Por Paula Cunha – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
No futebol, existem os jogadores que chamam a responsabilidade para si, decidindo cobrar pênaltis, faltas e tomar a dianteira das decisões. Outros deixam essas decisões para o técnico. Mas o que faz alguém assumir essa atitude enquanto outros apenas desaparecem? A resposta passa pela confiança no próprio potencial, por não deixar nas mãos dos outros o controle da própria narrativa. É também ter controle emocional e disposição para lidar com as críticas que virão quando algo não der certo.
Nos jogos das semifinais, foi possível observar como os jogadores mais decisivos se comportaram e como outros protagonistas foram aparecendo. Todo líder corresponde quando a pressão aumenta? Infelizmente, nem todos.
França x Espanha
O primeiro jogo da semifinal foi França e Espanha, e muito se esperava do duelo Mbappé e Yamal. Espanha se impôs, marcou bem e ficou muito mais com a bola. Por outro lado, a França ficou apática e parecia que não conseguia jogar. O time espanhol, conhecido por seu jogo coletivo, controlou muito bem os franceses.
Aos 21 minutos do primeiro tempo, Yamal sofreu o pênalti de Digne, que também não estava em um bom dia, e a Espanha abriu o placar.
Mikel Oyarzabal assumiu a cobrança. Na seleção espanhola, ele divide a responsabilidade de cobrador titular com o volante Rodri e, no seu clube, Real Sociedad, ele é o batedor número um e ostenta uma das maiores taxas de conversão de pênaltis de La Liga. No total da competição, ele soma 5 gols, o que o coloca como o artilheiro isolado da Espanha. Ele já marcou 3 gols de pênalti pela seleção principal ao longo de sua carreira.
Aos 13 minutos do segundo tempo, o lateral direito Pedro Porro fez o segundo gol da Espanha, consolidando a vitória e confirmando uma característica dessa equipe: a responsabilidade não fica concentrada em uma única estrela. Apesar de atuar na defesa, Porro tem aparecido de forma extremamente decisiva no campo de ataque, acumulando 2 gols em momentos cruciais do mata-mata.
Lamine Yamal foi fundamental na vitória, criando chances, quebrando linhas com seus dribles e puxando a marcação dupla francesa. Mesmo com apenas um gol na Copa, o jovem talento esbanja personalidade e já tinha dito que não tinha medo da França. Ele é um dos jogadores mais jovens a marcar numa Copa do Mundo desde Pelé em 1958.
Naquela partida, Mbappé cobrou uma falta, mesmo não sendo o cobrador do time, mas não conseguiu o gol. Ele teve uma atuação apagada, bem marcada pela defesa espanhola e acabou recebendo um cartão amarelo aos 41 minutos do segundo tempo. Com a neutralização, o francês não conseguiu ser determinante como de costume.
Assumir a responsabilidade não significa, necessariamente, decidir o jogo. Às vezes, o jogador quer o jogo, mas o adversário consegue anulá-lo Em outras, nem isso é suficiente.
Enquanto Mbappé era cercado e tinha dificuldade para influenciar a partida, a Espanha dividia o protagonismo. Yamal ia atrás da bola, Oyarzabal assumia a cobrança do pênalti e Pedro Porro aparecia mais uma vez em um momento decisivo. O protagonismo espanhol não ficou concentrado em um único jogador.
Inglaterra x Argentina
O segundo jogo da semifinal foi Inglaterra e Argentina. Muito se falava do “grande líder” Harry Kane, mas a semifinal mostrou que carregar esse peso não depende apenas de quem veste a braçadeira ou costuma decidir jogos.
Com uma disputa bem física, o primeiro tempo terminou sem gols. Aos 10 minutos do segundo tempo, Anthony Gordon marcou para a Inglaterra em uma jogada iniciada por Kane. Gordon assumiu uma função tática de muita velocidade, drible e recomposição defensiva na seleção inglesa. Mas, talvez, o protagonista dessa eliminação tenha sido o técnico Thomas Tuchel, que colocou o time na defesa depois do gol aos 10 minutos do segundo tempo. A partir desse momento, o time inglês só se defendeu, abrindo mão do jogo.
Aos 26 minutos do segundo tempo, Tuchel tirou Gordon e colocou o zagueiro Ezri Konsa. Foi uma enxurrada de críticas, porque ainda faltava muito tempo de bola no pé. Kane e Bellingham também se colocaram na defesa e o time inteiro se retraiu. Bellingham sofreu com a tripla marcação de Paredes, Mac Allister e Enzo Fernández, enquanto Kane era praticamente neutralizado pelos zagueiros Romero e Martínez. Ambos sofreram com a estratégia de Tuchel, que os deixou isolados sem o apoio do resto do time.
Foi justamente quando a Inglaterra deixou de atacar que a Argentina encontrou espaço para assumir o controle emocional da partida, subindo de nível. Enzo Fernández marcou aos 39 minutos do segundo tempo, com um passe feito por Messi. A torcida argentina explodiu. Fernández foi o melhor em campo e atuou em todas as partidas, fazendo 2 gols e dando 420 passes certos, com 94% de aproveitamento.
Messi foi o principal responsável por essa mudança de cenário. Para fugir da marcação de Declan Rice, saiu do meio-campo e começou a cair pelo lado direito, criando as melhores chances da atual campeã do mundo. Já considerado o melhor jogador da Copa, o camisa 10 mostrou porque continua sendo decisivo.
O jogo continuava empatado e a Argentina queria resolver. Mac Allister cabeceou na trave e, na sequência, Lautaro Martínez marcou o gol da virada. Messi, “o comandante”, fez o que se espera de um jogador que chama a responsabilidade para si, chutou de pé direito e pôs na cabeça de Lautaro, chegando a dez assistências em copas do mundo. Duas em 2026.
Lautaro entrou no jogo faltando dez minutos para acabar. Ele passou parte da Copa no banco, tendo jogado 3 jogos como titular e 4 saindo do banco. Ele tem 3 gols e 1 assistência, boa surpresa no duelo.
No mata-mata, a Argentina marcou 11 gols, sendo que nove deles aconteceram a partir dos 79 minutos de jogo (ou mais tarde). Os argentinos têm a garra que a gente queria que os brasileiros de hoje tivessem.
Thomas Tuchel só voltou a colocar atacantes no jogo já com o placar de 2 a 1. Errou com suas decisões táticas e, durante a entrevista, disse: “Assumo a responsabilidade”, seguido de um “sem arrependimentos.”
Faltou coragem para o técnico, faltou malandragem para os jogadores.
Mbappé e Messi já erraram pênaltis nesta Copa e voltaram a marcar depois. Chamar a responsabilidade não significa acertar sempre. Messi e Yamal mostraram que assumir a responsabilidade vai além de fazer gols. Eles continuaram procurando o jogo, pedindo a bola e criando oportunidades para seus companheiros. Talvez seja isso que realmente diferencie quem chama a responsabilidade para si de quem simplesmente espera que ela apareça.
Messi, Mbappé e Yamal aceitaram o peso da responsabilidade, mas apenas Messi e Yamal conseguiram transformá-la em protagonismo para suas equipes. Que venha a final!
