Festival de Veneza 2026 começa com grandes estreias, Brasil na disputa e debates políticos

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Por Mateus Felipe

A 83ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza teve início hoje, dia 2 de setembro, no Lido de Veneza. Como um dos principais eventos do cinema mundial, o festival atua como um termômetro para a temporada de premiações cinematográficas que culminam no Oscar de 2027. A condução das cerimônias de abertura e encerramento fica por conta dos atores italianos Greta Scarano e Nicolas Maupas.

O júri oficial da Competição Principal (Venezia 83), responsável pela atribuição do Leão de Ouro, é presidido pela atriz e cineasta americana Maggie Gyllenhaal. Além dela, a banca de jurados é composta pela cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, pelo músico britânico Daniel Blumberg, pelo teórico de cinema Francesco Casetti, pelo diretor francês Xavier Giannoli, pela cineasta afegã Shahrbanoo Sadat e pelo diretor Johnnie To, de Hong Kong.

Nesta edição, as homenagens com o Leão de Ouro pelo conjunto da obra serão concedidas à atriz americana Ellen Burstyn e ao ator, produtor e diretor George Clooney. Adicionalmente, o prêmio Cartier Glory to the Filmmaker será entregue ao cineasta italiano Luca Guadagnino, enquanto o prêmio Campari Passion for Film reconhecerá a atriz Serena Rossi.

A sessão de abertura da mostra competitiva principal, integrada por 21 longas-metragens, traz a estreia mundial de “Ink”, um drama biográfico dirigido por Danny Boyle, com roteiro de James Graham, baseado em sua peça homônima de 2017. Estrelado por Guy Pearce e Jack O’Connell, o filme aborda a trajetória de Rupert Murdoch e Larry Lamb na reestruturação do tabloide The Sun no final da década de 1960. No elenco, a atriz Claire Foy interpreta Jules Davies, uma personagem fictícia que sintetiza a atuação de jornalistas mulheres da época.

Diversas produções se destacam na disputa pelo Leão de Ouro. “Wild Horse Nine”, de Martin McDonagh, surge como uma obra de ficção histórica com John Malkovich e Sam Rockwell, ambientada no Chile durante o período que antecedeu o golpe de 1973. “Bucking Fastard”, de Werner Herzog, é estrelado pelas irmãs Rooney Mara e Kate Mara em papéis de gêmeas idênticas com uma conexão profunda. O drama psicológico “Bunker”, de Florian Zeller, traz Javier Bardem e Penélope Cruz como protagonistas.

As expectativas são altas para “Look Back”, de Hirokazu Koreeda, que se trata de uma adaptação em live-action do mangá homônimo sobre a amizade de duas jovens desenhistas. “Primetime”, de Lance Oppenheim, foca na trajetória do apresentador de televisão Chris Hansen e discute os limites entre jornalismo investigativo, ética e espetáculo. “It Will Happen Tonight”, de Nanni Moretti, assinala o retorno do diretor italiano à competição de Veneza após sua última participação em 1989. “Possible Love”, de Lee Chang-dong, marca o novo projeto do cineasta sul-coreano após um hiato de oito anos na direção de longas, sucedendo o aclamado “Em chamas”, de 2018.

O Brasil também marca lugar na disputa principal desta edição, após “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, ter recebido o prêmio de Melhor Roteiro na competição em 2024. O país participa por meio de “Retorno a Buenos Aires”, uma coprodução oficial com a Itália dirigida pelo cineasta chileno-italiano Marco Bechis. A narrativa aborda o retorno de Mariano Guerra, interpretado por Adriano Giannini, à Argentina para depor em processos judiciais referentes a crimes cometidos durante a ditadura militar de 1970. O longa contou com quatro semanas de filmagens em Porto Alegre e três semanas em Turim, reunindo no elenco os atores brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy, em conjunto com Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss.

Já na 41ª Semana Internacional da Crítica, mostra paralela do Festival de Veneza dedicada a longas de estreia, o Brasil é representado por “London”. Primeiro longa-metragem dos diretores Victor Di Marco e Márcio Picoli, a obra disputa o prêmio Leão do Futuro. Filmado em Porto Alegre, o enredo acompanha London, interpretado pelo próprio Victor Di Marco, um jovem com deficiência que realiza performances em uma casa de fetiches. Diante de exames que podem diagnosticar a evolução de sua condição, o protagonista confronta a tensão entre a definição médica de seu corpo e o exercício de seus desejos e de sua autonomia.

Produzida pelas empresas Proa & Popa Produções e Balde de Tinta, com distribuição da Retrato Filmes, a realização de “London” enfrentou desafios logísticos e operacionais decorrentes das enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul antes do período planejado para as filmagens.

