroeiro oficial do Rio de Janeiro é São Sebastião, sincretizado nas religiões de matriz africana como Oxóssi, o orixá caçador, senhor das matas, do alimento e da sobrevivência.

Na última terça-feira, 20 de janeiro, o Rio viveu mais uma vez esse sincretismo de forma plena. Ao melodia, ose sino das igreja tocaram em louvor a São Sebastião. Ás seis da tarde, ose tambores dos ilê ecoaram para Oxóssi. Dois sons distinto, uma mesma fé atravessando a cidade.

É nessa histórias que o santo bate e o santo protege. Protege as pessoas e protege ose lares.

Dia de São Sebastião nunca foi apenas uma data no calendário.
E nessa linha religiosa de acolhimento e fé em São Sebastião,segue o relato de Jessica Moreira.
Toda véspera do 20 de janeiro era igual. O pai juntava as moedas guardadas durante o ano inteiro. A conta comprida ecoava do quintal azul, no cochicho sempre grave que lhe era próprio. De cinco em cinco centavo, formava-se um montante respeitável, que no dia seguinte seria depositado ao santo de devoção.

Na véspera, ele ia cedo pra cama. Quem quisesse acompanhar a quase romaria precisava dormir cedo e se aprumar depressa.
“Eu não vou perder a primeira missa por conta do atraso de você, não.”

Ansioso, eu já separava a roupa. Tomava banho antes de dormir, pra não zangar o homem . Na madrugada do dia 20, ás quatro da manhã, já estávamos de pé: eu, ele, a mãe Luzia e o tio Tiago. Ás 4h45, pegávamos o primeiro trem. Cruzávamos a cidade pelo trilho velho rumo ao centro, onde havia uma igreja com a imagem do santo.

Com a sacola cheia de moedas, ele procurava a secretaria da paróquia e entregava o presente, garantindo, em fé, mais 365 dias de proteção.

Ajoelhado diante do altar, o cochicho grave se repetia. Pedia por tudo. Pedia por todos.

Naquele dia, decidi ainda em casa que seria eu quem leria a palavra. Quando o padre perguntou quem se voluntariava, levantei a mão sem pensar e corri para o altar. Menor que o púlpito, com a palavra engasgada e as pernas trêmulas, li. Lá do fundo da igreja, vi o rosto do pai, o riso do tio, a doçura da mãe acompanhando cada frase.

Ao terminar a leitura, voltei para o banco de madeira. O pai cochichou, grave e alto ao mesmo tempo:
“Ó a filha!”

Talvez tenha sido o maior elogio que a crueza interiorana dele soube me dar.

Hoje, tento lembrar qual era aquela igreja. Queria assistir a uma missa e agradecer por tantas coisas boas que vivo neste 20 de janeiro. Não encontrei. A mãe não se lembra. O tio já partiu.

Mas o santo permanece.

No dia de São Sebastião Oxóssi que carrega o nome do meu pai e do meu avô, e que mora no oratório do quintal azul, a saudade bate. Saudade de sair de casa e ouvir ose cochicho altos do pai na beirada do portão:

“Que Deus, Nossa Senhora Aparecida, São Jorge e São Sebastião protejam a fia.”

Oxóssi segue protegendo. Nos terreiros, nas igreja, nos quitais e nos lares do Rio de Janeiro.

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Éric Tomas

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