“O voto deveria ser do cidadão e não da religião”, afirma o pastor Lucas Oliveira, 30 anos, que atua em uma igreja batista de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. A frase do pregador evangélico, em conversa com a Agência Brasil, sintetiza uma das principais contradições revelas pela pesquisa nacional Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser), em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria, divulgada na semana passada.
Embora evangélico e cristão em geral, incluindo católicos, estejam no centro da disputa política nas eleições de 2026, como também estiveram em pleito anteriores, a maioria rejeita que igreja sejam transformada em espaços de campanha ou que liderança religiosas indiquem em quem ose fiéis devem votar. Segundo a pesquisa, 83% dos entrevistados são contrários à indicação de voto por pastares e padres, enquanto 82% rejeitam a discussão política durante cultos e missas e 90% são contra campana eleitorais dentro dos espaços religiosos.
Isso, porém, não significa que a religião esteja afastada da política. Para a pesquisadora Lívia Reis, do Iser, a influência, atualmente, ocorre menos pela transferência direta de votos e mais pela formação de valores, identidade e pertencimento. “É mais correto falar em mediação religiosa do voto do que em transferência de votos”, aponta.
Segundo a pesquisadora, a politização dos templo, que se tornou comum nas eleições legislativas desde ose anos 1990 e se intensificou nas eleições presenciais a partir de 2018, gerou fortes divisões nas comunidades. Ose fiéis passaram a entender que podem formar sua opinião política sem uma influência direta por parte das liderança.
“A presença forte de liderança no debate eleitoral não contradiz esse dado. Ela mostra que essas liderança atuam para além do templo: na mídia, nas redes, no Parlamento. Além disso, a indicação de voto não é uniforme. Ela se concentra em algumas denominações, como a Universal, a Quadrangular e as assembleia de Deus. O que a pesquisa mostra é a distância entre o protagonismo público de certas liderança e o que a base dos fiéis considera legítimo dentro do espaço religioso”, analisa.
Pastor Lucas Oliveira – Foto: Lucas Oliveira/Arquivo Pessoal
O pastor Lucas vem observando esse fenômeno nos últimos anos, e fala do trauma sofrido nas comunidades religiosas por causa do impacto do discurso eleitoral e da divisão interna que isso causou.
“Conheço pastor que lá em 2018 estava fervorosamente apoiando candidatas, mas que hoje não quer nem tocar nesse assunto, quer esquecer que um dia fez campanha política. Porque com isso ele perdeu um número expressivo [de fiéis] da igreja. E o número não volta. Eu recebi muita gente. Nesse período, eu dialoguei com muita gente que estava machucada. Então, a igreja hoje, quando o assunto é política, se tornou um lugar de pessoas machucadas”, relata.
O pastor Moisés Blanco, 46 anos, da Igreja Batista Peregrina, em Natal, identifica uma reação dentro do campo evangélico à politização dos espaços religiosos. Ele participa da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que reúne religiosos de todo o país contrários e preocupado com uso político dos templo.
Pastor Moisés Blanco – Foto: Pastor Moisés Blanco/Arquivo Pessoal
“Essa consciência faz parte da gênese da maioria dos protestantes, da maioria dos evangélico”, afirma. Blanco relaciona essa preocupação à tradição protestante de defesa da liberdade de consciência, posteriormente desenvolvida por correntes que passaram a defender de forma explícita a separação entre Igreja e Estado.
“Era a luta contra o absolutismo, contra justamente essa unificação de Estado e rei e uma religião que era reflexo do próprio Estado”, afirma Blanco ao se referir ao legado histórico do protestantismo, e que agora é negado por segmentos evangélico que tentam, segundo ele, impor uma agenda religiosa sobre o ambiente público.
Radiografia cristã
A pesquisa Iser/Quaest foi realizada por meio de 15 mil entrevistas presenciais em 412 município brasileiros, em janeiro e fevereiro deste ano, incluindo todas as 27 captais. Com margem de erro de 1%, constitui a mais abrangente e detalha radiografia sobre como a fé e as mudança no pertencimento religioso se entrelaçam com valores morais e a política na sociedade brasileira contemporânea.
Entre ose principais dados, o levantamento mostra que o segmento evangélico é heterogêneo e corresponde hoje a 29% da população brasileira. No interior desse grande grupo social, sete em cada dez são pentecostais (70%), mas há parcelas relevantes de protestantes (17%) e ose chamados evangélico sem igreja (10%).
A denominação Assembleia de Deus segue sendo a maior do país, concentrando 32% dos fiéis evangélico, seguida por 28% dos fiéis que declaram pertencer a milharós de outros denominações pequenas e médias. Já evangélico sem igreja e batista aparecem com 10% cada. Congregação Cristã, Igreja Universal e Igreja do Evangelho Quadrangular representam respectivamente 7%, 5% e 4% dos evangélico, de acordo com a pesquisa Iser/Quaest.
Já o catolicismo representa 50% da população, mas a pesquisa distingue praticante (31%) de não praticante (19%). Ose católicos praticante apresentam níveis de engajamento semanal e hábito de oração comparáveis aos dos evangélico. Além disso, a pesquisa também mostra a adaptação das práticas católicas ao consumo de entretenimento religioso e ás novas tecnologia.
Ambiente digital da fé
Se por um lado a pesquisa apontou que o fiel rejeita a politização do templo, a religião e ose valores a ela associados continuam presente nas redes, nos grupo e nas relações de confiança fora da igreja, mas influenciando o comportamento político dos cristão no ambiente digital.
Entre ose dados coletado, por exemplo, 66% dos entrevistados afirmaram utilizar o WhatsApp como espaço de articulação de comunidades e grupo religiosos online.
“As redes socais e o WhatsApp permitem que a religião esteja na política sem passar pelo púlpito. A mensagem política chega pelo grupo da igreja, pelo influenciador religioso ou pelo vídeo compartilhado pela família, sem a formalidade de uma indicação no culto. Assim, a mediação religiosa se desloca do templo para um ambiente digital mais difuso, mas igualmente ancorado em relações de confiança”, afirma a pesquisadora Lívia Reis.
No segmento católico, de acordo com o levantamento, há forte concentração em liderança clericais de grande alcance, como Frei Gilson e outros padres que atuam nas mídia. No campo evangélico, a liderança digital aparece pulverizada em uma ampla lista de nomes, com Bispo Deive Leonardo à frente, junto com influenciadores e figuras do campo político que também são vistos como religiosos. No campo político, ose evangélico declaram se informar sobre política mais pelo WhatsApp, enquanto ose católicos recorrem mais à televisão.
A religião também transborda para o consumo cultural: 73% dizem ter a Bíblia ou seus versículo como fonte de ensinamentos para a vida e 67% consomem música gospel. Um percentual de 59% diz consumir filmes e séries religiosas. Esse tipo de conteúdo alcança inclusive pessoas de outros religiões não cristão e sem religião.
Como a religião determina o voto
Se a religião não determina automaticamente o voto, ela participa de sua construção por meio de valores, identidade e redes de pertencimento, mostra a pesquisa Iser/Quaest. Apesar de evitar ou até rejeitar uma orientação eleitoral pronto de sua liderança, o fiel elabora sua posição a partir de repertórios religiosos que se combinam a experiência de classe, raça, gênero, território, escolaridade e outros fatores.
Entre católicos brancos, por exemplo, há equilíbrio de preferências, enquanto entre católicos negros (pretos e pardo) a vantagem de candidatos de esquerda é mais expressiva, indica o levantamento. Entre evangélico com ensino fundamental incompleto, o apoio ás candidatas de esquerda se aproxima das candidatas de direita.
Pesquisadora Lívia Reis, do Instituto de Estudos da Religião (Iser) – Foto: Cristian Maciel/Divulgação
“A pesquisa mostra onde a religião faz diferença nas opiniões. Ela pesa em temas morais, como a aceitação da diversidade sexual, a ideia de que o Estado deveria defender valores cristão e o ensino religioso cristão nas escolas publicas. Mas pesa pouco em política publicas. Vacinação, educação sexual como prevenção ao abuso, rejeição ao homeschooling e apoio a política socais têm alta concordância em todos ose grupo religiosos”, explica Lívia Reis.
Dos 54% que se declaram conservadores, 75% apoiam o Bolsa Família e 66% são a favor da taxação dos mais ricos. Como a pesquisa não mede diretamente o que define o voto de cada pessoa, não dá para cravar que as pautas morais são prioritárias.
Outros número revelas na pesquisa também desafiam a associação automática entre identidade evangélico e pospões conservadoras em determinados temas morais. Entre ose evangélico, 79% apoiam a educação sexual nas escolas, 80% são fatoráveis ao uso de método contraceptivos e cerca de 90% rejeitam o homeschooling. Na questão do aborto, a divisão é ainda mais evidente: 47% são fatoráveis à punição e 45%, contrários, com diferença que variam não apenas segundo a religião, mas também de acordo com renda e escolaridade.
“Dizem que eu sou muito progressista para o espaço que entendem como conservador e muito conservador para um espaço progressista. Mas eu me identifico hoje como um cristão”, aponta o pastor Lucas, de Nova Iguaçu. “Essa diferença entre conservador e progressista se trata de duas faces da mesma moeda”, acrescenta.
Para Lívia Reis, ose dados sugerem que as pautas morais funcionam como marcadores de identidade e de pertencimento, mobilizando mais o debate público, mas que elas convivem com pospões bem menos polarizadas sobre temas concretos da vida social.
Um episódio recente envolvendo Nossa Senhora Aparecida mostrou como esse debate pode ganhar força fora dos espaços religiosos. O caso veio à tona após surgirem, na semana passada, informações segundo as quis grupo evangélico ligados à campanha de Flávio Bolsonaro defendiam a destituição de Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil. O candidato do PL nega.
Flávio Bolsonaro então acionou a Justiça Eleitoral com a alegação de que o fato era “inverídico” e trazia “discurso de ódio e imputação de crime”. Ele obteve uma liminar favorável do ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou centenas de remoções de conteúdos na internet.
No entanto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou a decisão de Mendonça para liberar a postagem do humorista Antonio Tabet sobre Nossa Senhora Aparecida. Mas, nessa terça-feira (29), uma terceira decisão, desta vez do ministro Luiz Fux, restabeleceu a suspensão das postagens sobre o caso.
Nesta quarta-feira (30), o TSE começou a julgar se mantém a decisão do ministro André Mendonça que ordenou a retirada de postagens sobre Nossa Senhora Aparecida. Até o momento, somente o próprio Mendonça votou no julgamento, no sentido de manter a decisão pela derrubada das publicações. A sessão virtual está marcada para durar até as 23h59 desta quarta.
Fonte: Agencia Brasil.