Foto: Ma Villa Real

Por fim, ainda no âmbito das coproduções, o título “Furies”, do diretor Rami Kodeih, realizado entre o Líbano e o Brasil, foi selecionado para a mostra Venice Spotlight.

A edição deste ano, além da programação diversa, está inserida no centro de diversos debates globais. Inicialmente, a tradicional coletiva de abertura com os integrantes do júri principal da competição foi retirada da programação oficial por “problemas de agenda”. De acordo com informações da Variety, o cancelamento foi interpretado nos bastidores como uma estratégia de omissão para blindar os artistas e o próprio festival de indagações políticas. Nos últimos meses, coletivas de grandes eventos do cinema, como Berlim e Cannes, foram dominadas por protestos, questionamentos e cobranças de posicionamento dos artistas em relação às operações militares genocidas de Israel contra a população palestina na Faixa de Gaza. Na edição passada do Festival de Veneza, o então presidente do júri, Alexander Payne, causou desconforto ao se recusar a responder a perguntas políticas, repassando o microfone diretamente para o diretor do festival, Alberto Barbera. Após a repercussão negativa, a organização voltou atrás e reagendou o encontro para o primeiro dia de atividades.

Em 24 de agosto, a organização anunciou a adição tardia do documentário “NAZA” à disputa oficial devido a questões estritas de segurança na exibição. Dirigida por Yuval Abraham e Rachel Szor, ambos premiados no Oscar 2025 por “No Other Land”, a obra foi produzida pelo jornal The Guardian e conta com a produção executiva de Jonathan Glazer e James Wilson. Filmado de forma clandestina em Tel Aviv, o longa investiga os sistemas de monitoramento militar em operações em Gaza. Consequentemente, a exibição ocorre no contexto de uma ampla mobilização de mais de cem personalidades da indústria, como Roger Waters e Annie Ernaux. Por meio de uma carta aberta coordenada pelo coletivo Venice4Palestine, o grupo cobra um posicionamento oficial do festival em favor da causa palestina, sendo impulsionado pela presença de filmes de diretores palestinos na programação, como “Citizen Osama”, de Ahmed Hassouna, e “Conversation with the Sea”, de Muayad Alayan.

Paralelamente, o festival enfrenta discussões de ordem diplomática em torno da exibição do longa-metragem “DAU”, do cineasta russo Ilya Khrzhanovsky. A seleção do projeto motivou protestos formais dos ministérios ucranianos da Cultura e dos Negócios Estrangeiros, que alegaram a existência de vínculos entre a produção e interesses governamentais do Kremlin. Em resposta, Khrzhanovsky se defendeu publicamente ao afirmar que o filme consiste em uma coprodução europeia entre Alemanha, França e Suécia. O cineasta pontuou que renunciou formalmente à sua cidadania russa em protesto contra a invasão à Ucrânia, sustentando que o longa se configura como uma denúncia contra os mecanismos do totalitarismo. O diretor artístico do Festival de Veneza, Alberto Barbera, endossou a posição de Khrzhanovsky, descrevendo o cineasta como um dissidente presente na lista de opositores do regime russo, e reforçou que o evento atua na defesa da liberdade de expressão.

Por fim, debates evidenciam a baixa representação de cineastas mulheres na seleção oficial. Divulgada em julho, a lista contava com apenas uma diretora concorrente, a dinamarquesa May el-Toukhy, com o filme “Woman Unknown”, evidenciando uma queda na participação feminina no evento nos últimos cinco anos. A inclusão tardia do documentário “NAZA”, codirigido por Rachel Szor, elevou o número para duas cineastas mulheres entre as 21 produções da disputa. No entanto, o desequilíbrio gerou protestos de grupos como o coletivo Collectif 50/50. Em resposta, Alberto Barbera rejeitou acusações de viés de gênero e reiterou sua oposição a cotas, atribuindo o resultado a uma diminuição geral nas inscrições de filmes dirigidos por mulheres, que caíram de 30% no ano anterior para 24% em 2026, e afirmou que as obras selecionadas se baseiam exclusivamente em critérios de qualidade artística.

Eventos de grande escala, a exemplo do Festival de Veneza, atuam como plataformas globais para a projeção de obras que, além de revelar diversas dinâmicas socioculturais, denunciam violências e injustiças. Do seu início hoje (2), o 83º Festival Internacional de Cinema de Veneza segue até 12 de setembro de 2026, e você pode acompanhar os principais destaques da edição aqui na Cine Ninja.

Confira a programação completa aqui.



Por Midia Ninja

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