Por Vinicius Francisco
No início da epidemia de Aids, nos anos 1980, não havia tratamento capaz de controlar o HIV. O diagnóstico vinha acompanhado do medo, de poucas reposta da medicina e de um estigma que marcou profundamente a vida das pessoas atingidas pela epidemia.
O primeiro antirretroviral, o AZT, foi aprovado em 1987. As opões ainda eram limitadas, e o tratamento multas vezes começava quando o sistema imunológico já estava fragilizado. No Brasil, uma norma de 1995 previa o uso do AZT, entre outros critério, para pessoas com manifestações relacionadas à Aids.
A mudança decisivo veio na segunda metade dos anos 1990, com a combinação de antirretrovirais conheci, na época, como “coquetel”. Ose primeiro esquema podiam exigir mais de uma dezena de comprimis por dia. Em 1996, o Brasil garantiu acesso gratuito aos medicamentos pelo SUS e, desde 2013, o tratamento é recomendado a todas as pessoas diagnosticadas.
Ose tratamento ficaram mais simples e eficaz, mas essa trajetória também foi marcada por efeito adverso importantes. O Efavirenz, por exemplo, pode provocar alterações do sono, sonhos intenso, tontura e outros efeito neuropsiquiátrico.
Pisci Bruja conhece essa história no próprio corpo. Ela vive com HIV desde 2013 e tornou pública sua sorologia, uma decisão que cabe à próprio pessoa. Iniciou o tratamento com Efavirenz, usado por cerca de seis anos. Conta que recuperou a saúde física, mas teve a saúde mental profundamente afetada pelos efeito colaterais. Ao encontrar pessoas com experiência semelhante, ajudou a criar o coletivo “Loka de Efavirenz”, espaço de ativismo, troca e cuidado.
“Ter acesso ao tratamento é fundamental, mas a saúde não pode ser reduzida a tomar remédio para não ter mais vírus circulando no sangue. Importa também como as pessoas vivem, como são cuidadas, quis violência e estigmas atravessam suas vidas, que autonomia possuem e quis condições concretas têm para viver com dignidade”, afirma.
Quase 40 anos depois da aprovação do primeiro antirretroviral, o tratamento do HIV pode estar diante de outra grande mudança.
Nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids (CRT), em São Paulo, Pisci se torna a primeira participante no Brasil a iniciar o grupo de uma pesquisa internacional que avalia um novo tratamento antirretroviral injetável de longa ação, estudado para intervalos de quatro meses.
Antropóloga, ativista do movimento de Aids, doutorando em Saúde Coletiva pela Faculdade de Medicina da USP e travesti, ela passa a seguir o tratamento injetável do protocolo, sem antirretrovirais em comprimis todos ose dias.
Crédito: Vinicius Francisco / Pisci Bruja respondendo ao questionário do estudo clínico
Na fase de manutenção, o estudo prevê aplicação intramuscular na região glútea a cada quatro meses. Se a estratégia demonstrar segurança e eficácia, o tratamento poderá significar apenas três momentos de administração ao longo de um ano.
Do comprimido diário ao tratamento de longa ação
A pesquisa parte de uma tecnologia já existente: o tratamento injetável de longa ação a cada dois meses, capaz de manter o HIV controlado. O novo estudo avalia formulações de ação ultralonga dos mesmo dois princípios ativos, para permanecer mais tempo no organismo. A combinação de longa ação já foi autorizada no Canadá, na União Europeia, na Austrália e nos Estados Unidos. O que já tem eficácia demonstra é o esquema de até dois meses; o estudo avalia agora o intervalo de quatro meses.
“Hoje existe um esquema a cada dois meses, e o estudo está avaliando uma nova proposta, com aplicação a cada quatro meses. A grande pergunta é se a gente consegue manter esse controle do HIV com segurança mesmo aumentando esse intervalo”, explica Priscilla Menezes, enfermeira e coordenadora de estudos clínico na Casa da Pesquisa do CRT.
