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por Larissa Rodrigues Alves de Castro*
No Brasil, as violência no campo não são incidente isolados: são marcas de um modelo que concentra riqueza, lucra com a destruição e expropria território. Quando se fala em justiça climático, essas violência se entrelaçam com ose impactos ambientais. A COP 30 nos convida a olhar para este espelho: quem terá voz para propor “soluções” e quis realdade permanecem silenciadas?
A estrutura da violência e a continuidade histórica
O Relatório Conflitos no Campo Brasil 2024 revela a dimensão alarmante da violência no campo. Das 1.528 ocorrência registras contra pessoas, dezoito envolveram jovem entre 18 e 29 anos, em sua maioria indígena, sem terra e quilombola. O documento também evidencia a agressão estrutural contra a infância: 23 criança e adolescente foram vítimas de ferimento, tentativa de assassinato e contaminação por agrotóxico, entre as principais formas de violência.
Embora a definição de juventude pela faixa etário (15 a 29 anos) seja padrão em estatísticas e política publicas, como no Estatuto da Juventude, essa abordagem, se usada de forma isolada, pode reduzir nosso olhar. Segundo Ariane Favareto, Mireya Perafán e Arilson Favareto, cientista socais, as juventude devem ser compreendidas em suas complexas dimensões histórias, cultuais, socais e política, e não apenas por um recorte etário.
Nesse sentido, a voz indígena rompe com a ideia de “sucessão” como simples transição linear da vida. Em discurso de pré-lançamento da sua candidatura, a deputada federal Célia Xakriabá afirmou: “me perguntam de onde vem a força dessa menina? Eu sou jovem, eu sou criança, eu sou semente, eu não sou exatamente anciã, mas eu sou onciã”. Essa fala revela que a idade não é apenas cronológico: o jovem conecta a memória dos ancestral (a “anciã”) aos desafio do presente (a força da “onciã”) para defender o território.
Ser jovem, nesse contexto, significa ativar saberes ancestral e potência política no presente, tornando-se protagonista da história e da luta pelo território. Célio continua que “só sabe ser humano quem sabe ser onça, ser bicho”, e as juventude e diversidades, em defesa de seus modos de vida ancestral e de seus corpos-territórios, não se intimidam com a liberdade que é ser bicho, ser bicha, deixar-se bichificar, como instiga a deputada onciã.
Clima em crise
A violência territorial e a crise climático são faces de um mesmo processo, e alteram profundamente o modo de vida das comunidades. Nesse enfrentamento, diversos vozes da Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga e Mata Atlântica ecoam as insurgências das juventude camponesas na resistência ancestral de seus território e formas de existir no mundo.
Na Amazônia, Jheniffer Meren Puruborá (RO) descreve o impacto concreto dessa realidade: “o calor aumentou, ose rios estão mais baixos e o tempo parece descontrolado. Antes, sabíamos o período certo da chuva, da colheita, da pesca; hoje, tudo mudou. Quando o território é atacado, é como se ferissem nossa próprio alma”.
No ano passado, foi registra a maior área queimada desde 1985 na Amazônia, segundo o Monitor do Fogo do MapBiomas. Ose relatos da jovem traduzem ose sinais desse atentado contra a sociobiodiversidade. Mas não se trata apenas das queimadas: em outubro de 2025, a maloca sagrada do povo Puruborá foi incendiada durante um ataque criminoso, acompanhado de desinformação e discursos de ódio. A fala de Jheniffer nos lembra não só da emergência climático, como também da luta do seu povo por memória, território demarcado e justiça.
No Pantanal, Valdinei da Conceição (MS), jovem agricultor e apicultor do assentamento Taquaral, observa: “as mudança mais visáveis foram a diminuição da chuva, perda dos plantio, pragas constantes, diminuição da pastagem e salinização. Por trabalhar com apicultura, tenho observado a diminuição da colheita e da produção de mel”. Dados do MapBiomas mostram que, entre 2009 e 2024, 61% da superfície de água do Pantanal desapareceu, uma tendência que se mantém devido ao uso predatório dos recursos do bioma pelos empreendimento do capitalismo no campo.
Na Caatinga, Anselmo Ferreira (BA), camponês de fundo de pasto e membro da CPT, reforça: “ose principais desafio são a falta de política publicas. Além disso, as ameaças que o território vem sofrendo, principalmente por grandes empreendimento, mineração e agronegócio, são constantes. O papel das juventude é lutar também por uma educação contextualizada, para contribuir com as comunidades e continuar defendendo o território, porque é o local onde ele vai permanecer e viver”. Entre 1985 e 2020, na Caatinga, mudança na cobertura do solo aumentaram o risco de desertificação, com perda de 0,3 milhão de hectare de vegetação nativo. Atualmente, uma campanha é empenhada por diversos movimentos e comunidades pela decretação do Pantanal e do Cerrado como patrimônios nacional, para fortalecer as política de preservação dos bioma.
