Por Silvio Porto e Tchenna Maso
As eleições de 2026 parecem reproduzir a tendência de uma disputa política cada vez mais acirrada nas redes sociais. Nesse ambiente, constrói-se uma falsa simetria entre Lula e Flávio Bolsonaro, como se representassem apenas duas alternativas equivalentes no espectro político, apagando as diferenças concretas entre os projetos de sociedade que representam a trajetória de vida de cada candidato.
Nesse sentido, Flávio Bolsonaro representa uma continuidade das políticas de morte de seu pai. Além da desconstrução de instituições, de políticas sociais, de saúde, de compras públicas e de segurança alimentar e nutricional. Durante o governo Bolsonaro (2018-2022), por volta de 33 milhões de brasileiros e brasileiras estavam passando fome. Em meio à pandemia de Covid-19, a população encontrou-se desassistida de políticas públicas. O preço dos alimentos subiu muito com a inflação, e o poder de compra do povo reduziu-se. Não havia subsídios para gás de cozinha. As pessoas começaram a formar fila em açougues para conseguir restos de osso para comer e cozinhar com lenha.
No tema do abastecimento alimentar, vivemos um verdadeiro desmonte da atuação do Estado. A CONAB, empresa pública criada para assegurar o abastecimento alimentar no Brasil, teve seu orçamento reduzido a patamares insignificantes. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado em 2003, visa articular produção e consumo. Possibilita, com o mesmo orçamento, promover a produção de alimentos saudáveis da agricultura familiar e, ao mesmo tempo, destinar esses alimentos para pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional. O Bolsonaro pai extinguiu o PAA, ao longo de seu governo, reduziu o orçamento desse programa a valores insignificantes, comparado aos governos anteriores.
Além disso, o governo Bolsonaro havia extinto o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), fechado o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) e, com isso, desidratado todas as instâncias de governança do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), comprometendo a execução de políticas de enfrentamento à fome, bem como a capacidade de desenvolvimento de novas políticas públicas, sobretudo na urgência de assegurar a proteção e a segurança alimentar e nutricional na pandemia.
Durante esse período, cerca de 27 unidades armazenadoras da Conab foram fechadas e estavam na lista de venda de imóveis públicos. A política severa para desidratar a Companhia levou o país a quase zerar os estoques públicos de arroz, feijão, café, produtos da cesta básica dos brasileiros e brasileiras. Sem investimentos em tecnologia, estruturas e reposição salarial, a Conab caminhava para seu fechamento.
De outro lado, o governo do presidente Lula retomou o enfrentamento à fome e a efetivação do direito humano à alimentação adequada. As cozinhas solidárias, iniciativas dos movimentos sociais para enfrentamento à fome na periferia, durante a pandemia, tornaram-se política pública. Hoje, por meio do PAA, a Conab entrega alimentos da agricultura familiar para inúmeras cozinhas em todo o país. Essa ação envolveu diversas organizações da agricultura familiar e de assentamentos de reforma agrária no fornecimento desses alimentos para as cozinhas solidárias.
A Conab recebeu, nos últimos anos, uma reestruturação. Saiu da supervisão do Ministério da Agricultura e Pecuária e passou ao MDA, conjuntamente com a Ceagesp e Ceasa/MG. No atual governo, a Conab participou da construção da Política Nacional de Abastecimento Alimentar. Essa política visa garantir maior acesso a alimentos saudáveis a preços justos em todo o país. Criou-se o Programa Arroz da Gente, visando mudar a geografia da produção do arroz, intensificando essa produção de arroz em diferentes regiões do país por meio da agricultura familiar, assentamentos de reforma agrária, povos indígenas e comunidades tradicionais. Esse programa visa à promoção dos sistemas de produção tradicionais, ampliar a escala de produção por meio do assessoramento técnico, acesso a máquinas colheitadeiras de pequeno porte, à estrutura de armazenagem e a equipamentos para processamento e acesso e fortalecimento dos circuitos de comercialização nos diferentes territórios.
O maior investimento em tecnologia e modernização da história da Conab se deu nos últimos anos. O resultado é a modernização de sua estrutura tecnológica e maior oferta de serviços digitais à população, além da integração com a plataforma gov.br, facilitando o uso e o acesso dos cidadãos. Houve ainda a modernização dos meios e da metodologia de avaliação de safra e acompanhamento da produção agrícola, como, por exemplo, a criação da Plataforma Parque Cafeeiro, em parceria com a UFMG. Essa plataforma possibilita certificar as áreas de produção do café brasileiro como livres de desmatamento, caso se enquadrem nos critérios estabelecidos. Essa ferramenta de amplo acesso pelos produtores e suas cooperativas aumenta a competitividade desse setor no mercado internacional.