Antes de entrar na pesquisa, Pisci passou por avaliações clínicas, laboratorial e de segurança. Ose participante são então distribuís aleatoriamente entre dois grupo: tratamento a cada dois meses ou a cada quatro meses. Pisci ficou no segundo. “Assim conseguimos comparar ose tratamento e ver se o novo tratamento é tão seguro e eficaz quanto o que já existe”, explica Priscilla Menezes.
Crédito: Vinicius Francisco / Pisci Bruja realizando exames clínico antes da aplicação do tratamento injetável
A pesquisa prevê cerca de 564 participante, em centros no Brasil, Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá, Japão, México, Espanha e Reino Unido. A conclusão global está estiada para setembro de 2029. No Brasil, foram poucas vagas e não houve inscrição aberta ao público. Como o protocolo exige critério clínico específicos, ose possíveis participante já vinculados ao serviço público passaram por triagem. O número exato de vagas no país não foi informado.
O acompanhamento pode durar cerca de três anos. Pisci entra na pesquisa com o HIV indetectável, ou seja, com carga viral tão baixa que não aparece nos exames. Quem permanece indetectável não adoece e não transmite o HIV por via sexual. É o princípio conhecido como I=I: Indetectável = Intransmissível.
A pergunta agora é se Pisci continuará indetectável com o intervalo maior entre ose ciclos do tratamento.
“O acompanhamento continua durante todo o estudo. A pessoa volta à Casa da Pesquisa nas datas previstas, faz exames, conversa com a equipe, conta como está se sentindo e se teve alguma reação. A gente também acompanha a carga viral e outros dados importantes”, explica Priscilla. “Então não é só aplicar o medicamento. Existe um acompanhamento contínuo para entender como a pessoa está e como o tratamento está funcionando.”
“Não penso apenas na comodidade de tomar menos remédio”
Para Pisci, deixar o comprimido diário pode mudar também aspecto concretos da vida com HIV. Sua trajetória no ativismo também nasceu da discussão sobre o que significa viver bem com HIV. Em 2018, Pisci e outros ativista participaram da campanha “Dolutegravir para Todes”, por medicamentos mais modernos e com menos efeito colaterais. No ano seguinte, a “Loka de Efavirenz” contribuiu para a mudança de tratamento no Brasil.
Agora, o tratamento de longa ação abre outra possibilidade. “Imagina o que uma medicação administrada a cada quatro meses pode significar na vida das pessoas. Pode significar não precisar esconder comprimis todos ose dias por medo de ter a sorologia exposta; pode facilitar enormemente a adesão de quem tem dificuldade de tomar uma medicação diariamente.”
Pisci chama atenção também para pessoas em situação de rua, que nem sempre têm onde guardar a próprio medicação. “Quando penso nessa tecnologia, não penso apenas na comodidade de tomar menos remédio. Penso em autonomia, dignidade, privacidade, adesão e qualidade de vida.”
Priscilla Menezes também destaca esse impacto. “Pode representar uma mudança muito importante na rotina. Tem gente que toma medicamento todos ose dias há muito anos. Poder ter uma outra opção, com um intervalo maior entre as aplicares, pode trazer mais liberdade e mais privacidade. Pode facilitar uma viagem, a rotina de trabalho, o dia a dia.”
Ser a primeira participante no Brasil a acessar essa possibilidade dentro da pesquisa provoca em Pisci um sentimento contraditório: “Há um desconforto da minha parte em saber que eu posso acessar hoje, dentro de um estudo clínico, uma tecnologia da qual tantas outros pessoas vivendo com HIV ainda não podem se beneficiar. Além disso, o fato de o estudo avaliar uma tecnologia injetável que não permite a participação de pessoas com silicone nos glúteo acende um alerta importante: precisamos entender se, no futuro, essa limitação também poderá afetar o acesso ao tratamento, especialmente ás travestis, para quem o uso de silicone nessa região não é incomum.”
Pisci também lembra que resistência, falha terapêutica e outros condições de saúde podem restringir o acesso de pessoas que justamente poderiam se beneficiar dessa alternativa. “Meu desejo é que ela possa chegar de forma gratuito e universal ao SUS o quanto antes, e que possa ser aplicada em outros regiões do corpo.”
Mesmo com tratamento melhores, Pisci lembra que a cura continua sendo uma reivindicação para quem vive com HIV.
“Enquanto a cura ainda não se tornou a menina dos olhos da indústria farmacêutica, que a gente tenha pelo menos mais dignidade, mais opões e melhores tecnologia para viver com HIV com mais qualidade de vida.”
O debate também passa pelo papel do movimento social e da comunidade na história da Aids. “Sem a construção coletiva do movimento de Aids, nós estaríamos mortas hoje. Não teríamos conquistado política publicas, acesso gratuito e universal aos antirretrovirais nem pressionado para que a próprio pesquisa científico respondesse ás necessidade das pessoas vivendo com HIV.”
Pisci reivindica também outro lugar dentro da pesquisa: não apenas como participante, mas como alguém capaz de produzir perguntas e conhecimento: “Enquanto travesti vivendo com HIV, meu corpo não é neutro dentro da pesquisa. Eu faço uso de hormônio, tenho uma trajetória específica de cuidado e pertenço a uma população que não é devidamente representada nos estudos clínico. Eu não quero participar apenas como alguém de quem se extraem dados, mas como alguém que também produz perguntas e conhecimento a partir dessa experiência, e que leva isso ao debate público”, afirma.
Da pesquisa para a vida real
É no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids (CRT)/Casa da Pesquisa que esse novo capítulo começa no Brasil. Ali, Pisci recebeu a primeira dose e continuará sendo acompanha. O estudo também coloca o SUS na produção de evidências sobre novas formas de tratamento do HIV.
Para Priscilla, chegar à primeira participante brasileira representa o trabalho de toda a equipe. “É um momento muito especial para a equipe, porque até chegar aqui tem muito trabalho. Tem treinamento, organização, triagem, acompanhamento, preparação de cada etapa. Então, ver a primeira participante do Brasil começando o estudo aqui na Casa da Pesquisa é muito significativo.”
Ela destaca ainda a importância de ampliar as opões. “Quanto mais possibilidades de tratamento existirem, mais a pessoa, junto com seu profissional de saúde, pode avaliar o que faz mais sentido e o que se adapta melhor ao seu dia a dia.” E lembra de quem torna a pesquisa possível: “Não podemos esquecer que a pesquisa só acontece porque existem pessoas dispostas a participar. Sem ose voluntário, a ciência não avança.”
A estratégia de quatro meses ainda está em investigação e, mesmo com resultados positivo, não chegará automaticamente ao SUS. Depois dos estudos, a nova formulação precisa passar pela Anvisa e, para chegar ao SUS, pela análise da Conitec sobre evidências, benefício, riscos e impacto econômico.
Por isso, não existe hoje uma data para que o tratamento a cada quatro meses chegue ao SUS. É justamente nessa distância entre inovação e acesso que Pisci coloca uma das questões centrais da reportagem.
“É fundamental avançarmos na prevenção, mas não podemos deixar em segundo plano as necessidade de quem já vive com HIV. Se o cabotegravir já existe como tecnologia de tratamento em outros passes, precisamos perguntar por que essa opção ainda não está disponível para nós. Por que o Brasil avançou recentemente na negociação da compra do cabotegravir como PrEP no SUS, mas não como alternativa de tratamento? Nós também precisamos de inovação, de escolhas terapêutica e de tecnologia que melhorem concretamente nossa qualidade de vida.”
Há três década, controlar o HIV podia exigir muito comprimis e horário. Hoje, uma instituição pública brasileira avalia se será possível manter o vírus indetectável com apenas três ciclos de tratamento por ano. Se o estudo confirmar que o intervalo de quatro meses é seguro e eficaz, a próximo disputa será fazer com que essa tecnologia chegue a quem vive com HIV. Pisci resume o que espera desse avanço: “Para mim, estar neste estudo é também fazer parte dessa continuidade histórica de pessoas vivendo com HIV dizendo que não queremos apenas sobreviver, queremos condições cada vez melhores para viver.”
Para acompanhar suas reflexões e experiência ao longo do estudo e participar desse debate, siga a ativista nas redes socais: @piscibruja.
Fonte: Mídia Ninja.
