Por Paula Cunha – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Talvez não exista o coletivo, só atitudes individuais. Comecei a pensar nisso logo depois do jogo do Brasil contra o Haiti. No dia seguinte, fui ao sacolão e, assim que entrei, li em uma ecobag enquanto um homem esvaziava seu carrinho: “A revolução começa com uma pessoa”. Isso fez um “click” na minha cabeça. Comecei a pensar que um só jogador, com um bom desempenho em campo, poderia mudar a atitude de todo o time. A partir dali, passei a questionar: será que a revolução começa mesmo com uma pessoa?
O coletivo pode partir de uma ação individual que os outros decidem seguir, mas existem diferentes formas de liderança no futebol, e nem todas produzem o mesmo efeito. Em um esporte coletivo, jogadores extraordinários influenciam o desempenho do grupo de maneiras distintas. Alguns melhoram o sistema ao redor deles; outros concentram tanto a responsabilidade em si que o resto do time se torna dependente.
Na Copa do Mundo de 2022, Lionel Messi participou diretamente de gols, mas também liderou a equipe da Argentina em passes progressivos e na criação de jogadas. Ele funcionava como um “centro gravitacional”: atraía a marcação e abria espaço para Álvarez, Di María, Mac Allister e outros. O camisa 10 não carregou a seleção sozinho; ele fez o time jogar melhor e foi uma parcela do coletivo, contribuindo ativamente para a conquista da taça naquela edição.
Em 2026, em apenas duas partidas na fase de grupos, Messi voltou a brilhar e marcou 5 gols, que o consagraram como o maior artilheiro da história das Copas, com 18 gols. Até agora, ele foi o único a balançar as redes pela Argentina.
Um dos líderes mundiais em gols e participações ofensivas pela França, Kylian Mbappé é um craque com outro tipo de impacto. A seleção francesa consegue manter sua estrutura até mesmo quando ele não toca na bola. No jogo entre França e Marrocos, na Copa de 2022, o astro não marcou, mas atraiu dois marcadores em uma jogada que terminou com o gol de Theo Hernandez. Depois, participou da jogada do gol de Randal Kolo Muani.
Na atual edição, a França é uma das favoritas e Mbappé já fez 4 gols em dois jogos, além de ter dado 11 chutes a gol. Ousmane Dembélé, seu companheiro de equipe, também marcou contra o Iraque, em uma jogada construída pelo lateral Achraf Hakimi. Apesar do destaque individual, o time funciona como um sistema e continua operando mesmo quando seu principal jogador não é o finalizador.
De acordo com dados do Olympics.com, Mbappé consegue alcançar até 38 km/h e “suas arrancadas devastadoras o consolidam como um dos jogadores mais velozes do esporte, permitindo que ele ultrapasse a maioria dos defensores com facilidade em lances de contra-ataque e infiltrações.” O francês é capaz de sair do estado de repouso e atingir sua velocidade máxima em poucos metros, deixando zagueiros e laterais para trás em contra-ataques e mudanças de direção. Ainda assim, o craque não substitui o coletivo; ele acelera algo que já existe.
Cristiano Ronaldo, por outro lado, encara uma realidade diferente em Portugal. No caso do ídolo mundial e primeiro jogador a marcar em seis Copas, o talento individual destoa do coletivo. Ser um craque desse nível pode gerar dependência quando o time começa a jogar para ele, e não com ele. Nos últimos anos, o personagem principal virou o único plano da equipe.
Quando um só jogador concentra todas as responsabilidades, o restante do time deixa de assumir riscos e passa a procurar o craque o tempo inteiro. Cristiano “carrega” o elenco e concentra as expectativas ofensivas, mas não sustenta sozinho o trabalho coletivo — como ficou evidente no empate em 1 a 1 contra a RD Congo, nesta Copa do Mundo, onde ele não balançou as redes e Portugal demonstrou dificuldade nas finalizações. Afinal, Cristiano Ronaldo é só o destino final da jogada?
No jogo seguinte, durante a goleada por 5 a 0 sobre o Uzbequistão, o astro reapareceu: abriu o placar aos 6 minutos e marcou o seu segundo aos 39. Neste caso, diferentemente de outras ocasiões, o time foi atrás da vitória mesmo sem a interferência do capitão nos outros três gols. Ele não deu os passes, mas estava lá, tentando finalizar.
A ideia de que “a revolução começa com uma pessoa” ajuda a entender esse fenômeno, mas não o encerra. Uma pessoa pode iniciar uma cadeia de reações, mas ela só continua se os outros aderirem ao movimento e se conectarem entre si.
De acordo com um levantamento do FBref, Messi produz mais ações que geram finalizações e gols para os companheiros do que Cristiano Ronaldo. Enquanto o argentino tem cerca de 7,16 ações criadoras de finalização por 90 minutos, Ronaldo tem 3,99. A diferença ajuda a ilustrar perfis distintos de participação ofensiva: criação de jogo versus finalização.
Outro exemplo é Curaçao, o menor país a participar de uma Copa do Mundo. Após um primeiro jogo desconectado, no qual perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, a equipe teve uma atuação defensiva marcante no segundo duelo. O goleiro Eloy Room, de 37 anos, fez 16 defesas contra o Equador, um recorde histórico, fechando o gol. Sua atuação mudou o estado emocional do time, que ganhou confiança graças às defesas sensacionais do arqueiro.
O efeito das ações individuais em relação ao coletivo pode surgir da inspiração e também da ação. Em um dia pode dar certo e, no outro, não.
Na Seleção Brasileira, faltam estrelas ou faltam conexões?
Vini Jr. começou a Copa do Mundo de 2026 como o grande protagonista do Brasil, tendo participação direta em todos os jogos disputados até agora. No empate com o Marrocos, o camisa 7 marcou o gol. Na vitória contra o Haiti, balançou as redes novamente e deu duas assistências que resultaram nos gols de Matheus Cunha.
A Seleção Brasileira nunca foi derrotada em partidas nas quais Vini Jr. balançou as redes, o que reforça a afirmação que li em uma matéria do UOL: “O Brasil é Vini Jr. e mais dez.” Ou seja, a equipe ainda oscila entre depender de um indivíduo e construir um sistema baseado em conexões entre os jogadores.
As ações coletivas mudam dependendo do contexto do jogo e das emoções envolvidas, e não são apenas os grandes astros que podem iniciar um movimento. No futebol, o coletivo raramente nasce da espontaneidade. Quase sempre, ele começa quando alguém dá o primeiro passo e convence os outros a caminhar na mesma direção.
