O manual da extrema direita para atacar as feministas na América Latina

Portal Inhaí
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Da Argentina de Javier Milei ao Brasil de Jair Bolsonaro, passando por El Salvador de Nayib Bukele e, mais recentemente, pelo Chile de José Antonio Kast, governos e lideranças de extrema direita vêm adotando estratégias semelhantes para atacar direitos das mulheres e da população LGBTQIA+, enfraquecer políticas de igualdade de gênero e restringir direitos sexuais e reprodutivos.

Agora, a Colômbia pode se tornar o próximo capítulo dessa história. Abelardo de la Espriella, candidato que construiu sua imagem pública em torno de uma masculinidade agressiva, de valores conservadores e de discursos alinhados ao universo red pill, disputa a presidência prometendo fechar o Ministério da Igualdade, restringir avanços em direitos reprodutivos e combater o que chama de “ideologia de gênero”.

Embora cada país tenha suas particularidades, ativistas e especialistas identificam um roteiro comum: ataques à educação sexual, desmonte de políticas públicas para mulheres, fortalecimento de grupos religiosos conservadores, perseguição a vozes feministas, restrições ao acesso ao aborto e campanhas contra direitos LGBTQIA+.

O governo de José Antonio Kast no Chile, considerado o maior giro à direita desde o fim da ditadura militar, oferece um exemplo recente de como essa agenda pode se traduzir em políticas concretas. Entender essas estratégias ajuda a compreender não apenas o que já aconteceu na região, mas também os riscos que se colocam para o futuro da democracia e dos direitos das mulheres na América Latina.

Mudanças na educação sexual nas escolas

Kast pretende reformar a educação sexual nas escolas. Durante sua primeira campanha presidencial, em 2017, defendeu a eliminação de programas e conteúdos curriculares que, segundo ele, promoviam o aborto e as chamadas “ideologias de gênero”. Em 2025, voltou ao tema prometendo garantir uma “educação sem ideologias”.

A proposta contrasta com a do ex-presidente Gabriel Boric. Em janeiro de 2026, seu governo retomou um projeto de lei para ampliar a educação sexual nas escolas. A iniciativa enfrentou forte oposição de parlamentares de extrema direita, que a classificaram como “ideologicamente motivada”. Embora tenha sido aprovada por uma comissão do Congresso, ainda precisa passar por outras etapas legislativas para virar lei.

A posição de Kast ecoa discursos já conhecidos no Brasil, como o movimento “Escola sem Partido”, impulsionado durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), que buscou restringir a educação sexual associando-a à “sexualização precoce” e ao “doutrinamento ideológico”.

Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele também adotou medidas semelhantes. Em 2022, o Ministério da Educação retirou do currículo do ensino médio conteúdos sobre educação sexual, prevenção da violência de gênero e orientação sexual.

Violência digital

A violência digital — incluindo assédio online e discursos de ódio — tem sido utilizada como ferramenta por movimentos e lideranças de extrema direita.

No Chile, Martín de la Sotta, diretor da organização Chile Necesita ESI, afirma que os ataques nas redes sociais aumentaram desde a campanha presidencial de Kast, com o objetivo de intimidar e silenciar ativistas.

O próprio De la Sotta foi alvo de uma campanha coordenada de assédio digital.

“Tiraram fotos minhas em uma festa e publicaram na internet dizendo: ‘Este é o pedófilo que quer abusar dos seus filhos’, e coisas desse tipo”, relatou.

A deputada Emilia Schneider, primeira parlamentar abertamente transgênero do Chile e reeleita em 2025, também foi alvo de ataques. Fotos anteriores à sua transição passaram a circular nas redes sociais acompanhadas de mensagens transfóbicas.

Segundo De la Sotta, os ataques fazem parte de uma estratégia para deslegitimar vozes feministas, LGBTQIA+ e defensoras dos direitos humanos.

Feministas exiladas

As ameaças e campanhas de intimidação levaram jornalistas e ativistas feministas a deixar seus países de origem após denunciarem violações de direitos humanos ou criticarem governos de extrema direita.

A jornalista argentina Luciana Peker relata que o assédio online se intensificou após a publicação de uma reportagem sobre o aumento dos feminicídios em 2022. As ameaças de morte se multiplicaram.

Dez dias após a posse de Javier Milei, em dezembro de 2023, ela deixou a Argentina.

“A violência vinha de setores ligados às pessoas que chegaram ao governo. Não havia condições seguras para falar, escrever, viver ou trabalhar”, afirmou.

No Brasil, após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, um padrão semelhante de intimidação levou a pesquisadora e especialista em direitos reprodutivos Debora Diniz a deixar o país. Ela relata ter sofrido perseguições online e ameaças de morte após defender, no Supremo Tribunal Federal, a descriminalização do aborto.

Para Diniz, a questão de gênero ocupa um papel central na estratégia da extrema direita:

“Controlar as mulheres — quando, como e com quem elas têm filhos — significa controlar a reprodução da vida social e, em última instância, a reprodução do poder.”

Obstáculos para acessar o aborto

José Antonio Kast defende o retorno à proibição total do aborto no Chile, inclusive em casos de estupro. O presidente afirma defender “a vida desde a concepção até a morte natural”, posição compartilhada por setores da Igreja Católica e por grupos evangélicos que apoiam sua gestão.

Desde a reforma de 2017, o aborto é permitido no Chile apenas em três situações: risco de vida da gestante, inviabilidade fetal e gravidez resultante de estupro. Mesmo assim, pesquisas indicam que cerca de 80% da população apoia o acesso ao aborto em determinadas circunstâncias.

O governo anterior, liderado por Gabriel Boric, apresentou um projeto para permitir a interrupção voluntária da gravidez até a 14ª semana. No entanto, a proposta enfrenta dificuldades no Congresso, especialmente em comissões controladas por aliados de Kast.

Ativistas alertam que o acesso ao aborto pode se tornar ainda mais difícil. Mesmo antes da chegada de Kast ao poder, quase metade dos profissionais de obstetrícia que atuam em hospitais públicos já se declaravam objetores de consciência em casos de aborto legal por estupro.

Para Ingrid Narbona, advogada da Rede de Profissionais pelo Direito de Decidir no Chile, governos contrários aos direitos reprodutivos criam um ambiente que legitima a recusa de atendimento.

“Quando os direitos são restringidos, as mulheres não deixam de precisar de abortos. Elas apenas recorrem a alternativas inseguras ou ilegais.”

O cenário lembra o de El Salvador, onde o aborto é totalmente proibido. Embora Nayib Bukele tenha defendido anteriormente exceções limitadas, passou a adotar uma posição fortemente antiaborto, chegando a classificá-lo como um “grande genocídio”.

A expansão do fundamentalismo cristão

Segundo Giselle Carino, diretora da Fòs Feminista, uma das estratégias centrais da extrema direita latino-americana é expandir a influência de grupos religiosos conservadores para além dos espaços políticos tradicionais.

Essa influência alcança conselhos médicos, comitês de bioética e instituições responsáveis por decisões técnicas sobre saúde pública.

Na Argentina, por exemplo, a Comissão Nacional de Bioética foi reestruturada em 2026 sob supervisão direta do Ministério da Saúde. Para especialistas, a mudança reforça a presença de setores religiosos conservadores em decisões relacionadas aos direitos sexuais e reprodutivos.

Carino identifica paralelos entre essa estratégia e o movimento MAGA, liderado por Donald Trump nos Estados Unidos, apontando uma articulação internacional entre forças nacionalistas, conservadoras e antigênero.

No Brasil, Jair Bolsonaro construiu grande parte de sua base política a partir da aliança com igrejas evangélicas e lideranças religiosas, utilizando discursos cristãos para atacar o aborto e os direitos LGBTQIA+.

Em El Salvador, Bukele também recorre frequentemente à linguagem religiosa para justificar políticas públicas, enquanto Kast mantém uma trajetória fortemente ligada ao Movimento de Schönstatt, organização católica ultraconservadora.

Durante a campanha presidencial, Kast afirmou:

“Acredito em Deus, acredito na pátria, acredito na família.”

Desde sua posse, o número de cerimônias religiosas realizadas no Palácio de La Moneda aumentou significativamente.

Cortes no financiamento das políticas para mulheres

Kast iniciou seu mandato declarando um “governo de emergência”, com foco em segurança, imigração e economia. Como parte dessa agenda, anunciou um plano de redução de aproximadamente 6 bilhões de dólares em gastos públicos.

Especialistas alertam que cortes dessa magnitude dificilmente ocorrerão sem impacto sobre políticas sociais, especialmente aquelas voltadas para saúde sexual e reprodutiva.

Luz Reidel, da organização Miles, afirma que enquadrar o país em uma lógica permanente de emergência faz com que serviços ligados aos direitos das mulheres sejam vistos como secundários.

O fenômeno já foi observado em outros países da região.

Na Argentina, sob o governo de Javier Milei, pelo menos 13 programas relacionados à igualdade de gênero foram suspensos ou descontinuados. Entre eles, iniciativas voltadas para a inclusão de pessoas trans e para o enfrentamento da violência contra as mulheres.

Os recursos destinados às políticas de combate à violência de gênero sofreram cortes próximos de 89% entre 2023 e 2024. O programa Acompañar, destinado ao apoio de sobreviventes de violência, teve redução de cerca de 90% em seu orçamento.

Para organizações feministas, esses cortes não representam apenas ajustes econômicos, mas uma redefinição política das prioridades do Estado.

