Por Maria Eduarda Bernardo – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A República da Zâmbia é um dos muitos países que nunca tiveram a oportunidade de disputar uma Copa do Mundo. Mas uma vez quase chegaram lá. E quis o destino que o motivo não fosse por nada do campo futebolístico, mas acabaria sendo por algo muito pior. Infelizmente, a seleção do país africano sofreu um acidente aéreo, fazendo os fãs de futebol relembrarem a Tragédia de Superga (que envolveu o time do Torino, em 1949), e o Desastre de Munique (que matou o time histórico do Manchester United, em 1958). Em 27 de abril de 1993, a história do futebol de Zâmbia ficaria marcada pelo fim dos sonhos de 18 atletas e de toda uma nação.
A Seleção Zambiana de Futebol vivia um dos momentos mais promissores de sua história no início da década de 1990. A geração havia chamado a atenção do mundo nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, quando derrotou a Itália por 4 a 0 com uma atuação histórica liderada por Kalusha Bwalya, autor de três gols e uma assistência. Embora não tenha conquistado medalha, a equipe demonstrou que possuía qualidade suficiente para sonhar com a inédita classificação para uma Copa do Mundo. Esse sonho ganhou ainda mais força nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Após a ampliação das vagas destinadas ao continente africano pela FIFA, a Zâmbia enxergava uma oportunidade real de disputar o Mundial pela primeira vez. O primeiro desafio da fase decisiva seria contra o Senegal, em Dacar. Para isso, a delegação embarcou em um avião da Força Aérea da Zâmbia sem imaginar que aquela viagem entraria para a história por um dos motivos mais trágicos do futebol.
Na manhã de 27 de abril de 1993, a delegação zambiana embarcou em um De Havilland Canada DHC-5D Buffalo (prefixo AF-319), aeronave militar fabricada em 1975 e cedida pela Força Aérea da Zâmbia. O voo seguiria para Dacar, no Senegal, com escalas programadas em Brazzaville, no Congo, Libreville, no Gabão, e Abidjã, na Costa do Marfim. Apesar de apresentar um histórico de problemas mecânicos e de registrar falhas durante voos de teste realizados dias antes da viagem, a aeronave foi autorizada a realizar um percurso de aproximadamente seis mil quilômetros. Após a primeira parada, em Brazzaville, um dos motores começou a apresentar falhas. Mesmo diante dos alertas, a tripulação prosseguiu com o voo.
Pouco antes da chegada a Libreville, o motor esquerdo sofreu um incêndio. Ao tentar lidar com a emergência, o piloto desligou, por engano, o motor direito, que ainda funcionava. Sem potência suficiente para permanecer no ar, o avião perdeu altitude e caiu no Oceano Atlântico poucos instantes após decolar do aeroporto de Libreville, a cerca de 500 metros da costa gabonesa. O acidente matou todas as 30 pessoas a bordo.
Entre as vítimas, estavam 18 jogadores da Seleção Zambiana, membros da comissão técnica, dirigentes da Associação de Futebol da Zâmbia e cinco militares responsáveis pela operação da aeronave. A tragédia destruiu praticamente toda a geração considerada a mais talentosa da história do futebol zambiano. O principal nome da equipe, Kalusha Bwalya, sobreviveu porque, na época, defendia o PSV Eindhoven, dos Países Baixos. Em comum acordo com seu clube, ele viajou separadamente para encontrar a delegação em Dacar. Outros jogadores também escaparam por não integrarem a lista final da viagem devido a lesões ou mudanças de última hora.
As investigações apontaram que o desastre foi provocado por uma combinação de fatores. Além das falhas mecânicas da aeronave, um relatório divulgado em 2003 concluiu que o piloto, possivelmente fatigado, interpretou de forma equivocada uma luz de advertência e desligou o motor que permanecia em funcionamento. A manutenção precária do avião e a decisão de mantê-lo em operação também contribuíram para o acidente.
As vítimas foram sepultadas em um memorial construído próximo ao Estádio da Independência, em Lusaka, capital da Zâmbia. O local tornou-se símbolo da maior tragédia da história do esporte no país e recebe homenagens até os dias atuais.
Mesmo devastada, a Zâmbia encontrou forças para reconstruir sua seleção. Sob a liderança de Kalusha Bwalya, uma nova equipe foi formada e, apenas um ano após o acidente, alcançou a final da Copa Africana de Nações de 1994. O maior capítulo dessa história de superação, porém, seria escrito em 2012, quando a seleção conquistou seu primeiro título continental justamente em Libreville, no Gabão, cidade onde ocorreu o desastre de 1993. A vitória nos pênaltis sobre a Costa do Marfim transformou uma tragédia em um dos maiores símbolos de resiliência do futebol mundial, eternizando a memória da geração que teve seu sonho interrompido antes que aquele voo pudesse chegar ao destino.
