- Operação na Venezuela acendeu o primeiro alerta
- Groenlândia amplia ruptura entre Trump e aliados europeus
- Críticas à Otan foram a gota d’água
- O efeito bumerangue eleitoral
- Erro de cálculo da Casa Branca
- Opinião pública pressiona líderes nacionalistas
- Divisão interna na direita europeia
- Retirada tática ou ruptura definitiva?
Ações unilaterais do presidente dos EUA passaram a gerar desgaste eleitoral e rachaduras entre partidos nacionalistas do continente
O alinhamento político entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os partidos de direita radical da Europa entrou em crise. Um ano após celebrarem o retorno de Trump à Casa Branca, líderes nacionalistas europeus agora adotam distanciamento público, criticando decisões que envolvem intervenções militares, ameaças comerciais e questionamentos à soberania territorial de países aliados.
As políticas econômicas agressivas, a operação militar contra a Venezuela e a insistência de Trump em assumir o controle da Groenlândia se tornaram elementos tóxicos para legendas que, até recentemente, viam o presidente americano como referência ideológica e estratégica.
Operação na Venezuela acendeu o primeiro alerta
O primeiro grande abalo ocorreu após a operação militar ordenada por Trump em 3 de janeiro, que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Apesar das críticas históricas ao regime venezuelano, líderes europeus reagiram ao que classificaram como violação da soberania nacional.
A líder do Reagrupamento Nacional (RN), da França, Marine Le Pen, condenou a ação:
“Há mil razões para condenar o regime de Maduro, mas a soberania estatal nunca é negociável”, afirmou em publicação na rede social X.
A fala marcou uma mudança de tom significativa em relação a Trump, até então tratado como aliado natural por parte da direita francesa.
Groenlândia amplia ruptura entre Trump e aliados europeus
O distanciamento se aprofundou quando Trump passou a ameaçar impor tarifas comerciais a países europeus que se opusessem aos planos americanos de assumir o controle da Groenlândia, território autônomo vinculado à Dinamarca.
No Reino Unido, o líder do Reform UK, Nigel Farage, classificou a postura como hostil:
“Um presidente dos EUA ameaçar tarifas para forçar a apropriação da Groenlândia é um ato bastante hostil”, declarou.
O tema atingiu uma linha vermelha política para partidos nacionalistas, que têm na defesa da soberania um dos pilares centrais de seu discurso.
Críticas à Otan foram a gota d’água
O ponto de ruptura definitivo veio após Trump minimizar a contribuição de aliados da Otan na guerra do Afeganistão. A declaração provocou reações duras, inclusive de aliados próximos.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, considerada uma das principais pontes entre Europa e EUA, reagiu:
“A amizade exige respeito”, afirmou, reforçando que alianças estratégicas não sobrevivem sem reconhecimento mútuo.
O efeito bumerangue eleitoral
Especialistas apontam que o afastamento não é apenas ideológico, mas estratégico e eleitoral. Segundo o professor Alberto Alemanno, da escola de negócios HEC de Paris, a associação com Trump passou a gerar desgaste interno.
Ele cita o exemplo do Canadá, onde o liberal Mark Carney venceu as eleições de 2025 após adotar um discurso frontalmente contrário à agenda de Trump.
Durante a campanha, Trump impôs tarifas ao país e chegou a sugerir que o Canadá se tornasse o 51º estado americano, o que fortaleceu o discurso soberanista de Carney.
“Os esforços de Trump para enfraquecer aliados acabaram revitalizando seus adversários políticos”, avaliou Alemanno.
Erro de cálculo da Casa Branca
A nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA, que prevê apoio a partidos “patrióticos” europeus, também gerou reação negativa. Para analistas, Trump subestimou a sensibilidade territorial e eleitoral do continente.
Segundo Brandon Bohrn, da Fundação Bertelsmann, a questão da Groenlândia foi decisiva:
“A utilidade de Trump para os populistas europeus termina onde começam as linhas vermelhas de seus eleitores”, afirmou.
Até mesmo a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido que recebeu apoio explícito do governo Trump, criticou o presidente americano. Sua líder, Alice Weidel, acusou Trump de interferência externa e quebra de promessas eleitorais.
Opinião pública pressiona líderes nacionalistas
Pesquisas recentes mostram queda acentuada da imagem dos EUA na Europa. Na Alemanha, apenas 15% da população considera os EUA um parceiro confiável. No Reino Unido, 35% dos entrevistados classificam os EUA como um país hostil.
Esses números explicam por que líderes antes alinhados a Trump passaram a adotar um discurso mais cauteloso ou crítico.
Divisão interna na direita europeia
Apesar das críticas públicas de figuras como Meloni, Le Pen, Farage e Weidel, outros líderes da direita radical mantêm silêncio estratégico, como:
- Viktor Orbán (Hungria)
- Andrej Babis (República Tcheca)
- Robert Fico (Eslováquia)
O partido espanhol Vox também evitou críticas diretas, mesmo diante das ameaças tarifárias e da condução americana do cenário pós-Maduro na Venezuela.
Esse comportamento evidencia uma divisão crescente dentro da direita europeia, que nunca foi totalmente unificada.
Retirada tática ou ruptura definitiva?
Analistas avaliam que o afastamento ainda pode ser tático, e não estrutural. Segundo Bohrn, tudo dependerá dos próximos passos dos EUA, especialmente em relação à Groenlândia.
Para Alemanno, no entanto, o risco é maior:
“A retórica imperial de Trump ameaça o ‘nacionalismo respeitável’ que a direita europeia construiu cuidadosamente”, afirmou.
Enquanto isso, as ações de Trump acabaram fortalecendo a cooperação entre França, Alemanha e Reino Unido, reacendendo alianças tradicionais e impulsionando o debate sobre autonomia estratégica europeia.