Linguagem sob ataque

Uma das estratégias adotadas por governos de extrema direita na América Latina tem sido restringir termos ligados a gênero, sexualidade e diversidade, sob o argumento de combater o que chamam de “ideologia de gênero”.

Na Argentina, o governo de Javier Milei proibiu, em 2024, o uso da chamada linguagem inclusiva em documentos oficiais e na administração pública. Expressões voltadas ao reconhecimento de pessoas LGBTQIA+ e não binárias passaram a ser classificadas pelo governo como “distorções ideológicas”.

Em El Salvador, Nayib Bukele adotou medida semelhante. O governo proibiu o uso de linguagem inclusiva em escolas públicas e materiais estatais. Uma investigação do jornal El Faro revelou que orientações internas vetavam termos como “feminismo”, “feminista”, “masculinidades”, “orientação sexual”, além de referências à comunidade LGBTQIA+ e até mesmo às mudanças climáticas.

No Brasil, Jair Bolsonaro também se posicionou repetidamente contra o uso de linguagem neutra, afirmando que ela seria uma ameaça aos “valores tradicionais”.

Kast segue a mesma linha. Ainda como parlamentar, criticou publicamente o uso da linguagem inclusiva e afirmou que os chilenos deveriam “falar corretamente” e deixar de importar ideias do exterior.

Para ativistas, essas iniciativas vão além da linguagem: representam tentativas de limitar o debate público sobre desigualdade, discriminação e direitos humanos.

O desmonte das instituições de gênero

Desde o início de seu governo, Kast promoveu mudanças institucionais que despertaram preocupação entre organizações feministas.

No Ministério das Relações Exteriores do Chile, funcionários ligados a uma divisão responsável por promover uma política externa feminista foram demitidos.

Outra decisão criticada foi a nomeação de Judith Marín para o Ministério da Mulher e da Igualdade de Gênero. Ligada a setores evangélicos conservadores e conhecida por sua oposição ao aborto, Marín não possui trajetória reconhecida na formulação de políticas de gênero.

Para ativistas, a escolha sinaliza uma mudança de orientação política no órgão responsável pela promoção da igualdade entre homens e mulheres.

O movimento não é isolado.

Na Argentina, Javier Milei extinguiu o Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade, criado para formular políticas de combate à violência de gênero e promoção da igualdade.

Segundo especialistas, essas medidas têm um forte impacto simbólico e prático. Ao desmontar instituições públicas dedicadas aos direitos das mulheres, os governos reduzem a capacidade do Estado de formular e implementar políticas específicas para enfrentar desigualdades históricas.

Giselle Carino resume:

“O que pode parecer uma série de ações desconectadas faz parte da mesma estratégia.”

No Brasil, durante o governo Bolsonaro, o antigo Ministério das Mulheres foi reformulado e passou a se chamar Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Para ativistas, a substituição da palavra “gênero” por “família” representa uma mudança política importante, reforçando papéis tradicionais atribuídos às mulheres.

Resistência

Apesar dos retrocessos, movimentos feministas em toda a América Latina continuam construindo formas de resistência.

Nas últimas décadas, organizações de mulheres conquistaram avanços significativos no combate à violência de gênero e na ampliação dos direitos reprodutivos por meio de mobilizações de rua, ações judiciais, campanhas de comunicação e articulações internacionais.

Na Argentina, o movimento Ni Una Menos, criado em 2015 em resposta ao aumento dos feminicídios, levou milhões de pessoas às ruas e inspirou mobilizações semelhantes em países como Peru e Uruguai.

Outro exemplo é a Marea Verde, mobilização feminista que desempenhou papel fundamental na legalização do aborto na Argentina em 2020 e influenciou mudanças legislativas em outros países da região, incluindo Colômbia e México.

Mais recentemente, no Chile, cerca de 500 mil pessoas participaram das manifestações do Dia Internacional das Mulheres, poucos dias antes da posse de Kast. Foi a maior mobilização feminista do país desde a pandemia.

Para a advogada e ativista chilena María Francisca Di Biase, a principal lição é que os direitos nunca estão garantidos de forma permanente.

“Nossos direitos dependem de que continuemos levantando a voz. Precisamos seguir lutando e ocupando as ruas.”

Conclusão

Da educação sexual ao acesso ao aborto, passando pela linguagem, pelas instituições públicas e pela violência digital, os exemplos reunidos por ativistas e pesquisadoras apontam para um padrão regional: a extrema direita tem transformado os direitos das mulheres e da população LGBTQIA+ em um dos principais campos de disputa política.

Ao mesmo tempo, a história recente da América Latina mostra que os avanços conquistados também foram resultado de décadas de organização coletiva, mobilização social e resistência feminista.

E é justamente nessa disputa que se joga uma parte importante do futuro democrático da região.

Texto originalmente publicado por Fuller, rede internacional de jornalismo dedicada à cobertura das experiências de mulheres e pessoas de gênero diverso ao redor do mundo.



Por Midia Ninja

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