9 de setembro de 2026
O objetivo de Trump ao impulsionar Milei buscar as Malvinas
Trump ao revisar sua posição sobre as Malvinas incentiva Milei, pressionando a Inglaterra por objetivos que suplantam a questão regional
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que está “reavaliando” a posição de neutralidade histórica do país sobre a soberania das Ilhas Malvinas (Falklands). Essa declaração impulsionou o presidente da Argentina, Javier Milei, a endurecer o discurso e anunciar medidas drásticas contra a exploração britânica de petróleo na região. Embora Trump não tenha dado uma autorização direta ou formal para a Argentina tomar as ilhas, a sinalização de Washington de que pode deixar de apoiar cegamente o Reino Unido foi vista por Buenos Aires como um enorme sinal verde diplomático.
A mudança de postura de Trump não é necessariamente um apoio ideológico à causa argentina, mas sim uma estratégia de pressão geopolítica e de cobrança à OTAN. Trump indicou que a revisão de postura serve para pressionar o governo do Reino Unido a elevar seus investimentos em defesa na OTAN e a comprar mais armamento dos EUA. Em entrevistas, Trump queixou-se de que Londres não ofereceu apoio militar ativo aos EUA em tensões recentes contra o Irã, justificando que “sempre reavalia posições” de quem não o ajuda.
No contexto atual, o presidente argentino tem se posicionado como um forte aliado estratégico da Casa Branca na América Latina. A reação de Javier Milei, aproveitando o que chamou de “ventos de mudança”, foi verbalizar um pronunciamento em cadeia nacional na Argentina e anunciar as seguintes ações:
Assinatura de decretos para punir e acelerar sanções contra as empresas petrolíferas, como a britânica Rockhopper e a israelense Navitas, que tentam explorar o megacampo de petróleo Sea Lion, ao norte das ilhas. É quando a economia determina a ação política, ou simplesmente a acentua. As tratativas argentinas estão incluindo punições a parceiros, onde empresas aliadas, fornecedores ou acionistas dessas petrolíferas ficarão proibidos de operar no território continental da Argentina.
Em relação à presença militar, Milei anunciou o plano de construir uma nova base naval integrada na Terra do Fogo para monitorar e defender o Atlântico Sul. O Ministério da Defesa e a diplomacia britânica afirmaram que o compromisso com as ilhas é “absoluto e inabalável”. Londres reforçou o princípio de autodeterminação, lembrando que os habitantes locais escolheram massivamente continuar sendo um território ultramarino do Reino Unido. Ministros ironizam o tom de Milei, afirmando que a retórica argentina serve mais para resolver problemas de política interna e popularidade do que para alterar a realidade das ilhas.
Os burocratas britânicos se referem, de forma irônica e minimalista, à tentativa de retomar as ilhas, perdidas em 1833. A ditadura militar argentina, liderada pelo general Leopoldo Galtieri, enfrentava uma grave crise econômica e protestos populares. A invasão de Galtieri, em 2 de abril de 1982, serviu para desviar o foco da crise interna e unir o país. O general ordenou a invasão militar das ilhas. A ação deu início à Guerra das Malvinas, que durou pouco mais de dois meses e terminou com a derrota argentina e a manutenção do controle britânico.
O paralelo histórico é que Javier Milei enfrenta, em 2027, uma tentativa de reeleição, assim como os militares tinham como objetivo manter a nação ao lado da ditadura por meio de uma união na busca pelas ilhas. Importante ressaltar que a retomada das Malvinas supera a questão de ideologia, embora a oposição peronista critique Milei por não ter avançado nesta seara até agora.
Visitando a história, podemos relatar que as Ilhas Malvinas possuem um processo de fatos marcado por disputas de soberania entre potências europeias e, posteriormente, entre a Argentina e o Reino Unido, culminando na invasão militar ordenada pelo general Leopoldo Galtieri em 1982.
A descoberta e os primeiros processos de colonização remontam aos séculos XVI a XVIII. O avistamento inicial ocorreu quando navegadores europeus relataram as ilhas no século XVI, mas os registros exatos ainda geram debate. A primeira colônia, em 1764, tornou-se oficial quando os franceses fundaram o primeiro assentamento em Port Louis, liderados por Louis Antoine de Bougainville. Já a presença britânica, em 1765, tem registro quando os britânicos estabeleceram uma base em Saunders Island.
O domínio espanhol, a partir de 1767, teve início com a compra da colônia francesa e, em 1770, com a expulsão temporária dos britânicos. A Espanha administrou a região por décadas.
A independência argentina e o século XIX vieram acompanhados da herança de uma disputa de soberania. Após a independência da Argentina, em 1816, o novo governo reclamou os territórios que pertenciam ao Vice-Reino do Rio da Prata, incluindo as Malvinas. A colonização argentina, entre 1820 e 1831, enviou autoridades e colonos para fixar residência e regular a pesca na região.
Entretanto, ocorreu a retomada britânica, em 1833, quando forças navais da Grã-Bretanha expulsaram as autoridades argentinas restantes e estabeleceram o domínio colonial britânico permanente, transformando as ilhas em um território ultramarino. Decorrente desse processo, a Argentina nunca aceitou a perda de 1833 e manteve protestos diplomáticos na ONU e em fóruns internacionais ao longo do século XX.
Reportando melhor o tempo presente dessa história, com implicações na geopolítica de parte do Sul Global, podemos descobrir que há mais do que o controle das ilhas nessa estratégia que insere os Estados Unidos, a Argentina e o Reino Unido — leia-se OTAN.
No desdobramento desse contexto, o presidente argentino, Javier Milei, intensificou, na quinta-feira (27/8), a disputa de seu país com o Reino Unido sobre as Ilhas Malvinas, prometendo novas medidas para interromper um projeto petrolífero próximo ao arquipélago controlado pelos britânicos e elogiando o presidente dos EUA, Donald Trump, por dizer que Washington poderia reconsiderar sua posição neutra sobre a soberania das ilhas.
Milei interpretou os comentários de Trump como prova de que seu relacionamento próximo com o presidente dos EUA — criticado por oponentes políticos como excessivamente diferente — estava dando resultados.
“Os Estados Unidos estão considerando essa mudança de posição porque sabem que a Argentina tem um parceiro confiável, alinhado aos valores ocidentais, em uma posição estrategicamente importante, que pode ser um aliado valioso nas próximas décadas”, disse Milei em um discurso transmitido em rede nacional.
É nesse desdobramento que o líder argentino anunciou, então, medidas drásticas com o objetivo de impedir o desenvolvimento do projeto petrolífero em águas profundas Sea Lion, a cerca de 220 km (140 milhas) ao norte das ilhas, onde a empresa britânica Rockhopper Exploration e a israelense Navitas Petroleum planejam iniciar a perfuração nos próximos meses e começar a extrair petróleo em 2028. A Argentina considera o projeto uma exploração ilegal de recursos em águas que reivindica como suas.
Ele ameaçou com sanções mais duras contra empresas envolvidas na perfuração em alto-mar e anunciou novo financiamento para uma base naval na província mais meridional da Argentina, Tierra del Fuego, para reforçar a presença militar do país perto das ilhas, conhecidas na Argentina como Malvinas.
“A Argentina não ficará de braços cruzados”, disse Milei. “Qualquer avanço adicional nas Ilhas Malvinas será considerado uma violação de nossa segurança nacional.”
O esforço de Milei para redirecionar a atenção para as Ilhas Malvinas representa uma mudança surpreendente para um líder que enfrentou críticas em seu país por estreitar laços com a Grã-Bretanha e professar admiração por Margaret Thatcher, a primeira-ministra britânica detestada na Argentina por liderar a campanha para retomar o arquipélago durante a Guerra das Malvinas de 1982.
O conflito de dois meses, que matou 649 soldados argentinos, 255 militares britânicos e três habitantes da ilha, continua sendo um ponto sensível na Argentina mais de quatro décadas depois.
A reivindicação de soberania está consagrada na Constituição argentina e é frequentemente invocada como expressão de identidade nacional, desde notas de banco até cânticos de torcida da Copa do Mundo. É também uma das poucas causas que transcendem as profundas divisões políticas do país, oferecendo a Milei, que concorre à reeleição no próximo ano, uma bem-vinda oportunidade política em um momento em que seus índices de aprovação caem e a economia enfrenta dificuldades.
“Podemos discutir sobre meu estilo. Podemos discordar sobre política fiscal ou cambial”, disse Milei. “Mas existem causas que transcendem qualquer diferença política. As Malvinas são uma delas.”
“Ele quer usar a reivindicação legítima de soberania sobre as Ilhas Malvinas para recuperar terreno antes do ano eleitoral e servir aos interesses dos EUA em sua disputa com a Grã-Bretanha”, disse Nicolas del Cano, um parlamentar da oposição de esquerda.
Como já relatado, a Argentina afirma ter herdado a soberania sobre as ilhas de seu antigo colonizador, a Espanha, e que a Grã-Bretanha as ocupa ilegalmente desde 1833. A Grã-Bretanha rejeita essa alegação, citando o desejo dos habitantes das ilhas de permanecerem em um território ultramarino britânico.
Durante décadas, sucessivas administrações estadunidenses mantiveram-se neutras em relação às reivindicações concorrentes, embora reconhecessem a administração de facto das ilhas pelo Reino Unido. Qualquer mudança nessa posição seria uma grave afronta diplomática e inflamaria ainda mais as já elevadas tensões transatlânticas.
Na segunda-feira, Trump gerou preocupação na Grã-Bretanha ao ser questionado se seu governo estava revisando sua posição sobre a disputa que já dura décadas. “Eu sempre reviso todas as minhas posições”, respondeu ele. “Essa é apenas uma entre muitas.”
Em seguida, em uma entrevista transmitida na quinta-feira pela emissora britânica GB News, Trump esquivou-se de responder diretamente a uma pergunta sobre se os EUA “iriam em auxílio” da Grã-Bretanha em outro conflito pelas Malvinas. Em vez disso, ele repetiu queixas anteriores de que a Grã-Bretanha não havia fornecido apoio suficiente à campanha de bombardeio liderada pelos EUA contra o Irã.
“Seu país não estava lá para me ajudar”, disse Trump, lembrando-se de que o ex-primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, lhe disse que o país não tinha navios para contribuir com a campanha. “Foi muito triste, toda aquela situação.”
O governo Trump já havia mencionado as Ilhas Malvinas como forma de pressão: um e-mail interno do Pentágono, vazado em abril, levantou a possibilidade de Washington reconsiderar sua posição sobre as ilhas como uma possível maneira de punir os aliados da OTAN que se recusassem a participar da guerra dos EUA contra o Irã.
Seus comentários forçaram Downing Street a insistir que a Grã-Bretanha não abriria mão da soberania sobre as Ilhas Malvinas.
“A soberania pertence ao Reino Unido, e o direito dos habitantes das ilhas à autodeterminação é primordial”, disse Tom Wells, porta-voz do primeiro-ministro britânico Andy Burnham, no início desta semana, referindo-se a um referendo de 2013 no qual os cerca de 4.000 habitantes das Ilhas Malvinas votaram esmagadoramente a favor de permanecerem como um território ultramarino britânico.
Sob pressão da oposição peronista argentina, que o acusa de negligenciar a reivindicação de soberania da Argentina, Milei tem se manifestado com mais veemência sobre as Ilhas Malvinas, à medida que os planos para a produção de petróleo em larga escala ao redor das ilhas aumentam os interesses econômicos da disputa.
Em seu discurso, Milei alertou que o projeto Sea Lion poderia desencadear um boom petrolífero mais amplo nas Ilhas Malvinas, enriquecendo as ilhas com recursos que a Argentina reivindica como seus e consolidando ainda mais a presença britânica. Não houve resposta imediata de Downing Street na manhã de sexta-feira (29/8).
“Se permitirmos, estaremos criando um incentivo para que o governo britânico aprofunde a ocupação das ilhas e a exploração dos nossos recursos”, disse Milei.
Milei prometeu acelerar as sanções contra empresas envolvidas em projetos petrolíferos nas ilhas e estender as penalidades a fornecedores, acionistas e diretores. A legislação proposta por ele também poderia impedir que empresas ligadas a esses projetos operassem ou assinassem contratos na Argentina.
