Por Vinicius Francisco
Estudantes e pesquisadores se reúnem nesta sexta-feira (4), às 11h, em frente à sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), na Rua Pio XI, 1.500, em São Paulo, para cobrar a revisão das novas regras da Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE). Em vigor desde 1º de setembro de 2026, as mudanças alteram o acesso de estudantes de Iniciação Científica e Mestrado ao programa, reduzem a duração inicial das bolsas de Doutorado, Doutorado Direto e Pós-Doutorado e retiram um complemento financeiro destinado a pós-doutorandos.
A BEPE financia períodos de pesquisa no exterior para quem já desenvolve um projeto apoiado pela FAPESP no Brasil. Não se trata de um intercâmbio convencional. O estágio precisa contribuir diretamente para a pesquisa feita aqui e pode dar acesso a laboratórios, equipamentos, arquivos e metodologias, além de aproximar pesquisadores brasileiros de grupos internacionais e criar novas redes de colaboração científica. Ao retornar, o bolsista retoma o projeto no país, incorporando os conhecimentos e resultados obtidos.
Uma das mudanças mais contestadas atingiu a Iniciação Científica (IC), etapa em que universitários começam a desenvolver pesquisa ainda na graduação, e o Mestrado. Até agosto, esses estudantes podiam solicitar a BEPE pelo chamado fluxo contínuo: apresentavam a proposta ao longo do ano, quando o estágio estivesse adequado às necessidades da pesquisa, sem precisar esperar a abertura de um edital.
Desde setembro, esse caminho ficou restrito a bolsistas de Doutorado Direto, modalidade em que o estudante ingressa no doutorado sem passar antes pelo mestrado, além de Doutorado e Pós-Doutorado. Após a reação da comunidade científica, a FAPESP anunciou chamadas específicas para IC e Mestrado. Quem teve a bolsa aprovada até 31 de agosto poderá concorrer em uma seleção prevista para o fim de setembro. Para bolsas concedidas a partir de setembro, outra chamada está prevista para o primeiro semestre de 2027.
A mobilização considera o anúncio um primeiro avanço, mas sustenta que o acesso continua menos previsível. Não há, até agora, garantia pública sobre quantas bolsas serão oferecidas em cada chamada, qual será o orçamento ou qual será a frequência desses editais.

“Quem pode acessar a pós-graduação? E em quais condições?”
O Mídia NINJA entrevistou Gabryella Cardoso, vice-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos em São Paulo, entidade que participa da articulação do ato. Para ela, substituir o fluxo contínuo por chamadas específicas reduz a previsibilidade para estudantes e pesquisadores, porque não há garantia sobre quantas bolsas serão ofertadas em cada edital nem sobre a periodicidade dessas chamadas.
“Uma chamada específica pode ter 20, 50, 100 ou 300 bolsas. Sem essa informação, não sabemos qual será o impacto real”, afirma Gabryella.
A pós-graduanda ainda disse que a oportunidade não se mede apenas pelo número de bolsas. “É preciso olhar quem pode acessá-las, quando pode acessá-las e em quais condições”, destaca.
Os números mostram a dimensão desse público. Em 2024, a FAPESP contratou 660 bolsas BEPE. Dessas, 125 foram para Iniciação Científica e 117 para Mestrado, o equivalente a 36,7% das concessões da modalidade naquele ano.
A preocupação é maior porque as duas modalidades estão entre as primeiras etapas da formação de um pesquisador. É nesse momento que muitos estudantes começam a construir redes acadêmicas, conhecer outros grupos de pesquisa e decidir se permanecem na carreira científica.
“Quando uma estudante percebe que existe um caminho possível: graduação, Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado, intercâmbio, cooperação internacional, ela consegue projetar um futuro dentro da ciência. Quando essas oportunidades se tornam incertas, esse horizonte começa a desaparecer”, pontua Gabryella.
Para quem está em etapas mais avançadas, o problema é outro. Doutorado Direto, modalidade em que o estudante ingressa no doutorado sem passar antes pelo mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado passaram a ter BEPE de seis meses inicialmente, em vez dos 12 meses previstos anteriormente. A prorrogação por mais seis meses continua possível, mas depende de uma nova solicitação e de análise de mérito da FAPESP.
Na prática, uma pesquisa nem sempre acompanha esse calendário. Experimentos podem depender de ciclos biológicos, trabalhos de campo podem exigir períodos específicos e determinados projetos precisam de acesso prolongado a laboratórios, arquivos ou grupos de pesquisa. A incerteza também interfere em questões organizadas antes do embarque, como visto, moradia e vínculo com uma instituição estrangeira.
“A pesquisa científica não necessariamente cabe em períodos administrativos de seis meses”, declara Gabryella. “Não é simples chegar ao sexto mês e descobrir se haverá recursos para concluir aquilo que foi planejado desde o início.”

Corte no pós-doutorado aumenta a desigualdade entre pesquisadores
No Pós-Doutorado, a mudança também chega ao bolso. Para propostas submetidas até 31 de agosto, a FAPESP previa, além da manutenção no exterior, um valor correspondente a 50% da mensalidade da bolsa de Pós-Doutorado no Brasil. Com a bolsa atualmente em R$ 12.570, o adicional equivale a R$ 6.285 por mês. A previsão não aparece entre os itens financiáveis das regras em vigor desde setembro.
Para Gabryella, a retirada desse complemento pode aumentar a desigualdade entre pesquisadores. Quem passa meses fora do país pode continuar com aluguel, compromissos familiares e outras despesas no Brasil enquanto assume custos de moradia e alimentação em outra moeda.
“A experiência internacional pode deixar de depender exclusivamente da qualidade do projeto e começar a depender também da capacidade econômica individual do pesquisador. Quem tem família com recursos, poupança ou patrimônio consegue complementar. Quem não tem, talvez precise desistir”, garante.
A FAPESP afirma que não houve corte no número de bolsas BEPE, mas alterações nos critérios de elegibilidade e duração. A Fundação diz que as medidas foram adotadas para equilibrar os gastos com bolsas e outras formas de financiamento à pesquisa. Segundo a instituição, as despesas com bolsas chegaram a 58% de seu orçamento em junho, diante de uma média histórica de 35%.
A justificativa orçamentária levou a mobilização a ampliar a discussão. Além das regras da BEPE, estudantes e pesquisadores cobram transparência sobre os critérios das mudanças e proteção ao financiamento público da FAPESP. Entre as reivindicações estão o retorno de IC e Mestrado ao fluxo contínuo, a manutenção do número histórico de bolsas, a revisão da regra dos seis meses e a recomposição do adicional de 50% do Pós-Doutorado.
A mobilização não é contra a FAPESP, mas em defesa de mais qualidade para a pesquisa
Gabryella ressalta que a mobilização não se coloca contra a Fundação: “A nossa manifestação não é contra a FAPESP. É justamente em defesa de uma FAPESP forte, autônoma, transparente e suficientemente financiada para ampliar oportunidades em vez de restringi-las.”
A disputa, portanto, não termina na possibilidade de um pesquisador passar alguns meses fora do país. O que está em jogo, para quem participa do ato, é o acesso à formação, à cooperação internacional e às condições para que esse conhecimento também fortaleça a ciência produzida no Brasil.
“Você não está mexendo apenas com uma linha de financiamento. Você mexe com aquilo que essa pessoa imaginava que poderia ser o seu futuro”, conclui Gabryella.
O ato acontece nesta sexta-feira (4), às 11h, em frente à FAPESP, na Rua Pio XI, 1.500, Alto da Lapa, em São Paulo.
