IA e uberização ampliam exploração do trabalho, apontam Ricardo Antunes e Marco Oliveira

Portal Inhaí
5 Min Read


Por Safira Bezerra, especial para cobertura A NINJA Foi à Feira

Durante o primeiro dia d’A Feira do Livro de São Paulo, realizada em 30 de maio, os pesquisadores Ricardo Antunes e Marco Oliveira participaram da mesa “IA e Algoritmos de Exploração”, mediada pela pesquisadora Vanessa Monteiro. O encontro debateu como a plataformização do trabalho e o avanço da inteligência artificial vêm transformando a realidade da classe trabalhadora, renovando mecanismos de exploração e aprofundando a precarização das relações de trabalho dentro da lógica capitalista contemporânea.

Ricardo Antunes é doutor em Sociologia pela USP e um dos principais pesquisadores brasileiros da Sociologia do Trabalho. Em sua trajetória acadêmica, dedica-se a temas como o novo proletariado de serviços, a dinâmica do trabalho em plataformas digitais e os movimentos sindicais. Ao seu lado esteve Marco Oliveira, doutor em Administração de Empresas pela PUC-SP, que desenvolve pesquisas sobre a organização do novo proletariado de serviços, especialmente entre trabalhadores uberizados, integrante do grupo de pesquisa coordenado por Antunes.

Durante a conversa, os pesquisadores analisaram as transformações provocadas pela uberização do trabalho. Segundo eles, a expansão das plataformas digitais criou um modelo que flexibiliza as relações trabalhistas ao mesmo tempo em que reduz garantias históricas conquistadas pelos trabalhadores. Nesse contexto, motoristas, entregadores e outros profissionais passam a ser classificados como colaboradores ou prestadores de serviço, sem vínculo empregatício e sem acesso a direitos trabalhistas básicos.

Para Ricardo Antunes, a atual configuração do mercado de trabalho revela uma das contradições centrais do capitalismo. “Ele não pode eliminar completamente o trabalho vivo. É um sistema parasitário que só consegue se reproduzir a partir da atividade humana, mas pode reduzir essa atividade ao mínimo potencializando o saber humano por meio da tecnologia”, afirmou. O pesquisador também destacou que a lógica das plataformas tem produzido condições de trabalho cada vez mais desumanas, realidade visível entre motoristas de aplicativo, entregadores e trabalhadoras domésticas.

Outro ponto abordado foi o crescimento dos chamados microtrabalhos, modalidade que vem se expandindo em diversas partes do mundo. Segundo dados do IBGE referentes ao trimestre entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, o Brasil registrou 38,5 milhões de trabalhadores informais. Muitos deles dependem das plataformas digitais como principal fonte de renda, inseridos em relações marcadas pela instabilidade e pela ausência de proteção social. Para Antunes, esse cenário representa a expansão de uma nova forma de exploração:

“Com o microtrabalho, hoje temos uma senzala digital que se expande pelo mundo”.

Marco Oliveira ressaltou que a precarização acompanha o avanço tecnológico. “Vivemos um período marcado por altos índices de desemprego e, ao mesmo tempo, por uma crescente deterioração das condições de trabalho. Quanto maior o desenvolvimento tecnológico e das forças produtivas, maior tem sido a apropriação do trabalho pelas grandes corporações”, avaliou.

A mesa atraiu grande público e demonstrou o interesse crescente da sociedade em compreender as novas dinâmicas do trabalho na economia digital. O debate também dialogou com pautas recentes como a vitória no congresso do fim da escala 6X1, que celebra a redução da jornada de trabalho, valorizando o tempo livre, o descanso e a qualidade de vida dos trabalhadores.

Ao compartilharem experiências observadas em suas pesquisas, os estudiosos relataram casos de pessoas submetidas a jornadas superiores a 20 horas diárias para garantir o sustento de suas famílias. Para Marco Oliveira, essa realidade evidencia a vulnerabilidade estrutural da classe trabalhadora.

“No capitalismo, a única coisa que temos para oferecer é nossa força de trabalho. Precisamos trabalhar para sobreviver, independentemente da atividade exercida. Esse é um poder enorme que as empresas possuem para pressionar e reduzir continuamente o valor pago pelo trabalho”

Ao relacionar o cenário atual com as origens da industrialização, Ricardo Antunes lembrou que as transformações tecnológicas não eliminaram antigas formas de exploração, apenas as remodelaram. O pesquisador destacou que o Brasil continua registrando elevados índices de acidentes de trabalho e crescimento expressivo dos adoecimentos mentais relacionados ao trabalho, como ansiedade, burnout e depressão.

Encerrando o debate, os pesquisadores defenderam que a uberização não se limita aos motoristas e entregadores de aplicativos, mas representa uma tendência mais ampla do capitalismo contemporâneo. “A uberização não é apenas o trabalho do entregador ou do motorista. O futuro do capital financeiro aponta para formas de trabalho sem direitos. Trabalha-se para comer; se não trabalha, morre”, concluíram.



Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *