O Villa-Lobos de Erika Ribeiro e as novas possibilidades de escuta do compositor brasileiro

Portal Inhaí
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Por Nicole Adler

Tem uma palavra que Erika Ribeiro gosta de usar para explicar o que fez em seu novo álbum: escavação. Não no sentido arqueológico de desenterrar algo perdido, mas no sentido oposto: o de remover camadas de deferência acumuladas para encontrar aquilo que sempre esteve ali, pulsando, à espera de quem se dispusesse a ouvi-lo de outra forma. O disco Erika Ribeiro: Villa-Lobos, lançado pela Gravadora Rocinante em vinil e nas plataformas de streaming, é o resultado desse mergulho.

Capa do disco ‘Erika Ribeiro: Villa Lobos’ lançado pela Rocinante. Foto: divulgação

Este é o segundo trabalho da pianista pelo selo. No primeiro, lançado em 2021 e indicado ao Grammy Latino, Erika se dedicou sozinha a transcrições de Stravinsky, Hermeto Pascoal e Sofia Gubaidulina — um disco introspectivo, moldado pelo isolamento pandêmico. O novo álbum nasce de outra lógica: é coletivo desde a raiz. Ao lado de Reinaldo Boaventura, Marcelo Galter, Ldson Galter e Natália Mitre, ela constrói uma instrumentação que mistura piano acústico, wurlitzer, contrabaixo, marimba, berimbau e diversas percussões — incluindo, de forma inusitada, enxadas.

A escolha não foi ornamental. “Os caminhos foram se abrindo, a gente foi sentindo como que aquilo faria sentido sonoramente e que não fosse uma coisa muito racional também”, explicou a pianista. A percussão, em especial, atravessa o disco como uma espinha dorsal, tornando explícita uma rítmica que Erika identifica como implícita na escrita de Villa-Lobos e que, em sua leitura, a tradição interpretativa clássica frequentemente aplaina.

“Tem muita coisa do Villa-Lobos no repertório em que a rítmica brasileira está muito implícita. A gente não completou nada que estava faltando, a gente simplesmente entrou nessa intenção, com um pouco mais de autoralidade, de sugerir. E acho que isso que traz o frescor, porque a gente usou a imaginação e tentou se divertir com a música, sem querer seguir tantas regras.”
Erika Ribeiro

O repertório escolhido equilibra peças canônicas e obras raramente gravadas. Entre as joias conhecidas estão Alma Brasileira, Bachianas Brasileiras n. 4 e as Cirandas. Mas o disco também se permite o desvio: New York Skyline e Feijoada sem Perigo — esta última com apenas uma gravação anterior conhecida — aparecem ao lado do Concerto para Violão e Pequena Orquestra, aqui transcrito para piano, ponto de partida de toda a pesquisa.

A curadoria, conta Erika, foi mais intuitiva do que conceitual. A pergunta norteadora era simples e aberta: “O que está aqui que precisa vir à tona?”. A resposta não veio de um plano, mas do processo, da escuta conjunta, do experimento e da liberdade de sugerir que uma ciranda poderia soar como uma balada de jazz, ou que o Carnaval das Crianças deveria mesmo ser tratado com a irreverência de uma brincadeira.

A direção artística é assinada por Erika ao lado do músico e produtor Sylvio Fraga. Os arranjos ficaram majoritariamente a cargo de Marcelo Galter, figura central na construção sonora do álbum.

“O texto do Villa-Lobos, ao meu ver, é um texto muito mais amplo. Ele está propondo música que acontece na rua, que acontece em manifestações culturais. Então, se a gente não tem essa postura ativa de tentar conhecer essa nossa ancestralidade, acaba ficando um pouco restrito. Eu chamei essa galera sensacional, formada por músicos que puderam me ensinar muito sobre isso. Aprendi muito e espero continuar aprendendo”, diz a pianista.

Para ela, esse gesto coletivo não dilui a autoria; pelo contrário, a amplia.

Doutora pela USP e professora da UNIRIO, Erika Ribeiro há anos transita entre o erudito e o popular com uma naturalidade que ainda é exceção no meio clássico brasileiro. Vencedora de dez concursos nacionais, entre eles o III Concurso Nelson Freire, ela construiu uma carreira sólida precisamente por se recusar a habitar um único registro. Neste disco, essa inquietação assume a forma de manifesto: a ideia de que o intérprete clássico pode — e talvez deva — se colocar como coautor, e não como mero guardião de uma partitura intocável.

Não por acaso, o álbum não propõe necessariamente um roteiro de escuta. Não há notas de encarte prescritivas, nem uma ordem correta de fruição. “Eu acho que existe, sim, uma narrativa do jeito que ficou configurado no álbum, o que me deixa muito feliz e muito orgulhosa. Mas, ao mesmo tempo, tem essa coisa de ser uma escuta, de ser uma viagem, um mergulho”, disse Erika.

A pianista conta que recebe mensagens de ouvintes que escutaram o disco inteiro, de uma sentada, mais de uma vez. Talvez essa seja a medida do êxito do trabalho: não a fidelidade ao texto original, mas a capacidade de fazer alguém querer voltar.

Villa-Lobos, que passou a vida inteira convocando o Brasil a se reconhecer na música, provavelmente aprovaria.



Por Midia Ninja

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