Apesar de ter reduzido drasticamente os gastos públicos em outras áreas como parte de sua política de austeridade, Milei também prometeu mais verbas para a construção de uma base naval na Terra do Fogo e para a modernização da infraestrutura de telecomunicações da Argentina na região, visando fortalecer a presença do país no Atlântico Sul.
“Um país pobre sem forças armadas dificilmente conseguirá avançar de forma efetiva em suas reivindicações de soberania”, afirmou.
A conclusão deste tabuleiro geopolítico bebe na fonte histórica, mas mira nas cartadas que as nações envolvidas vão apresentar. O cerne é trabalhar a ideia de que existe uma amplidão neste conflito de demandas. Assim, há uma possibilidade de quebra estrutural do impacto, das motivações e das consequências dessa dinâmica internacional.
O tabuleiro geopolítico da relação especial entre EUA e Reino Unido é historicamente baseado em apoio mútuo. No entanto, a doutrina de Trump prioriza o pragmatismo transacional (“América Primeiro”). Neste cenário, as Malvinas deixam de ser uma disputa regional e passam a ser uma moeda de troca global. Trump usaria o ímpeto e o alinhamento ideológico de Milei como uma alavanca psicológica e militar contra Londres.
O apoio de Washington a Buenos Aires não seria por benevolência à Argentina, mas sim um movimento estratégico direcionado ao Parlamento britânico, ou seja, o fim da “carona” militar. Trump frequentemente critica aliados da OTAN por não gastarem o suficiente em defesa ou por não se engajarem diretamente em conflitos liderados pelos EUA, como potenciais escaladas no Oriente Médio ou no Indo-Pacífico. Portanto, a mensagem a Londres seria clara: “Se o Reino Unido quer que os EUA garantam a soberania de seus territórios ultramarinos, o Reino Unido deve enviar tropas, navios e apoio financeiro para as frentes de batalha que os EUA escolherem”.
É a lógica antiga de dividir para barganhar: ao enfraquecer o apoio automático britânico, Trump forçaria o primeiro-ministro britânico a ceder a termos comerciais ou militares altamente desfavoráveis para reaver o apoio da Casa Branca.
No que tange à Argentina, além do interesse eleitoral para 2027, mostrando aos argentinos uma ação protagonista de buscar as Malvinas, cabe o papel de oportunismo político, sem excluir a possibilidade de alcançar algum ganho sobre os territórios das ilhas e as propensas reservas petrolíferas no entorno. Nesta estratégia, para a Argentina de Milei, que busca um alinhamento total com os EUA e o Ocidente, este cenário traria bônus e riscos possíveis.
A recuperação das Malvinas é uma causa constitucional e patriótica unânime na Argentina. Conseguir o aval da maior potência do mundo seria uma vitória política histórica para Milei. Entretanto, cabe destacar que isso significaria uma dependência exclusiva. Milei poderia transformar a Argentina em um braço operacional dos EUA na América Latina em troca desse apoio, possivelmente cedendo espaço para bases militares ou para o controle de recursos estratégicos, como o lítio e o acesso à Antártida.
Numa definição acadêmica, a geopolítica estuda como o poder, o território e a geografia influenciam as relações entre os países. Diante dessas premissas, nada impede que essa conjuntura evolua para um avanço territorial da Argentina sobre as ilhas, com autorização de Trump, enquanto, para o Reino Unido, uma permanência na comunidade onde coexistam britânicos e argentinos, preservando, porém, o direito das companhias petrolíferas inglesas de explorar os recursos da região.
É a economia que, nesse cenário, impõe escolhas políticas.
Numa abordagem aos Estados Unidos, observa-se seu avanço, passo a passo, no controle da passagem do Atlântico Sul, pelo Estreito de Drake, entre a Terra do Fogo e a Antártida, estabelecendo pontos estratégicos com unidades militares em solo argentino. Exceto se Trump conseguir êxito em obter uma maior contribuição financeira da OTAN pela segurança dos EUA e do Velho Continente.
Como o próprio Trump declarou, “está sempre revisando suas posições”. Nesse remoto contexto, restaria a Milei apostar apenas em seu esforço para recuperar as Malvinas, com o objetivo de fortalecer sua candidatura a um segundo mandato em 2027.
