Por Hyader Epaminondas
Sempre fui fascinado pelo realismo mágico brasileiro e pela maneira como nossa cinematografia encontra no absurdo, no fantástico e nas contradições do cotidiano formas de interpretar a realidade. Interessa-me essa liberdade de transitar entre o concreto e o imaginário sem estabelecer fronteiras rígidas entre os dois, transformando particularidades da nossa experiência social em imagens que desafiam a lógica racional. Em um país onde a fé, as relações familiares e os códigos morais frequentemente se confundem com mecanismos de controle, o insólito pode surgir daquilo que aprendemos a reconhecer como normalidade.
É nessa fronteira que o cinema fantástico encontra uma de suas possibilidades mais instigantes: revelar o absurdo contido em estruturas sociais que parecem perfeitamente familiares. Crenças, superstições e heranças familiares atravessam nossa relação com o mundo, produzindo efeitos concretos sobre a maneira como vivemos e nos relacionamos. O horror, nesse contexto, não precisa surgir de um território distante da realidade. Ele pode habitar os discursos que organizam a vida em comunidade, sobretudo quando a defesa de determinados valores se transforma em justificativa para controlar a existência alheia.
Em “A Professora de Francês”, Ricardo Alves Jr. encontra no cinema de gênero uma linguagem para explorar as consequências dessa normalidade quando ela se converte em instrumento de perseguição. Ao retornar à casa da família para cuidar do pai doente, Graça, interpretada por Grace Passô, se vê cercada por uma comunidade religiosa que transforma a preocupação com o próximo em justificativa para invadir sua intimidade e contestar sua maneira de viver. A intolerância de gênero, o fanatismo religioso e a repressão da sexualidade atravessam uma narrativa em que a moralidade funciona como instrumento de vigilância, delimitando quais formas de existência podem ser aceitas e quais precisam ser corrigidas.
O espaço doméstico, tradicionalmente associado à proteção e à possibilidade de existir longe dos julgamentos exteriores, perde sua aparente segurança quando os valores da comunidade passam a determinar até mesmo aquilo que deveria pertencer à intimidade. Cuidar do pai doente reaproxima a protagonista de seus vínculos familiares, mas também a reinsere em uma estrutura de expectativas que procura definir seu lugar no mundo. A casa concentra, assim, uma contradição fundamental: o espaço que deveria acolher Graça também se torna um dos lugares em que sua liberdade é ameaçada. O pertencimento parece condicionado à disposição de aceitar regras que exigem dela a renúncia à própria autonomia.
Essa dinâmica revela uma das faces mais perversas do fanatismo: a capacidade de transformar o controle em demonstração de virtude. Quando a vigilância é apresentada como preocupação, a invasão de privacidade como proteção e a repressão como compromisso moral, a violência encontra uma linguagem capaz de ocultar seus próprios efeitos. A imposição deixa de ser percebida como uma escolha de quem exerce o poder e passa a adquirir a aparência de uma necessidade coletiva. Aqueles que vigiam podem acreditar que estão protegendo, enquanto aqueles que são vigiados precisam lidar com as consequências concretas de uma proteção que nunca solicitaram.
A disputa pela autonomia da protagonista também permite pensar o desejo para além de sua manifestação individual. Desejar implica reconhecer a possibilidade de construir uma existência que não esteja inteiramente subordinada às expectativas alheias. Quando uma comunidade reivindica para si a autoridade de determinar quais comportamentos são legítimos, ela procura estabelecer os limites dentro dos quais cada pessoa pode existir sem se tornar objeto de julgamento. A repressão não se restringe à proibição de determinadas condutas: ela também procura produzir culpa, disciplinar a intimidade e submeter a experiência individual a um ideal coletivo de normalidade.
É justamente aí que a ideia de uma prisão do desejo ganha força, quando a moral conservadora procura apresentar suas exigências como verdades universais, apagando o caráter histórico e social das normas que defende. A fé, quando instrumentalizada pelo fanatismo, deixa de funcionar como uma experiência de crença para se tornar uma instância de autorização sobre a vida alheia. O desejo que escapa a esse sistema passa a representar uma ameaça porque evidencia a existência de outras formas de viver, de se relacionar e de compreender a própria identidade. A violência nasce também dessa incapacidade de aceitar que a existência do outro não depende da aprovação de quem pretende julgá-lo.
É na maneira como Ricardo Alves Jr. conduz o mistério que o filme encontra outra de suas particularidades. O diretor evita organizar os acontecimentos em uma sequência de revelações capaz de submeter toda a experiência a uma lógica facilmente apreensível. As incertezas permanecem, e o estranhamento deixa de ser apenas um recurso narrativo para se tornar parte constitutiva da relação do público com a obra. O mistério não funciona como um problema à espera de solução, mas como uma força que desestabiliza nossa necessidade de compreender e categorizar tudo aquilo que nos cerca.
Foto: Denise dos Santos Foto: Vasco Viana
Gosto dessa recusa em domesticar o desconhecido por meio de explicações que restabeleçam uma sensação de segurança. Há uma potência particular em uma narrativa que permite ao desconforto permanecer sem transformá-lo em um enigma de resolução obrigatória. É uma experiência para ser sentida, não inteiramente racionalizada, na qual a ausência de respostas amplia a inquietação e nos obriga a permanecer diante daquilo que não conseguimos apreender completamente. Essa escolha também dialoga com o próprio conflito da obra: diante de personagens e estruturas que procuram impor uma interpretação única sobre a existência, o filme preserva um espaço para a ambiguidade e para aquilo que resiste à classificação.
Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, “A Professora de Francês” apresenta o pesadelo de Graça com força porque encontra suas justificativas em valores socialmente reconhecidos, expondo a fragilidade de uma normalidade que depende da exclusão de quem não se submete às suas regras. É nessa capacidade de fazer o familiar adquirir contornos insólitos que reconheço uma das potências do cinema fantástico: olhar para aquilo que aprendemos a considerar natural até que suas contradições se tornem impossíveis de ignorar.
E a prisão do desejo começa quando a liberdade de existir passa a depender da autorização daqueles que se consideram donos da normalidade.
Fonte: Mídia Ninja.