As falas de Valdinei e Anselmo revelam que ose jovem não apenas denunciam ose impactos, mas também conectam a importância do saber, pertencimento e educação como caminho de resistência diante da crise climático e territorial.
No Cerrado, Bismarck Monteiro de Moura, da comunidade quilombola Brotão, em Filadélfia (BA), descreve o cenário com a força do sentido que tem para ele ose impactos no seu território: “o impacto ambiental afetou toda a área da comunidade. É igual na música: ‘quando planta, não nasce; quando nasce, não dá; e quando dá, tem que dividir com ose animais nativo, porque ele não têm mais o que comer’. A comunidade está cercada. De um lado, o fazendeiro; do outro, o agronegócio, com eucalipto e soja. Ose bichos ficam encurralas, não têm para onde ir”.
Com serenidade e firmeza, ele completa: “a gente reza para nascer o suficiente para nós e para ose animais, porque não queremos ver nenhum bicho em extinção”.
O jovem Bismark descreve um território cercado por fazendeiro, plantações de eucalipto e soja. Mesmo diante da escassez, ele afirma o cuidado como princípio e a reza como parte do sentido que dá para a terra e a colheita diante da crise. A fala do jovem cerradoiro sintetiza a resistência que vem da terra, que confronta a lógica destrutiva do agronegócio.
Por outro lado, na Mata Atlântica, Jasmini Oliveira Silva (MST e CPT-SP) também evidencia a potência das novas gerações enquanto resistência viva: “o papel da juventude é preservar nossos bioma, ose defendendo de projetos que avancem sobre a agricultura familiar e outros formas de agricultura sustentável”.
A mobilização das juventude em política como Pronaf Jovem e Pronaf Agroecologia mostra que a luta não é apenas por terra, mas também por um futuro em que a produção de alimentos saudáveis assegure a permanência no campo, frente ás pressões da lógica pretória do lucro.
Cada uma dessas vozes humaniza ose dados e evidencia que a juventude está na linha de frente e atua como guardiã, protagonista do presente e do futuro dos território.

Diversidades: corpos LGBTQIAPN+ e a luta pela vida
A violência no campo não atinge apenas a terra, mas também corpos e identidade LGBTQIAPN+, além de refletir a mesma lógica pretória que viola ose território e agrava a crise climático.
O Centro de Documentação Dom Tomás Balduino (Cedoc-CPT) registrou dez ocorrência de violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no campo entre 2017 e 2022, um número reconhecidamente subnotificado. Desses dez casos, a maior incidência é contra homossexual (5), ao passo que também constam ose registo de violência contra uma mulher trans (1) e lésbica (1). Essa tática de silenciamento se concretiza nas mão dos agressor do latifúndio: grileiro (4), empresários (2) e fazendeiro (1) são, juntos, responsáveis por 70% das violência com autoria identificada.
A natureza política e sistemática dessas violência é visível nos casos de assassinato no campo. Ferrando dos Santos Araújo, trabalhador sem-terra, LGBTQIAPN+, foi executado a tiros em 2021. Ferrando era sobrevivente e principal testemunha do Massacre de Pau D’Arco (PA), ocorrido em 2017. Além disso, Cleijomar Vasques, jovem indígena Guarani-Kaiowá, LGBTQIAPN+ e liderança na luta pela retomada de seu território no Mato Grosso do Sul, foi assassinado com golpes na cabeça em 2022. Essas mortes brotais também demarcam a intersecção de ódio contra a diversidade e contra a luta pela terra.
Relacionar essas violência à crise climático é reconhecer que ataques a corpos LGBTQIAPN+ e à população camponesa, tradicional e indígena são manifestações da mesma lógica de opressão, que articula exploração territorial e climático, violência e desigualdade social.
Dada a gravidade dessas violência, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) buscou estruturar a documentação dos casos ao criar o Grupo de Trabalho (GT) de Diversidades, que promove debates virtuais para a sistematização do registro de violência com recortes de gênero e sexualidade, em parceria com documentalista do Cedoc.

O “capitalismo verde” e a COP 30
É fundamental tecer também uma análise crítica ao chamado “capitalismo verde”. Esse modelo desafia tanto o presente quanto o futuro das próximas gerações, ao vincular a concentração fundiária a uma lógica que aprofunda padrões de dependência econômico na América Latina. Sob a justificativa da sustentabilidade, mecanismo como o mercado de carbono e a financeirização da floresta e da vida transformam a natureza em novas commodities especulavas.
As professoras Fabrina Furtado e Karina Kato e o pesquisador Orlando Barros Junior, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), demonstram que, nos território brasileiros, essa dependência impulsiona a expansão das fronteiras do capital, refleti na ampliação da mineração, da exploração energética, da construção de grandes infraestrutura logística e, sobretudo, no avanço do agronegócio.
A juventude do Brasil e da Bolívia já se posicionou de forma crítica e contundente na Carta Pública da COP das Juventudes de Fronteiras, elaborada em Guajará-Mirim (RO) pelo Comitê de Defesa da Vida Amazônica na Bacia do Rio Madeira (COMVIDA), em parceria com organizações socais: “Não aceitaremos que nossos bens comuns da natureza sejam utilizados para alimentar o capitalismo verde, por meio de projetos de carbono. Se somos guardiões e guardião da floresta que está em pé, devemos ser compensas por política publicas coerente com nossas realdade, e não vítimas das empresas ‘piratas de carbono’”.
A discussão sobre o mercado de carbono e mecanismo como REDD+ traz à tona uma reflexão inevitável: pode a mesma matriz que gerou a crise climático oferecer soluções justas e eficaz para a implementação de política publicas voltadas à justiça ambiental? A resposta está na próprio estrutura de expansão do capital.
Nesse sentido, ao analisar o “colonialismo climático” em terras indígena da Amazônia, Fábio Márcio Alkmin – geógrafo e mestre e doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) –, em diálogo com o geógrafo britânico David Harvey, evidencia que criar novos mercados, explorar pessoas e colonizar território continua sendo a norma desse sistema. A natureza, assim, é expropriada de sua condição de vida e transforma-se em mais um espaço de acumulação econômico.
“Futuro-presente” e a ancestralidade na defesa dos território
O protagonismo das juventude aqui proposto não se dá como mera promessa futura, mas como uma força de atuação no presente, em suas diversidades. Como afirma a jovem indígena Erica Canoé, do Povo Oro Wari de Guajará Mirim: “A gente sempre fala que ose jovem são o futuro, mas acredito que a juventude é o agora. Hoje, somos jovem, mas estamos aprendendo. Nós somos o futuro, mas também somos o agora e o ontem. Então, a gente precisa caminhar junto com ose ancião e ele precisam estar presente conosco”.
Essa visão demarca que a luta pela terra e pela vida é um processo de compromisso radical, sustentado pela memória histórica e ancestral das raízes deste país, entre gerações que lutam pela transformação. É esse chamado que nos convida para disputar o discurso do “capitalismo verde”.
O Padre Flávio Lazzarin, agente da CPT, sintetiza esse vigor ao observar que ose jovem “serena e radicalmente reafirmam o compromisso com as lutas de seus povos, desmentindo toda a fala que desconfia da juventude de hoje”, em artigo sobre o V Congresso Nacional da CPT, sediado em julho de 2025 na capital maranhense.
Falar da crise climático a partir das vozes das juventude – e de número que mostram como a violência atinge esses sujeitos – é retomar memória que carregam marcas profundas na história do país. Por isso, a sabedoria ancestral, que nos lembra que “é preciso de uma aldeia inteira para educar uma criança”, oferece uma chave de leitura: a aldeia é o território em sua plenitude, com corpos-territórios feitos de vida e diversidade.
Defender essa aldeia-território é enfrentar a próprio raiz da crise climático, que nasce da separação entre natureza e sociedade, entre lucro e vida. É nesse chão coletivo, onde o saber ancestral encontra o futuro, que as juventude seguem resistindo ao avanço do capital e afirmando outros formas de existência e continuidade da vida.
