Fernando Libonati: ‘Hoje temos a liberdade de nos mostrar’

Portal Inhaí
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Por Kaio Phelipe

Fernando Libonati é um dos nomes centrais da produção teatral contemporânea e uma referência na forma de pensar a produção cultural no Rio de Janeiro. Sua trajetória na área começou em 1990, quando assinou sua primeira produção ao lado de Louise Cardoso e Thaís Portinho, no espetáculo Fulaninha e D. Coisa, de Noemi Marinho, dirigido por Marco Nanini, seu parceiro de vida.

Ao longo dos anos 2000, Libonati esteve à frente de importantes iniciativas para a cena cultural carioca, em especial com a criação do Galpão Gamboa, que se transformou em um polo de convivência e produção artística. Em seguida, expandiu essa atuação com o Reduto, em Botafogo, e com a Pequena Central, que leva produções teatrais para todo o Brasil.

Em entrevista à Mídia NINJA, Libonati fala sobre duas importantes estreias: como diretor em As Cadeiras e como ator em Apenas Coisas Boas, dirigido por Daniel Nolasco.

Fernando também comenta sobre a importância das narrativas LGBTQIA+ no cinema e seus próximos projetos, que incluem uma série para o audiovisual, um documentário dirigido por Marina Person e novos espetáculos teatrais.

Foto: Elisa Mendes

Quando começou a carreira como produtor?

Minha primeira produção foi em 1990. Produzi, em parceria com Louise Cardoso e Thaís Portinho, o espetáculo Fulaninha e D. Coisa, de Noemi Marinho, com direção de Marco Nanini, cenografia de Guilherme Karan e figurinos de Carlos Prieto, completando o elenco Mauri Aklander.

Seu trabalho sempre foi muito importante para manter viva a cultura no Rio de Janeiro. Como surgiu a ideia de criar o Galpão Gamboa?

Nanini, meu sócio e parceiro de vida, estava atrás de um local para ensaio que fosse próximo a uma comunidade. Estávamos incomodados com as barreiras sociais que nos são impostas. Então, em 2007, saí à procura de um espaço, e uma corretora me apresentou o prédio 279 da Rua Gamboa. Iniciamos a ocupação do prédio cedendo espaços para alguns amigos e, desse processo, foram brotando atividades sociais e artísticas.

Tivemos no espaço muitas atividades, como yoga e teatro para a terceira idade, aulas de muay thai e oficinas de artes para crianças e adolescentes. Em 2010, juntamente com César Augusto, criamos mostras de teatro (Gamboavista, que chegou a seis edições), dança (Dança Gamboa) e música (Garagem Gamboa). Criamos um espaço democrático, com acesso para todos.

Apresentamos por lá os melhores espetáculos de cada temporada, nomes como Fernanda Montenegro, Renata Sorrah, Matheus Nachtergaele, Louise Cardoso, além de shows de Elza Soares, Letrux, Linn da Quebrada e Pabllo Vittar. Tivemos várias edições da festa V de Viadão e a ocupação do Dama de Ferro. Foram anos muito fortes no espaço.

Em 2016, iniciamos experiências artísticas em Botafogo, criando o Reduto, espaço cultural e de encontros, com bar e restaurante.

Foto: Carlos Cabéra/making off das filmagens de As cadeiras

Através da Pequena Central, você leva o teatro para o Brasil inteiro. Qual é a maior dificuldade e a maior satisfação em levar cultura para todo o país?

A grande dificuldade de levar cultura para um país com as nossas dimensões é o custo do transporte (passagens aéreas e caminhão para cenário e equipamentos) e da hospedagem. A satisfação é a troca com públicos distintos. Ainda agora tenho realizado oficinas de produção nas cidades onde nos apresentamos, e é muito gratificante essa troca com artistas locais.

Como foi estrear como diretor em As Cadeiras?

Estávamos no meio da pandemia e sentindo a necessidade de criar algo que, de alguma forma, representasse a situação de isolamento pela qual todos passávamos. Lembrei do texto de As Cadeiras, do Ionesco, que sempre esteve nos nossos planos, juntamente com Camilla Amado. Tínhamos o facilitador de ser um espetáculo com apenas dois atores e de o tema dialogar com o que vivíamos. O projeto seria executado ao vivo e em vídeo (por conta da impossibilidade de, naquele momento, termos a presença do público).

Me debrucei sobre o texto, fiz alguns ajustes, convidei o poeta José Almino de Alencar para deixá-lo confortável para os atores, reuni artistas em quem confiava e ensaiamos como para uma montagem teatral, porém sabendo que nosso primeiro contato seria com o cinema. Filmamos tudo em 10 dias, em estúdio, no meio de uma cidade vazia, com dois atores gigantes que nos emocionavam a cada cena. Eu amei ter feito!

Como foi atuar em Apenas Coisas Boas e ser dirigido por Daniel Nolasco?

O convite do Daniel me pegou de surpresa. Não estava nos meus planos atuar, mas resolvi abraçar a ideia. Encarei com seriedade e respeito aquilo que por tantos anos observei na preparação do Nanini para criar os seus personagens. Tive uma preparação com um ensaiador, fizemos leituras, trocamos impressões, e a segurança do Daniel sobre os caminhos que iria percorrer me trouxe conforto.

O roteiro é bastante audacioso por fazer uma quebra de estilo e narrativa, saindo do idílico romântico da primeira parte para uma segunda metade com um suspense psicológico. Tivemos ainda uma completa transformação do personagem Antonio, do herói romântico para um homem contemporâneo, 40 anos mais velho, em conflito com sua consciência e com atos que promovem forte ruptura nos laços estabelecidos na primeira parte. Também tive a sorte de contracenar com dois atores experientes e generosos, Igor Leoni e Renata Carvalho.

Foto: 1986 durante a montagem de Irma Vap

Estamos vivendo um momento muito precioso, em que podemos colocar, nas diversas linguagens artísticas, a voz de quem até então era excluído. O cinema é uma importante vitrine para a causa LGBTQIA+.

No início dos anos 2000, coproduzi o longa-metragem Do Começo ao Fim, de Aluizio Abranches, e vejo um processo de maior liberdade e diversidade das narrativas. Se, no início dos anos 2000, precisávamos, para atingir o público, aproximar a estética do universo heterossexual, hoje temos a liberdade de nos mostrar.

Quais serão seus próximos projetos?

Tenho alguns projetos no audiovisual: uma série que roteirizei juntamente com outras pessoas, partindo de um texto da dramaturga Daniela Pereira de Carvalho, e também o projeto de um documentário, com direção de Marina Person, que faz um recorte dos personagens “marginais” que Nanini defendeu.

No teatro, estamos criando um espetáculo com o título provisório Ensaios – Alma Brasileira. Partimos de um show da Camilla Amado e do João Carlos Assis Brasil e estamos realizando ensaios, nos quais cada um é colocado em cena por um encenador convidado. Já tivemos o Ensaio nº 1, com encenação de Amir Haddad, e o Ensaio nº 2, com encenação de César Augusto e Sandra Pera como convidada. Temos outros previstos, e a ideia é ir construindo esse espetáculo com a contribuição e a troca entre Nanini, um músico, encenadores e convidados. Nesse projeto, sou responsável pela concepção, direção geral e produção.

Em 2027, estreio o espetáculo Homens Gordos de Saia, do autor americano Nick Silver, o mesmo autor de Pterodáctilos.



Por Midia Ninja

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