Por Hyader Epaminondas
Existem dores que começam muito antes de uma despedida, escondidas nas conversas que nunca aconteceram, nas perguntas que deixamos de fazer e na distância que cresce entre duas pessoas, mesmo quando elas dividem o mesmo espaço. Em “Vicentina Pede Desculpas”, Gabriel Martins, de “Marte Um”, parte dessa premissa para construir um retrato profundamente denso sobre as desconexões geracionais e a dificuldade de reconhecer a intimidade que perdemos enquanto ainda havia tempo para cultivá-la.
Depois da morte do filho em um acidente, Vicentina passa a pedir desculpas em nome dele, tentando encontrar alguma forma de reparação diante daqueles que foram atingidos pela tragédia. Entretanto, por trás desse gesto existe uma necessidade muito mais íntima: a de conseguir se perdoar por não ter percebido o quanto estava distante do próprio filho, por não ter conseguido atravessar as barreiras que os separavam e por descobrir, tarde demais, que havia uma parte de sua vida que ela nunca chegou a conhecer.
Os encontros na trajetória dessa romaria mineira também desenham um percurso simbólico pelas diferentes camadas do luto. Cada pessoa ligada às vítimas do acidente que cruza seu caminho devolve à protagonista alguma dimensão da tragédia, confrontando-a com sentimentos que ela ainda não consegue elaborar. É como uma espécie de movimento inconsciente de sublimação ao longo dessa jornada, como se, ao escutar a dor dos outros e se responsabilizar por perdas que não são inteiramente suas, Vicentina começasse a encontrar formas de entrar em contato com o próprio sofrimento.
Ela não reconhece necessariamente o sentido dessas experiências enquanto as atravessa, mas cada encontro parece deslocar alguma coisa dentro dela, abrindo pequenas fissuras na culpa que a corrói e permitindo que a ausência deixe de ser apenas um espaço de punição. O luto se constrói como um processo silencioso de transformação, no qual a tentativa de reparar a dor alheia se torna também uma maneira de se aproximar da própria causa.
As distâncias que permanecem depois da perda
Existe uma crueldade em perceber a distância que nos separava de alguém quando já não podemos fazer nada para diminuí-la, e Gabriel faz questão de deixar isso explícito nos espaços negativos dos enquadramentos. As lembranças deixam de ser apenas vestígios de uma vida compartilhada e passam a carregar o peso das oportunidades desperdiçadas, das conversas adiadas e dos sentimentos que nunca encontraram espaço para existir abertamente. Vicentina sofre pela perda, mas também pelo tempo que deixou escapar sem conseguir se aproximar verdadeiramente do filho, uma dor que nasce da consciência de que o passado não oferece novas oportunidades.
O diretor demonstra sensibilidade ao investigar as fissuras nas paredes que atravessam as relações familiares, especialmente quando as diferenças geracionais dificultam a compreensão entre pessoas que, apesar dos vínculos afetivos, parecem habitar universos distintos. O amor de uma mãe pelo filho não garante que ela consiga compreender seus conflitos, reconhecer suas angústias ou perceber as mudanças que acontecem longe de seu olhar. Existe uma tendência a imaginar a família como um espaço de intimidade natural, como se a convivência fosse suficiente para eliminar as distâncias e tornar transparentes os sentimentos daqueles que amamos.
A experiência de Vicentina confronta essa idealização ao revelar que também é possível desconhecer alguém que esteve ao nosso lado durante anos. A intimidade exige disponibilidade, escuta e abertura, qualidades que nem sempre conseguimos cultivar com aqueles que acreditamos conhecer tão bem. Afinal, enquanto nos mantemos presos à engrenagem cíclica do capitalismo, ocupados em garantir o alimento à mesa e um teto sobre nossas cabeças, acabamos adiando justamente aquilo que dá sentido às relações: a possibilidade de enxergar o outro para além da convivência, reconhecer suas transformações e nos permitir conhecê-lo novamente.
É nesse terreno de contradições que Rejane Faria reafirma sua posição como uma das grandes atrizes da nossa geração. Sua Vicentina carrega o sofrimento de uma mulher que precisa continuar vivendo enquanto tenta compreender uma ausência que reorganiza toda a sua existência. A genialidade da atriz está na maneira como consegue fazer a dor ultrapassar aquilo que a personagem é capaz de expressar verbalmente, revelando uma interioridade atravessada pelo arrependimento, pela impotência e pela dificuldade de encontrar um lugar para si mesma depois da tragédia.
O diretor demonstra compreender a potência de sua intérprete e consegue explorar ao máximo suas capacidades expressivas, construindo uma projeção extremamente sensorial, na qual os silêncios, os gestos e as nuances de seu rosto adquirem uma dimensão tátil. O sofrimento de Vicentina se torna uma experiência que nos atravessa, como se a câmera encontrasse na presença de Rejane uma maneira de tornar visível aquilo que a personagem ainda não consegue compreender sobre si mesma, com uma humanidade que impede Vicentina de se transformar em uma figura reduzida à tristeza e permite que suas fragilidades revelem as ambiguidades de uma experiência profundamente verdadeira.
Seu gesto nasce da necessidade de encontrar respostas, mas também de uma tentativa de estabelecer contato com o filho por meio daqueles que foram atravessados por sua história, como forma de oferecer alguma ordem ao que se tornou incompreensível. Se antes existiam barreiras que dificultavam a aproximação entre os dois, agora resta à mãe uma relação indireta com alguém que já não pode responder às suas perguntas. O perdão se transforma em uma espécie de linguagem tardia, uma maneira de dizer aquilo que talvez não tenha conseguido dizer quando ainda havia a possibilidade de ser ouvida.
Essa dimensão torna a experiência de Vicentina comovente porque não existe garantia de que o sofrimento possa ser convertido em redenção. Pedir desculpas não desfaz o acontecimento, não recupera o tempo perdido e tampouco permite reconstruir a relação que a morte interrompeu. O gesto pode representar uma tentativa de reconciliação com o mundo, mas não elimina a necessidade de confrontar as próprias limitações.
Gabriel Martins transforma essa experiência em uma reflexão sobre a fragilidade dos vínculos humanos, enquanto Rejane Faria oferece uma interpretação que encontra na vulnerabilidade de sua personagem a expressão de uma dor que nenhuma explicação consegue encerrar. No fim, permanece a tristeza de perceber que, muitas vezes, só compreendemos a dimensão das distâncias que nos separam de quem amamos quando já não existe tempo para atravessá-las. A protagonista encontra em um mergulho de fé uma possibilidade de recomeço, um gesto simbólico de entrega à vida que transforma a dor em abertura para novas experiências e devolve ao futuro a esperança de que ainda há caminhos a serem vividos.
Fonte: Mídia Ninja.
