Futebol como política não enunciada: Copa Libertadores, ditaduras e identidade latino-americana

Portal Inhaí
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Por Isis Maria, cobertura especial para a Feira do Livro 2026

O estádio do Pacaembu foi o cenário para o debate entre o historiador argentino Alejandro Dronez e o professor brasileiro Fábio Luis Barbosa dos Santos, que percorreram um território que vai muito além das quatro linhas: o futebol como laboratório das contradições latino-americanas.

Na Feira do Livro 2026, os dois lançaram livros que, como observou Fábio Luis, fazem movimentos opostos e complementares. Libertadores da América, de Dronez (Editora Pinard), acompanha jogos da Copa Libertadores em diferentes países e vai tecendo, a partir dos estádios, a história da independência continental. Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol, de Fábio Luis (Editora Elefante), mostra o movimento contrário: a homogeneização do futebol segundo uma régua europeia e o que se perdeu nesse processo.

“Quando a FIFA proíbe a paradinha, isso também é política”

Um dos fios condutores da conversa foi a ideia de que futebol e política não são esferas separadas, mas que a política do futebol frequentemente opera sem se anunciar como tal. Fábio Luis elencou exemplos concretos: a FIFA suspendeu a Rússia de competições internacionais, mas não fez o mesmo com Israel ou com os Estados Unidos. Essa seletividade é explícita. O que é menos discutido, pontuou ele, é a política embutida nas regras do jogo.

“Quando a FIFA proíbe a paradinha na cobrança de pênalti, prejudicando apenas quem faz paradinha — e quem faz paradinha são os brasileiros —, isso também é uma forma de fazer política, não enunciada como tal. Quando orienta os árbitros a não darem cartão vermelho no primeiro tempo das Copas do Mundo, você está privilegiando quem bate, e não quem dribla. Quando implementa o VAR e dobra o número de gols em bola parada, você está deslocando a emoção do jogo vivo para o jogo parado. Tudo isso privilegia o futebol europeu sem dizer o nome.”

Dronez acrescentou uma dimensão visual a esse argumento. Nos jogos da Libertadores e da Sul-Americana, disse ele, as câmeras costumam captar o entorno dos estádios: montanhas, rios, o pôr do sol. “Graças a Deus”, brincou, “porque muitas partidas são disputadas à tarde na América e não podem ser à noite, já que há muitos jogos preliminares”. A câmera que vaga pelo espaço ao redor do campo é, para ele, um registro involuntário de que existe um mundo fora do espetáculo padronizado — e de que esse mundo insiste em aparecer.

A exportação de jogadores e o fim dos times

Para Fábio Luis, a destruição dos grandes times sul-americanos não é um acidente, mas consequência direta da abertura dos mercados europeus de futebol e da lógica neoliberal. “O Flamengo do Zico, do Andrade, do Júnior. O São Paulo do Raí, do Müller, do Cafu. Isso, no século XXI, não existe mais, nem no Brasil nem na Argentina.”

O esvaziamento veio de fora para dentro: jogadores sendo exportados cada vez mais jovens para a Europa, antes mesmo de consolidarem vínculos com um time, uma cidade, uma torcida. E também de dentro para fora: a concentração de dinheiro em poucos clubes, reproduzindo, no plano regional, a mesma lógica de acumulação que opera globalmente.

“O Brasil exporta 1.300 jogadores por ano. Só a França exporta mais. Mas o Brasil não exporta para a América do Sul. A Argentina exporta muito para os países da região. Isso explica por que os clubes brasileiros venceram as últimas sete edições da Libertadores.”

Dronez concordou que a hegemonia brasileira recente no torneio não é motivo de celebração simples. Para ele, quando dois clubes do mesmo país disputam uma final da Libertadores, algo essencial se perde. “A Copa Libertadores me interessa precisamente pela diversidade, pela mestiçagem, pela heterogeneidade. Quando isso deixa de existir, o problema não é o Brasil. É o que está acontecendo.”

Ditaduras, Copa de 1978 e o futebol como ferramenta de poder

A relação entre regimes autoritários e futebol ocupou boa parte da mesa. Anita Efraim lembrou que a Copa de 1970 foi instrumentalizada pela ditadura militar brasileira, que a Copa de 1978 foi usada pela junta argentina e que, no Chile, Pinochet transformou o Estádio Nacional em centro de detenção e tortura, enquanto apoiava o Colo-Colo para angariar popularidade.

Ela também contou que, quando visita Santiago, recomenda que todos façam o tour conduzido aos sábados por sobreviventes do Estádio Nacional, que mostram por onde passaram e onde ficaram detidos. “Tudo isso dentro de um estádio onde toda semana tem jogo.”

Fábio mencionou ainda o arquiteto Miguel Lawner, presente naquela tarde na Feira do Livro. Preso após o golpe de 11 de setembro de 1973, ele foi enviado para um campo de concentração na ilha de Dawson, na Patagônia. Lawner pediu permissão aos militares para reformar uma pequena igreja e, com acesso a papel e lápis, passou a desenhar diariamente as estruturas do campo, queimando os papéis em seguida até memorizar cada detalhe. Ao deixar a prisão, refez todos os desenhos em uma exposição que percorreu o mundo.

Fábio Luis sublinhou que esse uso político do futebol não é coisa do passado. Listou Copas do Mundo concedidas como instrumentos de legitimação: África do Sul com Mandela, Brasil com Lula no auge do lulopetismo, Rússia e Catar. “Cada um tem uma causa. Seja Mandela, seja Lula, seja Putin, seja o emir do Catar.”

E apontou que o Marrocos, sede de uma próxima Copa do Mundo, pratica o que chamou de “futebol washing”: uma monarquia que mantém sob seu controle a última colônia da África, o Saara Ocidental, e que construiu uma seleção formada quase inteiramente por descendentes de marroquinos criados na Europa, sobretudo na França, para projetar uma imagem de modernidade e pertencimento global.

A rivalidade Brasil-Argentina como construção das ditaduras

Um dos momentos mais interessantes da mesa aconteceu quando Fábio Luis propôs, com toda a seriedade, que seus alunos de História da América Latina torçam para a Argentina na próxima Copa do Mundo. Não contra o Brasil, explicou, mas por entender que a rivalidade futebolística entre os dois países foi, em grande medida, uma construção das ditaduras militares que governaram ambos no mesmo período.

“Vinícius de Moraes gravou um show ao vivo em Buenos Aires, em 1970, dias depois de o Brasil ser tricampeão. Ele começa agradecendo o apoio argentino naqueles dias, e o público aplaude. Não há ironia alguma nisso.” O tom mudou em 1982, quando Brasil e Argentina se enfrentaram sob uma cobertura narrativa atravessada pela Guerra Fria. “Em 1990, quando o Maradona dribla a zaga inteira e passa para o Caniggia, que elimina o Brasil, o narrador da Globo vai falando: ‘olha a hora que diz que está machucado aí’. Uma grosseria. Na partida anterior, o Maradona jogou com o tornozelo inchado desse tamanho.”

Fábio Luis lembrou que Maradona sofreu 158 faltas nas Copas do Mundo que disputou. Mais do que Neymar, Messi e Ronaldo somados. “As pinturas do Maradona não são mais possíveis no futebol atual. Você está privilegiando quem bate, não quem dribla.”

Ele foi direto ao declarar que torceu para a Argentina na final da última Copa do Mundo. “Falo sem nenhuma vergonha. Porque foi a final mais emocionante da história das Copas. Porque 5 milhões de argentinos foram às ruas e viveram os melhores dias de suas vidas. E porque, olhando do lado de cá, eu me perguntava se aquilo ainda seria possível no Brasil, não só porque a gente não ganhou a Copa, mas porque a gente já estava atravessado pelo bolsonarismo.”

A camisa amarela e o 7 a 1

A instrumentalização política da camisa da seleção brasileira levou a conversa a uma análise do 7 a 1 como ruptura simbólica. Para Fábio Luis, a derrota para a Alemanha, em 2014, não foi apenas o resultado de um jogo; representou o esvaziamento de uma expectativa de país.

“Em 1950, quando o Brasil perdeu para o Uruguai, houve um grande luto coletivo. Mas existia um horizonte de expectativa: o Brasil ainda era um país do futuro, o desenvolvimentismo estava construindo Brasília, a gente ainda nem tinha ganhado a Copa.” Em 2014, a disposição afetiva era outra. As manifestações de 2013 haviam questionado a República por dentro. Antes mesmo de a Copa começar, a imagem dos torcedores no Itaquerão xingando a presidenta Dilma Rousseff anunciava a impossibilidade de qualquer sentimento coletivo.

“Quando acontece o 7 a 1, aquela seleção, aquela camisa amarela, identificava uma expectativa de nação que se esvaziou. E isso abriu espaço para outros sentidos, entre eles a ideia de um Brasil cristão, em que o político e o messiânico se mesclam, com seu episódio culminante em 8 de janeiro.”

Fábio Luis deu um exemplo pessoal: joga futebol regularmente, mas não convidou nenhum parceiro de pelada para o lançamento do livro. “Porque são ecossistemas homofóbicos, bolsonaristas e explicitamente cristãos. Antes de cada jogo, todo mundo se une, dá os braços e reza o Pai Nosso como grito de guerra. O que você pode fazer, se não é homofóbico, não é cristão e não é bolsonarista, nesse contexto? Ser invisível.”

Anita Efraim acrescentou que a Colômbia vive um processo semelhante com sua camisa amarela, associada à extrema direita durante os ciclos eleitorais mais recentes.

O retorno dos jogadores e o que a Europa não tem

A mesa terminou com uma pergunta sobre o fenômeno dos jogadores latino-americanos que voltam para casa antes de encerrar a carreira. Ronaldo Fenômeno voltou ao Corinthians, Neymar ao Santos e, recentemente, Nicolás Otamendi anunciou seu retorno ao River Plate.

Fábio Luis recusou a explicação mais fácil. “Não é pobreza. Não é dinheiro. É que o que os latino-americanos têm, e a Europa não tem, é uma relação com o torcedor que não é instrumental.” Enquanto, na Europa, um jogador existe sobretudo enquanto produz resultados para o clube, aqui a relação pode atravessar gerações. “A relação que os argentinos têm com o Maradona não acontece na Europa com nenhum jogador, por mais estelar que ele seja.”

Ronaldo Fenômeno foi, para ele, o exemplo mais claro. Saiu do Brasil aos 17 anos, jogou menos de uma temporada no Cruzeiro e passou mais tempo no São Cristóvão. Quando voltou ao Corinthians, experimentou pela primeira vez um banho de torcida que nunca havia vivido ao longo da carreira. “Ele teve aquilo que não viveu nunca.”

E encerrou com uma imagem que atravessou toda a conversa: a capacidade latino-americana de fazer do profano algo sagrado, de parar tudo por um jogo, de transformar a rivalidade em encontro.

“Eu estava na França em 2018, quando a França ganhou a Copa. Os caras marcaram reunião no dia da semifinal. Aqui, essa capacidade de celebrar a vida, de dizer que existe algo mais importante do que o trabalho, isso ainda é nosso. E é uma virtude que vale a pena defender.”



Por Midia Ninja

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