
Por Sandra Vasconcelos
Baseado no drama de Joana da Paz, retratado no livro de Fábio Gusmão, o filme “Vitória” é estrelado por Fernanda Montenegro e escancara uma vida de batalhas — que não é exceção.
Logo nas primeiras cenas, ouvi a seguinte frase: “[…] eu não teria essa coragem”. Acredito que o brilho do filme está justamente nessa atitude que desafia o comum e o status social, representando uma maneira de agir aparentemente irracional ou impensável. Os pilares que sustentam essa narrativa parecem ser o desconforto de enfrentar o que está errado e a determinação de buscar uma mudança — não somente para si, mas também para os outros.
O longa-metragem conta a história de Joana Zeferino da Paz, uma empregada doméstica aposentada e massagista que, aos 80 anos, vivia sozinha em frente à Ladeira dos Tabajaras, uma comunidade em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Cansada de viver sob a constante ameaça da violência, Joana decidiu enfrentar o tráfico de drogas usando uma filmadora VHS — comprada em 12 parcelas — como sua arma de proteção. É importante contextualizar que isso aconteceu no início dos anos 2000, época em que era raro ter uma câmera, um celular ou qualquer outra tecnologia tão comum atualmente.
Joana gravou tudo e entregou as fitas na sede do SINPOL, o Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Rio de Janeiro. Lá, o material foi descoberto pelo jornalista Fábio Gusmão, que, na época, cobria segurança pública no jornal Extra.
Ao analisar as filmagens, Gusmão se impressionou não só com as cenas de violência, uso de drogas e movimentação policial, mas também com a narração de Joana, presente em segundo plano, descrevendo os acontecimentos com um tom de indignação.
A publicação da reportagem no Extra, em 2005, desencadeou uma operação policial que prendeu mais de 30 pessoas, incluindo PMs. Joana, porém, pagou um preço alto: entrou no Programa de Proteção a Testemunhas, mudou de nome e de estado, e viveu como “Vitória” até seu falecimento, em 2023, aos 97 anos.

A sensibilidade e a simbologia na produção
Dirigido inicialmente por Breno Silveira e finalizado por Andrucha Waddington após sua morte, “Vitória” contou com a bênção de Joana, ainda viva durante a produção, mas protegida pelo anonimato. Fernanda Montenegro, aos 95 anos, encarna Nina (versão ficcional de Joana) com uma atuação repleta de sensibilidade, humor e força — mesmo diante da polêmica sobre a escolha de uma atriz não negra para o papel.
A escolha por Montenegro gerou debates, já que Joana era uma mulher negra. No entanto, Fábio Gusmão afirma que, no início das filmagens, sua identidade ainda era sigilosa, e a própria Joana havia sugerido a atriz como uma possibilidade para o papel, afirmando que a admirava.
Logo no primeiro ato, a trama apresenta a solidão diária de Nina, mas utiliza interações com outros personagens para ressaltar a capacidade da protagonista de criar laços com aqueles que a ajudam. A personagem é retratada em nuances: ao mesmo tempo que enfrenta o medo diariamente, ela mantém um senso de justiça, uma coragem e um bom humor incomparáveis.
Ao longo da história, o público percebe duas simbologias muito impactantes: a casa e o café. O lugar onde a protagonista vive não é apenas sua moradia, mas também onde encontra paz e significado para todo o esforço feito ao longo da vida, mesmo sob o alto risco dos recorrentes tiroteios. Já a xícara e o café, elementos tão comuns na cultura brasileira, representam um ritual cotidiano que, em cena, se transforma em uma metáfora de tensão. À medida que o líquido cai na xícara, a apreensão cresce, sugerindo que algo terrível está prestes a acontecer.
Essa linguagem visual, somada à química do elenco, transforma “Vitória” em um retrato sensível do impacto da violência urbana e da capacidade humana de lutar, mesmo quando tudo parece perdido.
O ouro de Vitória está na sinergia do elenco
Assim como em “Ainda Estou Aqui”, o público se identifica com pelo menos um elemento do filme, sentindo que a dor retratada na tela é real e palpável.
A solidão de Nina promove uma reflexão sobre outras pessoas que vivem situações semelhantes, especialmente em grandes cidades como o Rio de Janeiro, onde o isolamento se torna um desafio cotidiano devido ao alto índice de violência urbana.
No início dos anos 2000, o jornalista Fábio Gusmão tratava questões de insegurança urbana no dia a dia, mas foi a história da moradora que acendeu um alerta. Ele é interpretado por Alan Rocha no filme, que consegue representar cuidadosamente um profissional que apura, busca e ouve Nina por meses — e ainda assume riscos — com a missão de ajudá-la.
Já a cabeleireira Bibiana (Linn da Quebrada) e o menino Marcinho (Thawan Lucas) são figuras que não existiram na história real de Joana, mas foram adicionadas à vida de Nina para potencializar e abrilhantar características da protagonista. Em um trecho do trailer, Bibiana chama Nina para dançar, e a sintonia das duas representa esse forte traço da personalidade de Joana: uma senhora que, mesmo diante do caos, se mostrava alegre, amava dançar e se cuidar… buscava a liberdade de ser quem era.
Marcinho, um pré-adolescente periférico que passa por dificuldades em casa, é um personagem que demonstra a generosidade, a força e o cuidado que Joana tinha a oferecer, mesmo que, em muitos momentos da vida, não tenha recebido o mesmo afeto. Thawan Lucas interpreta com maestria um menino periférico que muda e é moldado pela influência do ambiente ao longo do filme.
Portanto, “Vitória” não se resume à potente atuação de Fernanda Montenegro. Os coadjuvantes que cercam Nina enriquecem a narrativa, mostrando como o tráfico de drogas impacta vidas de maneiras diferentes, dependendo do contexto em que cada um vive. O filme é um retrato sensível e intenso de uma mulher que, mesmo diante do medo e da solidão, decidiu lutar por justiça — e pagou um preço alto por isso.
Assistir Vitória é sair do cinema se questionando: “Eu teria essa coragem?”
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine Ninja. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine Ninja ou Mídia NINJA.