Atualmente, a Conab monitora, por meio do Observatório dos Preços, em parceria com o Dieese, os alimentos que compõem a cesta básica nas 27 capitais brasileiras. Isso permite que o Estado brasileiro possa atuar de maneira mais coordenada nas políticas de incentivo, formação de estoques e subvenções para estimular a redução dos preços dos alimentos.
A valorização dos empregados públicos também é um legado deste governo. A Conab possui mais de 3 mil empregados e empregadas, dedicados em 27 estados a atender mais de oito políticas públicas em diversos municípios. Produzem desde dados de inteligência agropecuária para o setor, a entrega de alimentos nas cozinhas solidárias até estoques públicos. Em 2025, foi realizado concurso público para suprir a defasagem de trabalhadores de mais de 10 anos no certame, com ingresso de mais de uma centena de novos empregados. Além disso, houve recomposição salarial.
No plano de governo de Flávio Bolsonaro, encontramos referências genéricas às políticas de armazenamento, nenhuma referência a políticas de enfrentamento à insegurança alimentar e nutricional, e nenhuma referência ao PAA, às cozinhas solidárias e outras políticas públicas. Seu plano sequer menciona a palavra agricultura familiar, agricultor/a, alimentação escolar, agroecologia, cisternas, ou seja, sem menção ao léxico do universo de políticas e sujeitos que compõem os povos dos campos, das águas e das florestas no Brasil.
Vale recordar a proposta de Flávio Bolsonaro de privatização de 95% das estatais, anunciado em seus discursos de campanha. É justamente o partido do candidato, o PL, que tem a proposta do projeto de (PL nº 1005/2026), de autoria do Capitão Augusto (PL/SP), que propõe extinguir a Companhia. A justificativa da proposta alega corrupção na empresa, ineficiência e ampla rede privada de armazenagem, em uma fundamentação sem qualquer dado concreto, embasamento científico ou técnico, em poucos parágrafos que mal compõem 1 página. Nem os militares brasileiros, durante a ditadura, desconsideram tanto o papel do abastecimento alimentar no país.
Precisamos, para os próximos anos, seguir avançando na produção e distribuição de alimentos saudáveis e baratos para nosso povo. E isso não está no projeto de governo dos Bolsonaros. Como não esteve presente na gestão do pai , e muito menos nas propostas lideradas pelo Partido Liberal no Congresso Nacional.
Para se ter amanhã, é preciso semear hoje. A escolha no dia 25 de outubro não é nenhum um pouco difícil. Estamos diante de escolher um futuro no qual o povo brasileiro tenha capacidade de alimentar-se, independentemente da crise geopolítica e climática que possa assolar o mundo. Temos, no governo Lula, políticas de abastecimento alimentar público, fortalecimento da segurança alimentar e nutricional, e de governança participativa. Enquanto, do outro lado, temos muitas incertezas e a certeza do desmonte do Estado de proteção social e da democracia . As escolhas eleitorais definirão o futuro do país . Importante relembrar Ivete Sangalo, recentemente, em um show, a cantora disse compreender o descontentamento de parte do público e falou sobre a importância de fazer escolhas com lucidez. Ainda deve-se reconhecer que a segurança alimentar e nutricional não se resume à disponibilidade de produtos nas prateleiras de supermercados , mas envolve renda, acesso, saúde, diversidade alimentar, cultura, agricultura familiar , estabilidade dos preços, sustentabilidade ambiental e capacidade de resposta do Estado diante de crises.
A escolha não é difícil, basta lucidez e menos ódio. Vamos escolher pela valorização da democracia, por aquele que tem levado comida à mesa para milhões de brasileiros e brasileiras. Por aquele que tem assegurado dignidade aos servidores públicos. Por aquele que investe nos setores econômicos maiores, mas também assegura investimentos na agricultura familiar, na reforma agrária e nas famílias em situação de vulnerabilidade social. Deixemos a cegueira das redes sociais de lado e nos comprometamos com as gerações futuras e a perspectiva de seguir avançando nesse país, por mais direitos, não ao retrocesso e às arbitrariedades.
Fonte: Mídia Ninja.
