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Fernando Brigidi: o brasileiro que chegou à Casa Branca e trabalhou ao lado De Kamala Harris

Brasileiro, gay e latino, ele recomeçou a carreira política nos Estados Unidos e chegou ao cargo de diretor-adjunto na Casa Branca O post Fernando Brigidi: o brasileiro que chegou à Casa Branca e trabalhou ao lado de Kamala Harris apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Vinicius Francisco

Fernando Brigidi deixou Porto Alegre em 2015 para estudar em Nova York. Também queria viver sua sexualidade com mais liberdade. “Eu não estava me sentindo feliz sendo um homem gay na política gaúcha”, afirma. Depois de cerca de dez anos trabalhando em campanhas eleitorais e na administração pública, sentia o peso do conservadorismo no meio político, inclusive em setores progressistas. Queria continuar na política, mas procurava um lugar onde se sentisse mais à vontade.

Formado em Administração Pública pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando foi para Nova York fazer um mestrado na Universidade Columbia. Chegou sem conhecer ninguém, com dificuldades no inglês e dinheiro para apenas dois meses de aluguel. A falta de recursos o levou a trancar o curso. “O meu projeto para Columbia tinha dado errado financeiramente”, conta. Depois de seis meses em Nova York, mudou-se para o Texas, onde morou por um ano e meio, segundo ele, “até reorganizar a minha vida”. Mais tarde, ganhou uma bolsa parcial, retomou os estudos e concluiu o mestrado em Gestão Pública na Universidade de Nova York (NYU). “Eu saí da zona de conforto e me joguei em um precipício, pra tentar uma vida nova”, lembra.

Em 2019, decidiu procurar trabalho na campanha de Pete Buttigieg, então prefeito de South Bend, em Indiana. Aos 37 anos e abertamente gay, Buttigieg disputava a indicação democrata para a Presidência dos Estados Unidos. Sem contatos na equipe, Fernando começou a se inscrever nas vagas anunciadas no site da campanha. Durante seis meses, tentou postos de direção, gerência e supervisão. Segundo ele, as recusas vinham acompanhadas da mesma explicação: faltava experiência em campanhas eleitorais americanas.

Ex-secretário-adjunto de Governança Local de Porto Alegre, Fernando resolveu tentar uma vaga de organizador de campo, responsável por conversar com eleitores, distribuir materiais e recrutar voluntários. “Na minha cabeça, eu era secretário adjunto municipal de Porto Alegre. E aí cheguei e pensei: ‘Olha, eu vou entrar como panfleteiro, como aquela pessoa que bate de porta em porta com um panfletinho’. Mas foi assim que eu comecei”, conta. A decisão surpreendeu amigos e antigos colegas, mas ele queria conhecer o funcionamento das campanhas naquele país. “Eu dei dez passos pra trás, mas sabia que isso ia me catapultar 30 pra frente.”

Seu primeiro destino foi Marshalltown, em Iowa, uma cidade de cerca de 27,5 mil habitantes, onde aproximadamente um terço da população é hispânica ou latina, segundo o Censo americano. Por falar espanhol, Fernando foi enviado para mobilizar esses eleitores. “Eu sou latino, sou imigrante, tem muitos imigrantes lá, então fechou super bem”, lembra. Durante meses, percorreu bairros e ajudou a organizar eventos. Em um deles, a equipe pediu que abrisse um encontro de Buttigieg diante de aproximadamente 500 pessoas. Acostumado a discursar em português, ficou nervoso ao falar em inglês para aquela plateia. “Ali eu senti que estava no lugar certo, que tinha voltado ao que eu gosto de fazer e que tinha feito as escolhas certas”, recorda.

Buttigieg terminou a disputa de Iowa à frente na distribuição de delegados para a convenção democrata, numa votação apertada com Bernie Sanders, que recebeu mais votos populares. Foi a primeira vez que um candidato abertamente gay conquistou delegados em uma disputa pela indicação presidencial de um dos principais partidos americanos. Buttigieg não conseguiu a candidatura nacional. Fernando recebeu uma promoção durante a campanha e, quando Joe Biden se consolidou como candidato democrata, em 2020, Fernando participou de uma nova seleção e foi contratado como diretor regional da equipe de Biden.

A pandemia de Covid-19 havia mudado a forma de chegar aos eleitores. Grande parte da mobilização democrata passou para as plataformas digitais, e Fernando participou da adaptação das atividades e da coordenação dos voluntários. Ao comparar essa experiência com as campanhas brasileiras, destaca a maneira de convidar as pessoas a participar e a se envolver nas propostas da candidatura. “Eu não tô te pedindo pra tu se voluntariar pra mim, candidato. Eu tô te pedindo pra tu fazer parte do que eu acredito, pra gente construir juntos”, explica.

legenda: Fernando Brigidi durante uma apresentação sobre o engajamento de comunidades imigrantes.
Crédito: Arquivo pessoal

Biden e Kamala Harris venceram a eleição de novembro de 2020 e tomaram posse em janeiro de 2021. Depois da campanha, Fernando trabalhou na Prefeitura de Nova York, ajudando a mobilizar a população para a vacinação contra a Covid-19 e a distribuir equipamentos de proteção. Em 2022, após uma nova seleção, entrou no governo federal como assessor de Jewel Bronaugh, a primeira mulher negra a ocupar o cargo de ministra-adjunta do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. A função o levou a acompanhá-la em viagens pelo país e em reuniões com representantes do setor agropecuário.

Fernando lembra de se sentar ao lado de Bronaugh em encontros com lideranças majoritariamente brancas e conservadoras. “Eu e ela, uma mulher negra e um gay latino, íamos pelo país inteiro falando com a galera do agro, que era todo mundo branco, maioria republicana, e ela na ponta da mesa. Eu sentia muito orgulho de nós dois”, conta. Com Jewel, Fernando também participou de ações contra o racismo institucional e ajudou a incluir cláusulas que proíbem a discriminação de pessoas LGBTQIA+ em contratos de cooperação e financiamento agrícola.

Legenda: Fernando Brigidi com Joe Biden, então presidente dos Estados Unidos, no Salão Oval da Casa Branca.
Crédito: Arquivo pessoal

Foi durante a passagem pelo Departamento de Agricultura que Fernando recebeu um convite para uma cerimônia na Casa Branca. Em 13 de dezembro de 2022, Biden sancionou a Lei de Respeito ao Casamento, que reforçou as garantias de reconhecimento de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e casais inter-raciais. Para acompanhar a assinatura, reuniram-se parlamentares, ativistas LGBTQIA+ e pessoas que haviam dedicado décadas à luta pelo direito de se casar.

Fernando levou o marido à cerimônia e chegou cedo para conseguir um lugar próximo ao palco. Entre os convidados, lembra de ter visto homens mais velhos que haviam vivido os primeiros anos da epidemia de aids, numa época em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo parecia uma conquista distante. Cyndi Lauper cantou True Colors durante a celebração. Ao final, Biden e Harris se aproximaram dos presentes. Fernando cumprimentou o presidente e conversou com a vice-presidente. Quando ela se afastou, virou-se para o marido e disse: “Eu preciso trabalhar com essa mulher.”

De volta ao Ministério da Agricultura, começou a procurar uma oportunidade no gabinete de Harris. Conta que mandava e-mails diariamente, perguntava sobre vagas e buscava contatos que pudessem ajudá-lo a conseguir uma entrevista. Um colega sugeriu que tentasse a equipe de Biden, que era maior, mas Fernando insistiu que queria trabalhar com a vice-presidente. Em fevereiro de 2023, conseguiu uma entrevista numa manhã de sábado e recebeu a proposta na segunda-feira seguinte. Começou no gabinete em abril, como assessor, e depois se tornou diretor-adjunto de Engajamento Público e Relações Intergovernamentais.

No cargo, fazia a articulação com governadores, prefeitos, parlamentares, movimentos sociais e organizações comunitárias. Antes das viagens e dos eventos de Harris, ajudava a definir quem seria convidado e a preparar os encontros conforme o assunto e a região visitada. Segundo Fernando, o trabalho o levou a acompanhar a vice-presidente em 23 estados. Parte dessas viagens era feita no Air Force Two, avião utilizado pela vice-presidência dos Estados Unidos.

Fernando Brigidi na área externa da Casa Branca, em Washington.
Crédito: Arquivo pessoal

A equipe procurava aproximar Harris de comunidades negras, latinas e de outros grupos pouco representados no governo. “A gente era muito intencional em espaços de pessoas negras, de pessoas latinas, de minorias”, afirma Fernando. Em março de 2024, a vice-presidente esteve em Selma, no Alabama, para homenagear os manifestantes atacados pela polícia numa marcha pelo direito ao voto, em 1965. No discurso, defendeu direitos civis e pediu um cessar-fogo imediato de pelo menos seis semanas na Faixa de Gaza.

