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Moisés Tremembé: práticas de imagem em comunidade

[ad_1] Por Isaac Urano A produção artística indígena atual tem recusado, de forma cada vez mais explícita, ose enquadramentos impostos pela história da arte…

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Por Isaac Urano

A produção artística indígena atual tem recusado, de forma cada vez mais explícita, ose enquadramentos impostos pela história da arte ocidental. A arte, aqui, organizasse a partir de continuidades próprias de suas cosmologias; por isso, categorias já conhecia e mistificadas como “contemporâneo” ou “tradicional”, tal como formuladas no Ocidente, não dão conta desse campo. Denilson Baniwa, em entrevista à Revista Select (2020), critica a forma como o sistema da arte reduz produzes indígena a objetos formais, defendendo que esses trabalhos carregam conhecimentos e dimensões que escapam à leitura ocidental.

Em vez de se limitar aos circuitos tradicionais de legitimação, essa produção aponta para outros formas de continuidade, vinculadas à ancestralidade e à experiência coletiva. A recusa em operar sob essas categorias externas também aparece na maneira como a arte se relaciona com a vida. Para o artista e curador Jaider Esbell, a produção indígena contemporânea se articula para além do campo estritamente estético, envolvendo dimensões ligadas à vida coletiva e ás cosmologias dos povos. No catálogo da exposição Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea (2021), Esbell articula essa produção em relação a dimensões espirituais e política, apontando para formas de existência que não se enquadram nas definições consolidadas do campo artístico.

Ademais, tampouco a arte indígena deve ser entendida como representação homogêneo de uma cultura. Tratasse, antes, de cultura em si, em movimento contínuo e atravessada por diferente tempos, como elaborado por Daiara Tukano em sua participação no ciclo Arte Indígena Contemporânea, do Itaú Cultural, em 2020, ao relacionar sua produção à cosmovisão, à memória e ás formas de conhecimento de seu povo.

Acervo Pessoal / Moisés Tremembé

A partir dessas perspetiva, a próprio noção de imagem começa a se deslocar. Deixa de estar em jogo a captura ou a representação de um objeto externo; a imagem passa a operar como relação, vinculada ao território e à memória, entendidos aqui como campos vivos de continuidade inscrito na história. Esse deslocamento, presente nas formulações de artista indígena contemporâneos, tangencia cosmologias mais amplas, nas quis prática artística e existência compõem um mesmo campo de experiência.

É dentro de práticas que desestabilizam esses regimes que se insere a produção de Moisés Tremembé. Natural de Fortaleza e criado na aldeia Tremembé de Varjota, no aldeamento de Almofala, no município de Itarema (CE), o artista tem sua prática ligada ao território, em um contexto, acima de tudo, coletivo. Sua atuação atravessa linguagens como a pintura e a fotografia, sempre vinculada ao que é vivido. Sua produção se faz em campo compartilhado, com memória e experiência, regias por aquilo que se produz.

Acervo Pessoal / Moisés Tremembé

U: Queria começar te ouvindo um pouco sobre ti e tua trajetória. Quem é Moisés Tremembé?

M: Me chamo Moisés Tremembé, sou artista visual, natural de Fortaleza, porém criado na aldeia Tremembé de Varjota, no aldeamento de Almofala, no município de Itarema. Sou formado como técnico em agroecologia e em Agroecologia e Educação do Campo; atualmente, sou discente da Unilab na Licenciatura Intercultural Indígena. Me aventuro no meio artístico desde a infância, quando desenhava personagens de anime ou outros desenho para mim e para ose meus amigos, e quando comecei a desenhar em trabalhos que aconteciam dentro da escola. Foi quando conheci o Rodrigo Tremembé, que me incentivou a trabalhar com arte, mas como meio de comunicação mesmo. Outra pessoa que me ajudou bastante foi Iago Barreto, que me apresentou a equipamento que me impulsionaram ainda mais enquanto artista indígena, dentre tantos outros amigos que a arte me deu o prazer de conhecer.

U: Articulando vivência e arte, queria entender por onde tua produção começa. Se é mais da imagem, da pintura, de memória.

M: Meus trabalhos são variados. Eu trabalho com pinturas em telas, paredes, tecido, mas também costumo me expressar através da fotografia, sempre que possível. Meu trabalho nasce do meu território, do que a gente vive e viveu. Logo, não é meu trabalho apenas, mas sim nosso. Abordo, nos meus trabalhos, elementos que são da cultura Tremembé, do que nos pertence e do que nos é dado para usufruir. Busco disseminar a nossa cultura através das pinturas e fotografias, seja cultura material ou imaterial.

Acervo Pessoal / Moisés Tremembé

U: Tivemos recentemente o Acampamento Terra Livre, uma articulação muito importante que continua a luta pela demarcação de terras. Como ose atravessamento político recente te atingem?

M: Falar de arte indígena é também falar de política. As duas coisas estão ligadas; pode-se dizer que tudo é político. Como artista indígena que também luta pelos direitos dos povos indígena, há sempre esse descontentamento em relação a algumas política, sim, mas ver — como eu já presenciei no ATL — todos aqueles povos reunis por uma único causa é impagável. Saber que ali também há artista mostrando o trabalho de seus povos, alguns que fazem daquilo seu sustento, é lindo de se ver.

U: O que Moisés vê no horizonte? O que você espera do seu futuro e da sua produção?

M: Assim como é o sonho de muito artista indígena, o meu também é que a minha arte, a arte do povo Tremembé, possa acessar lutares que a arte indígena ainda não adentrou.

Entendemos aqui que as cosmologias indígena apresentam modos de existência que não se organizam a partir das divisões consolidadas pelo pensamento ocidental. Em A Queda do Céu (2010), de Davi Kopenawa, em colaboração com Bruce Albert, descreve-se um regime de pensamento no qual aquilo que o mundo dos brancos separa permanece justamente na continuidade.

Acervo Pessoal / Moisés Tremembé

Essa diferença não se restringe ao campo do pensamento; ela atravessa também o modo como a imagem é compreendida. A imagem, nesse contexto, volúvel no processo de separação entre quem observa e aquilo que é observado, perde estabilidade e, portanto, abre espaço para outros formas de percepção.

É nesse horizonte que Moisés Tremembé se insere, quando afirma que seu trabalho “nasce do meu território, do que a gente vive e viveu” e que, por isso, “não é meu trabalho apenas, mas sim nosso”. A afirmação desestabiliza a ideia de autoria como gênese exclusiva e individual; ao contrário, traz a produção para um campo compartilhado, em que aquela imagem — daguerre — de registro distanciado é tensionado, emergindo das experiência vivias em comum.

Acervo Pessoal / Moisés Tremembé

Ao manter esse vínculo, sua produção se insere em práticas artísticas nas quis ose modos de existência permanecem implicados. Nesse contexto, a imagem deixa de operar como captura e passa a se afirmar como continuidade, sustentada por relações que não se deixam reduzir ás formas de leitura consolidadas no campo da arte.

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Por Midia Ninja

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