Em Noites Negras, Pilar Quintana transforma a selva em metáfora das vulnerabilidades femininas

Portal Inhaí
14 Min Read


Para encerrar a programação do segundo dia da Feira do Livro de São Paulo, a escritora colombiana Pilar Quintana, um dos principais nomes da literatura contemporânea latino-americana, participou de uma conversa com o escritor e jornalista Joca Terron no auditório principal do evento, que recebeu grande público para discutir seu mais recente romance lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Noites Negras.

Em uma obra marcada por uma perspectiva profundamente feminista, Quintana revisita as vulnerabilidades e os desafios impostos aos corpos femininos. No romance, a autora acompanha a trajetória de Rosa, uma mulher que acredita ter encontrado, ao lado do companheiro Gene, um refúgio possível para escapar da vida opressiva da cidade: uma casa de madeira construída com as próprias mãos na fronteira entre a selva e o litoral do Pacífico colombiano. À medida que a noite avança, Rosa se vê cercada por memórias, medos e uma violência latente que não surge apenas da natureza ao seu redor, mas também das relações de poder inscritas no corpo, no desejo e na solidão feminina. O resultado é uma narrativa intensa e sufocante sobre medo, desejo, vulnerabilidade e sobrevivência.

Pilar Quintana contou que frequentemente é questionada sobre o quanto a trajetória de Rosa se aproxima de sua própria experiência de vida na floresta ao lado do companheiro. Embora reconheça que alguns elementos do romance tenham sido inspirados em vivências pessoais, como a sensação de isolamento, o contato cotidiano com a natureza e o processo de construir uma casa com as próprias mãos, a autora ressalta que Noites Negras está longe de ser uma autobiografia. Pelo contrário, segundo ela, Rosa foi uma das personagens mais difíceis de construir justamente pelas diferenças que existem entre as duas.

“Tive que pesquisar muito. Claro que, em 1980, período em que parte da história se passa, eu tinha oito anos. Vivi aquela época, mas a vivi como uma criança. Então precisei investigar as circunstâncias daqueles anos, a violência, como os adultos a experimentaram, como foram os anos 1960, como era frequentar a universidade naquele período”, compartilhou.

A autora também relembrou os quatro meses que passou sozinha em sua casa na floresta, experiência que ajudou a aprofundar sua compreensão sobre a solidão e que acabou influenciando a construção da protagonista. Para Quintana, a vida urbana cria uma sensação constante de conexão que muitas vezes impede que a solidão seja vivida em sua dimensão mais profunda.

“O morador da cidade tem alguém. Ele sabe que pode sair à rua, ir até a loja da esquina e dizer a um amigo: ‘Está chovendo’, e o outro confirmar essa realidade. Durante aqueles meses em que estive sozinha, eu tinha enxaquecas, sentia medo, mas não tinha com quem confrontar a realidade. E acredito que este romance começou justamente a se perguntar o que é a realidade e por que é tão importante para nós estarmos conectados aos outros”, refletiu.

Transformar a vivência solitária e rotineira de uma mulher em uma narrativa capaz de abordar questões sociais profundas e estruturas de poder foi um dos principais desafios enfrentados por Pilar Quintana durante a escrita de Noites Negras. A autora contou que, em diversos momentos, questionou a viabilidade da própria história.

“Nesses quatro dias, praticamente a mesma rotina se repete. Rosa acorda, varre a casa, não tem banheiro porque a casa ainda está em construção, lava os pratos, limpa, luta contra a selva, prepara comida, volta a limpar, lava mais pratos e vai dormir. Como transformar isso em uma novela capaz de prender o leitor?”, questionou-se.

A narrativa começou a ganhar novos contornos quando Quintana entrou em contato com os debates impulsionados pelo movimento Me Too. A partir dessas reflexões, passou a questionar comportamentos estruturalmente enraizados na construção social da feminilidade e das relações de poder que atravessam a vida das mulheres. Segundo a autora, esse processo foi fundamental para compreender a dimensão política da experiência de Rosa.

“Comecei a refletir sobre como as mulheres sempre viveram em ambientes hostis. E, lendo sobre a condição feminina, aprendi que o lugar mais perigoso para uma mulher não era o parque à meia-noite, como sempre nos disseram. O lugar mais perigoso para uma mulher é a sua própria casa”, afirmou.

A literatura gótica tradicionalmente se desenvolve em cenários marcados pelo isolamento, onde a solidão e a atmosfera do ambiente ajudam a construir as tensões da narrativa. Ao escolher um cenário semelhante, Pilar Quintana explicou que, embora reconheça elementos góticos em sua obra, prefere defini-la como um “gótico quente”. A expressão, criada pela própria autora, faz referência ao fato de a história ser ambientada na floresta tropical colombiana, distante das paisagens frias, dos castelos e da arquitetura europeia que costumam caracterizar o gênero.

Segundo ela, a construção desse ambiente passa por uma reinterpretação da própria floresta. Os sons, os ritmos e as sensações do espaço natural criam uma atmosfera particular, capaz de gerar tensão e estranhamento. Ao recordar uma visita da irmã durante o período em que viveu isolada na selva, a autora contou que essa percepção foi fundamental para a construção do romance.

“Na primeira noite estávamos sentadas conversando, e ela me disse: ‘Esse silêncio…’. E eu respondi: ‘Silêncio?’. Porque a selva faz muito barulho. Para mim, aquele som era brutal. Mas, para ela, era silêncio. Dois dias depois, eu já entendia o que ela queria dizer. Acho que essa foi a primeira chave para construir a selva. Os sons estão tão presentes que acabam formando uma espécie de trilha sonora permanente e, por vezes, desesperadora”, relatou.

A partir dessa experiência, a autora desenvolveu uma ambientação em que a floresta deixa de ser apenas cenário e passa a atuar como um elemento vivo da narrativa, influenciando as emoções, os medos e a percepção da realidade da protagonista.

Bebendo da tradição da literatura da selva latino-americana, marcada por narrativas em que personagens humanos são confrontados pelas forças da natureza, Pilar optou por deslocar o foco dessas histórias ao colocar uma mulher como protagonista de uma aventura em um espaço onde, historicamente, elas raramente ocupam o centro da narrativa.

“Nos romances de aventura tradicionais, o homem luta contra os elementos. Hemingway adorava esse tipo de narrativa. O que me interessava era justamente inverter essa lógica: minha personagem também vive uma aventura, mas é uma mulher”, compartilhou.

A partir dessa inversão, Quintana passou a refletir sobre o papel ocupado pelos grandes heróis da literatura, figuras que desbravam florestas, enfrentam perigos e retornam para casa como protagonistas de jornadas épicas. Para a escritora, essas narrativas frequentemente ignoram o trabalho invisível que sustenta esse retorno: quem deixa o lar acolhedor, quem o mantém limpo, prepara a comida e cuida do cotidiano. Essas atividades, historicamente atribuídas às mulheres, acabam naturalizadas e apagadas da narrativa heroica, como se simplesmente acontecessem.

Em sua obra, a autora desloca o olhar para esse espaço de cuidado, revelando as tensões, violências e sobrecargas que atravessam a experiência feminina e que, por muito tempo, permaneceram à margem das grandes histórias. Ela decide explorar todos os aspectos da vida, dentro e fora da casa:

“Aqui temos uma mulher vivendo uma aventura na selva. Ela pode estar usando botas, empunhando um facão e enfrentando perigos, mas também precisa varrer, cozinhar, lavar roupa e realizar todas as tarefas que tradicionalmente foram atribuídas às mulheres. Acho que essa era uma diferença importante”, afirmou.

A construção da casa ocupa um papel central na narrativa de Rosa e funciona como um dos principais elementos simbólicos de Noites Negras. Ao criar esse ambiente, Quintana procurou romper com a visão romantizada da natureza frequentemente presente na literatura. Para a autora, a floresta não representa um espaço acolhedor ou moralmente orientado, mas uma força indiferente à condição humana.

“A selva desafia a visão romântica que temos da natureza e nos confronta com algo mais animal, mais primitivo dentro de nós. A natureza não é boa nem má. Ela simplesmente é. A natureza não é como nós”, explicou.

Nesse cenário ambíguo, a casa em construção torna-se um espaço de extrema vulnerabilidade. Sem portas ou janelas, o local deixa Rosa exposta não apenas às intempéries da floresta, mas também ao medo constante da violência.

“Rosa está sozinha em uma casa que ainda não possui portas nem janelas. À noite, ela precisa estender plásticos para se proteger da chuva, do vento e até de possíveis ameaças humanas. Não existe segurança”, relembrou.

Para Quintana, essa sensação permanente de insegurança dialoga diretamente com a experiência feminina na sociedade contemporânea, permitindo que a narrativa, embora ambientada em décadas passadas, atravesse questões ainda muito atuais. Em sua fala, a autora destacou que a imagem da casa aberta e vulnerável surgiu como uma metáfora da condição de muitas mulheres:

“Uma casa sem portas nem janelas se parece muito com a experiência de muitas mulheres. Os espaços masculinos costumam ser respeitados; os homens podem impor limites. Já as mulheres frequentemente convivem com a sensação de invasão permanente, como se qualquer um pudesse entrar sem pedir permissão”, refletiu.

A autora construiu a obra a partir das inseguranças vividas cotidianamente pelas mulheres, em um contexto em que feminicídios e violências sexuais não pertencem apenas à ficção. Embora ambientada em uma região isolada da Colômbia, a trajetória de Rosa dialoga com experiências compartilhadas por mulheres de diferentes países, culturas e realidades, marcadas pela constante vulnerabilização de seus corpos.

“Às vezes tendemos a pensar que isso ocorre apenas na Colômbia, ou apenas no Brasil, ou apenas nos nossos países. Mas não. É algo muito mais generalizado. O problema é que normalizamos tanto essa experiência que já nem percebemos que vivemos nesse estado de alerta permanente. Não pensamos nisso conscientemente todos os dias, mas ele está lá, acompanhando nossas decisões e nossos comportamentos”, compartilhou.

Encaminhando-se para o final da conversa, Quintana também trouxe à tona a discussão sobre racialidade, tema que atravessa a narrativa de Noites Negras.

“Sobre a questão do racismo, era inevitável que ela aparecesse na novela. É uma conversa que ainda temos pendente na Colômbia”, afirmou, referindo-se a um problema estrutural frequentemente invisibilizado sob o discurso da miscigenação.

“Acho que essa é uma conversa que a Colômbia precisa ter. E acredito que estamos apenas começando a entendê-la. Por isso me pareceu importante que, ao colocar uma personagem como Rosa vivendo em uma comunidade de pescadores negros, eu mostrasse esse racismo. Não o racismo mais explícito, aquele que todos reconhecem facilmente e condenam. Mas justamente aquele racismo mais sutil, que continua presente no cotidiano, que reproduzimos sem perceber e que muitas vezes sequer reconhecemos como racismo”, concluiu.

Em um debate marcado pela participação do público e por reflexões sobre gênero, raça, violência e pertencimento, Pilar Quintana demonstrou como a literatura pode servir como ferramenta para pautar questões sociais urgentes, transformando experiências individuais em narrativas capazes de dialogar com leitores de diferentes partes do mundo.



Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *