A participação do cientista político norte-americano Norman Finkelstein na Feira do Livro de São Paulo transformou-se em um ato político contra a guerra em Gaza, a repressão às vozes críticas ao governo israelense e o que o autor considera ser a falência moral das instituições internacionais diante da tragédia palestina. Em entrevista concedida à jornalista Patrícia Campos Mello, o pesquisador apresentou uma análise dura sobre os rumos do conflito, questionou a instrumentalização da memória do Holocausto e refletiu sobre os desafios enfrentados por ativistas, acadêmicos e jornalistas que denunciam violações de direitos humanos cometidas por Israel.
Autor de “A indústria do Holocausto: reflexões sobre a exploração do sofrimento judeu”, obra lançada originalmente em 2000 e publicada em português pela editora Autonomia Literária, Finkelstein é uma das vozes mais conhecidas da crítica ao sionismo político e às políticas de ocupação israelenses. Filho de sobreviventes dos campos de concentração nazistas, o pesquisador construiu sua trajetória intelectual questionando o uso político da memória do genocídio judeu e denunciando o que considera uma instrumentalização do sofrimento histórico para justificar ações contemporâneas do Estado de Israel.
Logo no início do debate, Finkelstein foi questionado sobre uma das teses centrais de seu livro: a ideia de que a memória do Holocausto teria sido transformada em instrumento ideológico para proteger Israel de críticas e garantir apoio político internacional. Ao responder, o pesquisador destacou que a obra não trata do genocídio nazista em si, mas da utilização política dessa memória. Segundo ele, quando escreveu o livro, o objetivo era demonstrar como o sofrimento histórico dos judeus vinha sendo mobilizado para legitimar políticas de Estado e neutralizar críticas relacionadas às violações de direitos humanos praticadas por Israel.
Para o pesquisador, as constantes referências ao genocídio nazista deixaram de produzir o mesmo efeito diante das imagens que chegam diariamente do território palestino. “Depois de um mês, eles pararam de usar essa comparação porque ela já não funcionava mais”, afirmou. Passados 25 anos da publicação de seu livro, Finkelstein acredita que o volume de mortes, a devastação da infraestrutura civil e o sofrimento da população palestina fizeram com que parte significativa da comunidade internacional passasse a enxergar o conflito por outra perspectiva.
Finkelstein também refletiu sobre a transformação do ambiente político nos Estados Unidos. Durante décadas, esteve entre os intelectuais mais isolados ao criticar as políticas israelenses dentro da academia norte-americana.
O pesquisador lembrou que, quando iniciou suas críticas públicas, poucas figuras de projeção nacional se posicionavam de forma contundente sobre a questão palestina. Entre elas, destacou o intelectual palestino-americano Edward Said e o linguista Noam Chomsky, ambos frequentemente alvo de campanhas de deslegitimação.
Segundo ele, o cenário atual é bastante diferente. “Está ficando fácil demais criticar Israel. Já não exige a mesma coragem de antes”, afirmou Finkelstein ao explicar que, em seu ponto de vista, artistas, professores, jornalistas e ativistas atualmente podem manifestar críticas cada vez mais abertas ao governo israelense. Ainda assim, rejeita a ideia de que a liberdade de expressão esteja plenamente garantida.
Na sua avaliação, coexistem dois movimentos simultâneos. De um lado, a opinião pública tornou-se mais receptiva às denúncias sobre Gaza; de outro, instituições acadêmicas e grandes organizações continuam impondo barreiras a quem desafia interesses políticos estabelecidos.
Universidades e a disputa pelas narrativas
Um dos momentos mais enfáticos da mesa ocorreu quando o pesquisador abordou os protestos estudantis realizados em universidades norte-americanas ao longo de 2024 e 2025. Finkelstein criticou a reação de reitores, financiadores e grupos de pressão que atuaram para desmobilizar acampamentos pró-Palestina em instituições como Harvard, Columbia e a Universidade da Pensilvânia. “Grandes doadores começaram a pressionar as universidades. Os bilionários procuraram reitores e presidentes de universidades e disseram, basicamente: ‘Se vocês não reprimirem esse movimento, vamos retirar nosso dinheiro’”, afirmou.
Segundo ele, relatórios produzidos por essas universidades para investigar denúncias de antissemitismo não apresentaram evidências concretas de perseguição sistemática contra estudantes judeus. O que aparecia, em sua leitura, era sobretudo o desconforto de alunos favoráveis a Israel diante de um ambiente político que passou a questionar mais fortemente as ações do governo israelense. Nesse contexto, o pesquisador defende que é necessário impedir que acusações de antissemitismo sejam utilizadas para silenciar debates legítimos sobre direitos humanos e política internacional.
Em uma declaração polêmica, ao refletir sobre os limites da convivência política e do silenciamento diante de acusações de crimes de guerra, o pesquisador afirmou: “Meu ponto de vista é simples: não sou obrigado a ser inclusivo com assassinos de crianças”, fazendo referência à convivência com sionistas dentro das universidades.
Questionado sobre o aumento de ataques antissemitas em diferentes países, o pesquisador adotou uma posição ambígua. Por um lado, reconheceu que há manifestações antijudaicas que precisam ser combatidas; por outro, afirmou que muitos indicadores apresentados por organizações internacionais misturam preconceito religioso ou étnico com críticas dirigidas ao Estado de Israel.
Segundo ele, a expansão de definições institucionais de antissemitismo tem contribuído para confundir os dois fenômenos. “O problema não é que as pessoas passaram a odiar judeus de repente. O problema é que existe um ressentimento crescente diante do que Israel está fazendo”, afirmou.
O pesquisador defende que parte do ressentimento observado atualmente decorre da associação promovida por entidades pró-Israel entre a identidade judaica e as ações do governo israelense. Em sua avaliação, essa estratégia acaba produzindo um efeito contrário ao desejado, ao transferir para comunidades judaicas responsabilidades relacionadas a decisões políticas de um Estado.
Embora tenha reiterado a necessidade de combater preconceitos, Finkelstein defendeu que a crítica às ações de Israel não pode ser confundida automaticamente com hostilidade contra judeus.
Gaza e o futuro impossível
Ao abordar os ataques de 7 de outubro de 2023, Finkelstein afirmou que crimes cometidos por grupos palestinos devem ser investigados e julgados de acordo com o direito internacional. No entanto, questionou algumas das narrativas amplamente divulgadas após os acontecimentos.
“Eu não estou completamente satisfeito com as investigações realizadas até agora, porque Israel não permitiu uma investigação internacional totalmente independente. Sempre que se trata de informações produzidas exclusivamente por Israel, mantenho uma postura cautelosa. Costumo brincar que, se eu perguntasse a Israel se está fazendo sol lá fora e eles respondessem que sim, eu ainda abriria a janela para conferir”, afirmou o pesquisador.
Segundo ele, determinadas acusações reproduzidas pela imprensa internacional não teriam sido confirmadas por investigações independentes. O pesquisador ressaltou a importância de análises baseadas em evidências verificáveis, e não em narrativas produzidas durante períodos de guerra. Ainda assim, reconheceu que civis israelenses foram mortos e que ocorreram ações que se enquadram em crimes de guerra, mas deixou em aberto questionamentos sobre a natureza específica desses crimes.
“Por exemplo, não acredito que existam evidências de que o Hamas ou outros grupos palestinos tenham utilizado o estupro como uma estratégia deliberada de guerra. As evidências simplesmente não sustentam essa conclusão. Se os ataques foram amplamente registrados e divulgados nas redes sociais pelos próprios participantes, como afirmam os investigadores, por que não existe nenhuma evidência visual desses supostos crimes? Para mim, isso não faz sentido”, afirmou. Ao final da fala, o pesquisador deixou em aberto o questionamento e anunciou que está escrevendo um novo livro sobre Gaza que aborda essa temática.
Para o pesquisador, ainda é necessário considerar os aspectos históricos do conflito. “Não é possível compreender os ataques sem considerar décadas de ocupação, bloqueio, controle territorial e sucessivas operações militares em Gaza”, afirmou. Utilizando referências a revoltas de pessoas escravizadas nos Estados Unidos, Finkelstein argumentou que movimentos de resistência frequentemente produzem episódios violentos, sem que isso elimine a necessidade de compreender as condições que lhes deram origem.
Encaminhando-se para a finalização da entrevista, o pesquisador voltou suas reflexões para o futuro de Gaza. Descrevendo um cenário que considera próximo da destruição total, afirmou que bairros inteiros desapareceram, a infraestrutura urbana foi devastada e milhões de pessoas enfrentam condições extremas de sobrevivência. Para ele, o problema ultrapassa a dimensão militar e alcança níveis humanitários sem precedentes recentes. Mesmo que os bombardeios cessem imediatamente, o processo de reconstrução talvez não seja possível.
Relembrando a realidade atual, Finkelstein afirmou que “é difícil encontrar motivos para otimismo. Praticamente não restou nada em Gaza. Cerca de 90% das moradias foram destruídas ou danificadas, hospitais foram devastados, escolas desapareceram, a infraestrutura foi arrasada. Especialistas afirmam que apenas a remoção dos escombros poderá levar entre dez e quinze anos”.
Além da destruição física, o pesquisador destacou a crise alimentar, a escassez de água potável, a precarização dos serviços médicos e o deslocamento forçado da população. Em sua avaliação, a situação tornou-se tão grave que soluções convencionais já não parecem suficientes para responder à dimensão da catástrofe. “Recentemente surgiram propostas que tratam Gaza como se fosse um projeto imobiliário. Como se fosse possível simplesmente apagar o que aconteceu e começar de novo. Mas a população continua lá, as pessoas continuam lá, os mortos continuam mortos, os sobreviventes continuam traumatizados. Não existe reconstrução séria sem enfrentar essa realidade”, relembrou.
Ao longo do encontro, Finkelstein insistiu que o debate sobre Gaza não pode ser reduzido a disputas diplomáticas ou geopolíticas. Para o pesquisador, trata-se de uma questão moral que exige posicionamento diante do sofrimento humano. Mais do que discutir o passado ou interpretar acontecimentos recentes, sua fala foi um chamado para que a sociedade internacional enfrente uma pergunta incômoda: até que ponto o mundo está disposto a aceitar a devastação de um povo inteiro sem agir para interrompê-la?
