Inteligência artificial analisa vasos sanguíneos da retina para estimar o risco de pré-eclâmpsia nas primeiras semanas da gestação
Um exame dos olhos pode se tornar uma ferramenta complementar para identificar gestantes com maior risco de desenvolver pré-eclâmpsia. Pesquisadores desenvolveram um sistema de inteligência artificial chamado Visionary AI, capaz de analisar imagens dos vasos sanguíneos da retina e identificar padrões associados a complicações hipertensivas da gravidez antes de elas se manifestarem clinicamente.
O estudo foi publicado na revista científica Nature Biotechnology. Em uma validação independente, realizada com um grupo diferente daquele utilizado para desenvolver o modelo, a ferramenta alcançou um índice de desempenho de 0,81 na identificação de casos de pré-eclâmpsia. O resultado indica capacidade de distinguir pessoas com e sem a condição, mas não significa que o sistema acerte 81% de todos os diagnósticos.
Imagens da retina são analisadas para estimar o risco de complicações durante a gestação
O que os olhos podem revelar sobre a gravidez
A retina, estrutura localizada na parte posterior do olho, contém uma rede de vasos sanguíneos que pode refletir alterações na circulação do organismo. Durante a gestação, mudanças vasculares associadas à pré-eclâmpsia podem surgir antes do aparecimento dos sinais clínicos da doença.
A partir dessa relação, os pesquisadores desenvolveram o Visionary AI para examinar características como o formato, a distribuição e a organização dos vasos da retina. Em vez de avaliar apenas a imagem como um todo, o sistema transforma essas informações em medidas que podem ser analisadas por modelos computacionais.
A proposta é identificar sinais de alterações vasculares que ajudem a estimar o risco de complicações hipertensivas ainda no início da gravidez, quando o acompanhamento preventivo pode ser especialmente importante.
Sistema apresentou resultados promissores
Na etapa de desenvolvimento, a ferramenta foi avaliada com dados de 1.267 gestações acompanhadas por pesquisadores da Universidade Columbia, nos Estados Unidos. Nessa análise, o modelo apresentou uma área sob a curva de 0,91 para a identificação de pré-eclâmpsia, indicador utilizado para medir a capacidade de distinguir os casos da condição daqueles sem o diagnóstico.
Depois, os pesquisadores avaliaram uma versão do sistema em um grupo independente ligado à Universidade de Nova York. O modelo foi aplicado sem ser treinado novamente com os resultados desse segundo grupo e alcançou uma área sob a curva de 0,81.
Essa etapa é importante porque permite verificar se o desempenho se mantém fora do ambiente em que a tecnologia foi desenvolvida. Embora os resultados sejam promissores, a validação externa incluiu apenas 79 gestantes, das quais 13 com pré-eclâmpsia tiveram imagens aproveitadas para a análise do modelo. Estudos com amostras maiores serão necessários para estimar melhor seu desempenho em diferentes populações.
Por que identificar o risco mais cedo é importante
A pré-eclâmpsia é uma complicação da gravidez associada à pressão arterial elevada e pode afetar órgãos da gestante, além de trazer riscos para o desenvolvimento do bebê. Em muitos casos, o diagnóstico ocorre depois da 20ª semana de gestação, quando alterações como hipertensão e sinais de comprometimento de órgãos se tornam aparentes.
Reconhecer precocemente quem tem maior probabilidade de desenvolver a condição pode ajudar os profissionais de saúde a definir estratégias de acompanhamento e prevenção. Em situações indicadas, medidas preventivas, como o uso de aspirina em baixa dose sob orientação médica, podem reduzir o risco de algumas complicações.
A ferramenta estudada, porém, não foi apresentada como substituta das consultas, dos exames pré-natais ou dos métodos clínicos já utilizados. A intenção é investigar se as informações obtidas pela retina podem complementar os recursos existentes para avaliar o risco individual.
Bruna Valle
jornalista
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Fonte: Antena 1.