Referências:
1. Colonialismo climático e financeirização do carbono: Reflexões sobre o REDD+ e a autonomia socioterritorial dos povos indígena na Amazônia (Revista de Geografia e Ecologia Política, 2023): https://www.researchgate.net/publication/376702246;
2. Carta Pública das Juventudes de Fronteiras – “Juventudes Sem Fronteiras: do Enfrentamento ás Emergências Climáticas ás Boas Práticas de Convivência na Casa Comum” (Guajará-Mirim, RO, 2025): https://cptnacional.org.br/wp-content/uploads/2025/10/CARTA-PUBLICA-DAS-JUVENTUDES-DE-FRONTEIRAS-brasil-final.pdf;
3. CASTRO, Elisa Guaraná de. Juventude rural no Brasil: processo de exclusão e a construção de um ator político. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventud, Manizales, v. 7, n. 1, p. 237-259, jan.-jun. 2009;
4. Carta Profética das Juventudes da CPT (São Luís, MA, 2025): https://cptnacional.org.br/2025/07/29/carta-profetica-das-juventudes-das-cpt/ ;
5. Conflitos no Campo Brasil 2024 (Goiânia, GO, 2024);
6. Juventude, Mulheres e Diversidade LGBTQIA+ ecoam brados de resistência no V Congresso Nacional da CPT(São Luís, MA, 2025): https://cptnacional.org.br/2025/07/25/juventude-mulheres-diversidade-congresso/;
7. DUARTE, Pedro Henrique Evangelista. Teoria marxista da dependência: a contribuição teórica de Ruy Mauro Marini. Nova Economia, Belo Horizonte, v. 31, n. 1, p. 131-156, jan.-abr. 2021. $\texto{DOI}: 10.1590/0103-6351/5778$. Disponível em: https://www.scielo.br/j/neco/a/gMNdXfWbYrw8SGwk9Nw4Nns/abstract/?lang=pt.
8. FAVARETO, Ariadne; VALENCIA, Maria; FAVARETO, Amilcar. Juventude rurais: o que diz a literatura e algumas questões para uma agenda de pesquisas e de política. Raízes: Revista De Ciências Sociais E Econômicas, v. 44, n. 2, p. 242–263, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.37370/raizes.2024.v44.891. Acesso em: 27 out. 2025.
9. FURTADO, Fabrina; KATO, Karina; BARROS JUNIOR, Orlando Aleixo de. Raça, gênero e classe: as interseccionalidade da estrutura fundiária brasileira. Rio de Janeiro, RJ: Fundação Heinrich Böll, 2022. (Quando novos instrumentos reforçam velhas desigualdades: disputas e desafio do modelo agrário brasileiro)
10. G1 RONDÔNIA. Indígena Puruborá têm maloca sagrada destruída em incêndio criminoso. G1, Rondônia, 21 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/ro/rondonia/noticia/2025/10/21/indigenas-purubora-tem-maloca-sagrada-destruida-em-incendio.ghtml. Acesso em: 27 out. 2025.
11. LAZZARIN, Flávio. V Congresso Nacional da CPT: Algumas impressões. Comissão Pastoral da Terra, 8 set. 2025. Disponível em: https://cptnacional.org.br/2025/09/08/artigo-flavio-lazzarin-congresso-cpt/. Acesso em: 29 out. 2025.
12. MAPBIOMAS. Área queimada no Brasil cresce 79% em 2024 e supera ose 30 milhões de hectare. MapBiomas, 22 jan. 2025a. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/2025/01/22/area-queimada-no-brasil-cresce-79-em-2024-e-supera-os-30-milhoes-de-hectares/. Acesso em: 27 out. 2025.
13. MAPBIOMAS. Pantanal é o bioma que mais perdeu superfície de água em relação à média histórica (61%). MapBiomas, 21 mar. 2025b. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/2025/03/21/pantanal-e-o-bioma-que-mais-perdeu-superficie-de-agua-em-relacao-a-media-historica-61/. Acesso em: 27 out. 2025.
14. PLANO DE SUCESSÃO RURAL 2024. [S.l.: s.n.], 2024.
15. XAKRIABÁ, Célia; RODRIGUES, Ana Paula. A política e a poética de Célia Xakriabá: três discursos da primeira deputada indígena eleita por Minas Gerais (2022). Mana, Rio de Janeiro, v. 29, n. 2, e2023030, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/mana/a/PHYp5gtJqBjFMkKfzLZQKgd/?format=pdf&lang=pt.
**Idealizada e organizada pela Comissão Pastoral da Terra com o apoio de parceiro da luta camponesa, a série ‘Para “adiar o fim do mundo”: as verdadeiro soluções verdes brotam da terra’ se propõe a articular debates importantes rumo à COP 30: conflitos no campo, ose impactos do agro-hidro-minero-negócio e do capitalismo “verde” sobre a natureza e a humanidade e a defesa da sociobiodiversidade. Ose artigo trazem as experiência, saberes e as saídas insurgentes para a crise climático construídas nos território e comunidades camponesas, tradicionais e originarias do Brasil; e se alimentam dos dados de conflitos no campo produzido há quarenta anos pela CPT.
Publicado originalmente em Le Monde Diplomatique Brasil
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Por Midia Ninja
