Entre o pop contemporâneo e as raízes do Nordeste, Lau Capym transforma afeto, memória e identidade em potência musical

Portal Inhaí
11 Min Read


Por Noé Pires

A artista paraibana Lau Capym (@laucapym) ocupa um lugar cada vez mais singular dentro da nova música produzida no Nordeste brasileiro. Cantora, compositora e performer, a artista constrói uma obra que nasce da intimidade, mas encontra ressonância coletiva ao transformar sentimentos, memórias e experiências pessoais em canções marcadas por força narrativa, intensidade emocional e um profundo senso de identidade.

Sua trajetória vem sendo desenhada por uma busca constante por autenticidade. Dona de uma interpretação potente e de uma escrita autoral consistente, Lau transita por temas como amor, desejo, saudade, espiritualidade e pertencimento, criando um repertório que se destaca pela capacidade de revelar camadas sensíveis da experiência humana sem abrir mão da sofisticação estética. Em suas composições, vulnerabilidade e coragem caminham lado a lado, revelando uma artista que compreende a música como território de encontro, expressão e transformação.

Esse amadurecimento artístico ganhou novos contornos com o lançamento do EP Más Línguas, em 2025. O trabalho consolidou uma identidade musical que dialoga com o pop contemporâneo, a música brasileira e elementos eletrônicos, ao mesmo tempo em que amplia a dimensão performática de sua criação. Mais do que um conjunto de canções, o projeto se apresenta como um universo simbólico próprio, onde referências do cinema, do tarot e das culturas populares se entrelaçam para investigar as múltiplas formas de amar, desejar e se relacionar.

O resultado é uma obra que traduz inquietações contemporâneas sem perder de vista a profundidade das emoções que atravessam o cotidiano.

Recentemente, Lau deu continuidade a esse percurso com o lançamento do single Baby, Volte Pra Casa, produzido e coassinado por Pedro Regada.

A faixa mergulha no imaginário afetivo nordestino e transforma a memória em matéria-prima criativa. Entre estradas, reencontros, festas populares, cidades do interior e amores que permanecem vivos mesmo após a distância, a canção evoca uma atmosfera de nostalgia que dialoga diretamente com as paisagens emocionais de quem cresceu cercado pelos sons, cores e afetos da região.

Com influências do forró e da música popular brasileira, a obra reafirma a capacidade da artista de traduzir sentimentos universais por meio de referências profundamente enraizadas em sua cultura.

A produção de Lau Capym também se fortalece pela dimensão política e representativa de sua existência artística. Como mulher nordestina, artista LGBTQIAPN+ e integrante de uma tradição religiosa de matriz afro-brasileira, ela incorpora sua vivência ao processo criativo, ampliando espaços de visibilidade e contribuindo para uma cena musical mais diversa, plural e conectada às transformações sociais do presente. Sua arte não se limita à representação, mas propõe novas formas de imaginar afetos, identidades e futuros possíveis.

Em um momento de expansão e consolidação de carreira, Lau Capym surge como uma das vozes mais interessantes da produção independente nordestina contemporânea. Com uma estética própria, um repertório em constante crescimento e uma relação profunda com as referências culturais que atravessam sua trajetória, a artista amplia sua circulação por palcos, festivais e circuitos culturais do país.

Seu trabalho convida o público a habitar um espaço onde memória, afeto, diversidade e experimentação coexistem, reafirmando a potência criativa do Nordeste e sua contribuição indispensável para os rumos da música brasileira atual.

A S.O.M. (Sistema Operacional da Música), canal de música da Mídia NINJA, conversou com a artista paraibana Lau Capym.

O momento mais importante pra mim é quando eu encontro a música. Parece que uma matemática fecha. Não forço nada; fico permeável ao que está acontecendo ao meu redor e, em algum momento, aquilo que estava solto vira coisa. É um processo bem solitário. Passo dias ruminando a mesma ideia até me sentir segura de dividir com alguém.

E quando a canção fica pronta, às vezes me surpreendo com o lugar a que ela foi. Um lugar que eu não sabia que ia alcançar. Gosto de letras com muitas palavras. Letras que dão trabalho pra memorizar e, mesmo assim, não saem da cabeça.

Pra mim, é isso que uma canção pode ser: algo que exige e, ainda assim, gruda. Sei que trabalho numa época saturada, em que se conectar de verdade com o ouvinte está cada vez mais árido. Mas não estou correndo atrás de números. Estou insistindo na coisa mais difícil: fazer alguém lembrar de mim.

S.O.M.: Em Más Línguas, você mergulha nas complexidades do desejo, do amor e das relações afetivas. O que esse trabalho revela sobre a artista que você é hoje e quais transformações ele representa em sua trajetória criativa?

Más Línguas é uma profecia de mim mesma. São canções de épocas diferentes da minha vida, com uma linguagem muito particular, sem fórmula. Me coloco como uma mulher poderosa, cheia de referências pop, que quase nunca viu isso acontecer aqui.

Quis que as pessoas do meu território se enxergassem naquilo. E que quem é de fora visse que aqui o pop tem sotaque, o rap tem sotaque, e o forró carrega uma sofrência que não deve nada ao R&B. Mergulhei em coreografias, em cada detalhe da comunicação.

Fui além das faixas: criei um tarô personalizado que levo pra todo evento. Faço tiragens, as pessoas recebem uma mensagem, e no baralho tem link pras plataformas e QR Code pro YouTube. Foi a forma que encontrei de chegar perto, num tempo em que o contato real está cada vez mais raro, e de deixar uma marca que carrega o mesmo espírito do álbum.

Ter conquistado o edital, ter o BBS do meu lado, ter feats com Vó Mera, Clara Potiguara, Bixarte, Filosofino, A Fúria Negra, Pedro Regada e Big Jesi… tudo aquilo acendeu algo enorme em mim. Foi um atestado de que vale a pena.”

“O Nordeste não é um tema que eu escolho. É uma experiência que já está no corpo. Essa é a diferença. Pedro Regada me chamou; ele já tava escrevendo e produzindo o beat. Eu cheguei querendo fazer uma sofrência.

Construí a segunda parte da letra, toda a parte vocal, os backings, as camadas de dentro. No dia em que ouvi e gravei a primeira versão, meu gato sumiu e nunca mais voltou.

Cito isso não como uma história romântica, mas como exemplo do meu jeito de criar. Algo muito pessoal entrou ali e moldou tudo: como eu cantei, o que coloquei de emoção. É assim que a região aparece também. Ela não entra porque eu decido colocar. Ela já estava lá antes de eu começar.

Meu primeiro single foi um xote, lançado em 2021. O forró sempre esteve na origem. Baby, Volte Pra Casa abriu uma porta: agora tem projeto, tem conceito, tem um EP sendo construído com produtores e artistas do forró da nova geração.”

S.O.M.: Como mulher nordestina, artista LGBTQIAPN+ e de terreiro, você carrega diferentes dimensões identitárias que atravessam sua arte. Qual a importância de ocupar espaços na música brasileira contemporânea a partir dessas vivências e perspectivas?

“Cultura popular não é só terreiro. É trabalho, é renda, é cena. Fui vocalista das Calungas e do Coco de Oxum, grupos femininos que me colocaram ainda mais na música e complementam o que a Jurema já me dava.”

“Faço parte do Maracatu Nação Pé de Elefante e sou diretora musical de um projeto de registro e lançamento de pontos da Jurema, religião de berço paraibano com muita história e muito pouco reconhecimento oficial. É daí que venho. A cultura popular me ensinou a absorver as diferenças das pessoas sem preconceito.

É nessa escola que ser sapatão nunca foi problema, nunca foi exceção. Me sinto muito orgulhosa de ser uma personalidade importante na cultura popular da Paraíba. Ser sapatão é central pra mim. Não é detalhe periférico, não é complemento.

Meu trabalho não existe sem o público LGBT, sem as travestis, sem as pessoas que reconhecem na minha voz algo que também é delas. Não carrego nada como bandeira. Sou isso ao mesmo tempo; é a mesma coisa.

Ocupar espaço na música brasileira, pra mim, não é só resistência. É alegria. A alegria de existir do jeito que existo, cantar o que canto, pertencer a culturas vivas que me formaram. João Pessoa tem uma mídia conservadora, lideranças que muitas vezes nem sabem quem são os artistas independentes da própria cidade, e pouco amparo pra quem faz música autoral sem sair do estado. Ser mulher agrava tudo. O que me coloca de pé é maior do que o que falta. Sempre foi.”

“Um show que é uma arquitetura: covers que chegam de um lugar inesperado, interludes com cinema, percussão que vira performance. Algo que não cabe no streaming, que só faz sentido estando presente. Quero que saiam procurando Bixarte, Totonho, a cena que me formou. E que jamais consigam me encaixar em um gênero só.”





Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *