Por Vinicius Francisco
Os mercados que vendem tanto no atacado quanto no varejo terminaram a semana de 19 a 25 de outubro com faturamento 7,8% maior que no mesmo período de 2025. A quantidade de produtos vendidos também cresceu 2,4%, segundo levantamento da NielsenIQ (NIQ). Esse tipo de comércio, conhecido como atacarejo, inclui redes como Assaí e Atacadão.
A pesquisa analisou dados de 16.353 estabelecimentos de diferentes segmentos do comércio. Entre os atacarejos, 84,3% apresentaram melhora no desempenho das vendas nas três semanas seguintes à proibição das bets. Isso não significa que todos passaram a vender mais. Parte das lojas continuou faturando menos que no ano anterior, mas conseguiu reduzir as perdas. O crescimento efetivo foi registrado em 71,4% dos estabelecimentos.
Nas duas semanas anteriores ao bloqueio das plataformas, o faturamento do setor havia recuado 3,5% em comparação com o mesmo período de 2025. Nas três semanas seguintes, o resultado passou a ser positivo, com alta acumulada de 5,6%. A mudança ocorreu depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em 25 de setembro, a Medida Provisória 1.394/2026, que proibiu as apostas esportivas e os jogos online no Brasil. Os sites e aplicativos autorizados começaram a sair do ar em 6 de outubro.
Os supermercados também registraram crescimento. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o valor das vendas de alimentos aumentou 6,5% entre 5 e 11 de outubro e 6,3% na semana seguinte, sempre em relação aos mesmos períodos do ano passado. A entidade identificou aumento nas compras de produtos básicos, como arroz, óleo, macarrão e café.
Além da quantidade de mercadorias vendidas, a NielsenIQ observou mudanças nos produtos escolhidos pelos consumidores. Em uma análise que inclui semanas anteriores à proibição, marcas e versões de preço mais alto ganharam participação nas vendas, especialmente nas categorias de refrigerantes e cervejas. O indicador que mede essa mudança cresceu 2,61%, enquanto o preço de uma cesta fixa de produtos aumentou 0,65% no período.
A Abras acredita que parte da recuperação do comércio pode estar relacionada à proibição das bets. A associação também citou dados do Banco Central que apontaram queda de 10% no número total de transações via Pix nos três dias seguintes à publicação da medida. Segundo a entidade, o volume de operações continuava cerca de 7% abaixo do patamar anterior nas semanas seguintes. Esses números, porém, consideram todas as transferências feitas pelo sistema, não apenas pagamentos destinados às apostas.
A pesquisa da NielsenIQ também não estabelece uma relação direta entre o fechamento das plataformas e o crescimento do comércio. Para confirmar essa hipótese, seria necessário saber quanto do dinheiro antes gasto com apostas passou a ser usado pelas famílias em alimentos e outras despesas.
Antes mesmo da proibição, as apostas já comprometiam parte do orçamento doméstico. Em março, a NielsenIQ divulgou um estudo mostrando que 26,3% dos lares brasileiros participaram de alguma modalidade de aposta em 2025, incluindo loterias e jogos online. Entre as famílias com apostadores, 10% relataram reduzir outros gastos para conseguir apostar. Nesse grupo, 47% cortaram despesas com alimentos e 45,3% disseram que as apostas afetavam o dinheiro disponível para pagar contas como água, luz e internet.
O mercado de apostas online também alcançou cifras bilionárias. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 25,2 milhões de brasileiros apostaram em plataformas autorizadas em 2025. As empresas registraram aproximadamente R$ 37 bilhões em receita bruta, valor que permaneceu com as operadoras depois do pagamento dos prêmios aos apostadores.
O economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), calculou quanto os gastos com apostas podem ter afetado a economia brasileira. Em estudo divulgado pela BBC News Brasil, estimou uma redução de R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões na atividade econômica em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
O cálculo considera o consumo que poderia ter ocorrido se parte dos recursos destinados às apostas tivesse permanecido no orçamento das famílias. Como o dinheiro gasto no comércio também movimenta fornecedores, serviços e empregos, o impacto estimado sobre a economia é maior que o valor perdido diretamente pelos apostadores.
Na saúde pública, os prejuízos associados aos jogos de azar também são expressivos. Um levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estimou em R$38,8 bilhões anuais os custos sociais relacionados aos jogos. Desse total, R$ 30,6 bilhões correspondem a danos à saúde, incluindo tratamentos médicos e perdas associadas à depressão e ao suicídio. Os valores consideram custos diretos e indiretos para a sociedade, não apenas despesas do Sistema Único de Saúde (SUS).
A procura por atendimento devido a problemas com jogos cresceu cerca de 140% entre 2018 e 2025, segundo o Ministério da Saúde. O governo argumenta que as regras anteriores não foram suficientes para impedir o endividamento das famílias e os problemas de saúde relacionados às apostas.
A proibição agora é questionada no Supremo Tribunal Federal (STF). Na terça-feira (3), o ministro Luiz Fux conduziu uma audiência pública com representantes do governo, empresas de apostas, clubes de futebol e entidades do comércio.
As empresas e parte do setor esportivo pedem a suspensão da medida, alegando prejuízos financeiros e insegurança jurídica. O governo defende sua manutenção, sustentando que os danos à renda e à saúde da população justificam a proibição.
O STF ainda não decidiu sobre os pedidos. Até lá, as apostas online continuam proibidas no Brasil.
Fonte: Mídia Ninja.