Nas viagens, Fernando ouvia Harris falar a jovens sobre a experiência de ser a única pessoa com determinada cor, origem ou sotaque numa sala de reunião. Ela os convidava a lembrar de quem havia ajudado a abrir aquele caminho. “Eu juro, eu me emocionava às vezes. E eu já tinha ouvido vinte vezes”, recorda. Durante as campanhas de 2019 e 2020, ele havia sido alvo de ofensas xenofóbicas de eleitores que o mandavam voltar ao Brasil. Sobre o trabalho no gabinete, diz: “Eu nunca senti nenhum preconceito dentro da Casa Branca. Pelo contrário.”

Fernando também acompanhou as cobranças sobre a primeira mulher, primeira pessoa negra e primeira pessoa de origem sul-asiática a ocupar a vice-presidência americana. Para ele, a estrutura das campanhas e dos eventos ainda era pensada para homens. “Porque eu vi como é difícil uma mulher negra sofrer pressão da imprensa, de grupos políticos, de ser a primeira”, afirma.

Ao falar da convivência com Harris, Fernando também lembra do humor da vice-presidente com a equipe. Durante uma sessão de fotos do Mês do Orgulho LGBTQIA+, ela percebeu sua gravata com as cores do arco-íris e comentou: “Bonita gravata”. Segundo ele, depois da foto, Harris chamou a atenção dos presentes para o acessório, tocou seu peito e brincou: “Ai, pessoal, olha só. Posso com isso? Posso com isso?”. Pete Buttigieg, então Ministro dos Transportes, também estava na fotografia. O candidato para quem Fernando havia batido de porta em porta em Iowa agora era seu colega de governo.

O trabalho na Casa Branca também o aproximou de artistas que admirava. Segundo Fernando, sua equipe participou de agendas com Kim Kardashian, Mariah Carey, Beyoncé, RuPaul entre outras celebridades. A visita de RuPaul mereceu um post, no qual descreveu uma “tarde surreal”. O artista ficou com a equipe por cerca de duas horas e, durante a conversa, os dois descobriram um gosto em comum: Femme Fatale, álbum de Britney Spears. Fernando o descreveu como divertido, gentil e pé no chão, contrariando o conselho de não conhecer os próprios ídolos. Ao fim da legenda, compartilhou uma frase que atribui a RuPaul: “Você pode olhar para a escuridão, mas não fique encarando”, em tradução livre.

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Em julho de 2024, Biden desistiu da reeleição e apoiou Harris para sucedê-lo na candidatura democrata. Faltavam 107 dias para a votação. Fernando pediu licença não remunerada do governo e assumiu uma função de direção nacional na campanha. Coordenou agendas com Barack Obama, Bill Clinton, Jill Biden, Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida como AOC. Foram mais de 200 eventos em dez estados, com público total superior a 200 mil pessoas. Na entrevista, também cita a participação de Christina Aguilera, Jennifer Lopez, Ricky Martin, Bon Jovi, Katy Perry, Lady Gaga em eventos da campanha.

Em agosto, esteve na Convenção Nacional Democrata, em Chicago. Ao aceitar a indicação do partido, Harris contou a trajetória da mãe, uma imigrante indiana que havia viajado sozinha aos Estados Unidos para estudar. Fernando lembrou da própria chegada a Nova York, das dificuldades financeiras e do inglês que ainda não dominava. “Foi como se ela estivesse falando pra mim. Como se estivesse citando meu nome”, conta.

Harris perdeu a eleição de novembro para Donald Trump. Fernando avalia que a saída tardia de Biden deixou pouco tempo para preparar a candidatura. “A gente achou muito injusto ela ter sido colocada naquela situação”, afirma. Também aponta o desgaste do partido, o aumento do custo de vida e a dificuldade dos democratas em representar parte do eleitorado. Permaneceu vinculado ao governo até o fim do mandato Biden-Harris, em janeiro de 2025.

Fernando ainda guarda um papel escrito em 2018, numa atividade de liderança na NYU. A tarefa era anotar onde gostaria de estar dali a cinco anos. Escreveu que queria morar em Washington e trabalhar na Casa Branca. Ao descobrir que teria de ler a resposta para os colegas, ficou envergonhado: achou que poderiam considerá-lo ingênuo ou ambicioso demais. Em abril de 2023, cinco anos depois, começou a trabalhar no gabinete da vice-presidente dos Estados Unidos.

Fonte: Mídia Ninja.

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