Por Gabriel Felipe Silva Coelho – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A cada quatro anos, o planeta para durante um mês para vivenciar a intensidade da Copa do Mundo de futebol. Para a maioria das pessoas, o torneio é culturalmente sinônimo de festa, lazer e um escape bem-vindo das preocupações e rotinas de trabalho. É um período que desperta expressões únicas, consolidando memórias afetivas e sentimentos positivos a cada edição. No entanto, por trás desse fenômeno gigantesco, existem facetas negativas que evidenciam problemas estruturais profundos, os quais não podem ser ignorados pelas entidades e atores responsáveis pelo planejamento, gestão e execução do evento.
Na literatura científica nacional e internacional, sociólogos, geógrafos e historiadores do esporte alertam para esses impactos negativos, frequentemente categorizados como “legados negativos” de megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Pesquisadores como Mascarenhas (2016), Ross e McDougall (2022) e Boykoff (2025) ressaltam que, embora sediar uma competição dessa magnitude possa impulsionar o desenvolvimento social, cultural, econômico e urbano, as contrapartidas prejudiciais são visíveis nessas mesmas dimensões. Entre as consequências mais críticas observadas estão a potencialização da elitização dos espaços urbanos, violações de direitos humanos e a ampliação das desigualdades sociais.
Dentre os vários gargalos apontados pelos estudiosos, a sustentabilidade surge como um fator crítico que atravessa quase todas as edições. Conforme salientam autores como Mascarenhas e Oliveira (2018), Müller e Gaffney (2018) e Campos (2014), o problema se manifesta sob diversas óticas. Ele engloba desde os vultosos investimentos públicos na construção e reforma de arenas para atender às exigências da FIFA, até as obras em aeroportos, linhas de metrô e rodoviárias. O resultado, muitas vezes, são os chamados “elefantes brancos”, estruturas colossais que caem em desuso logo após o apito final. Além disso, pesam contra o evento a agressão direta ao meio ambiente nas frentes de obra, o consumo desenfreado de recursos naturais, a explosão na produção de resíduos e a elevação drástica nas emissões de carbono, impulsionada tanto pela construção civil quanto pela intensificação do tráfego aéreo e terrestre de torcedores.
Na última década, o Comitê Olímpico Internacional (COI), entidade máxima do Movimento Olímpico, reconheceu a gravidade dos impactos ecológicos e econômicos atrelados a essas competições. Por meio de diretrizes institucionais, como as Agendas Olímpicas 2020 e 2025, o órgão passou a incentivar ações voltadas à mitigação desses danos (Comitê Olímpico Internacional, 2014; 2021). Entre as novas medidas, destaca-se o estímulo a candidaturas conjuntas, modelo que se consolidou nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, realizados simultaneamente nas cidades italianas de Milão e Cortina d’Ampezzo.
Alinhada a essa tendência, a FIFA também apresenta em seus canais oficiais documentos recentes que sinalizam estratégias de sustentabilidade para seus torneios. A entidade reconhece o risco de a Copa do Mundo deixar legados negativos devido às severas exigências estruturais, ao consumo de recursos naturais finitos e à alta emissão de gases de efeito estufa. Ao abordar a edição de 2026, a federação ressalta que expandir o evento por toda a América do Norte, dividindo-o entre Canadá, Estados Unidos e México, surge como uma alternativa eficaz para enfrentar esses desafios. Segundo a instituição, o modelo descentralizado amplia o reaproveitamento de arenas e redes urbanas já existentes, viabiliza parcerias ambientais entre as cidades anfitriãs e distribui os custos financeiros entre as três nações (Federação Internacional de Futebol, 2026).
A Copa do Mundo de 2026 entra para a história como a segunda edição a contar com múltiplos países-sede, um formato inédito desde 2002, quando o torneio foi dividido entre dez cidades japonesas e dez sul-coreanas. Na configuração atual, a competição mobiliza 16 cidades anfitriãs, concentradas majoritariamente nos Estados Unidos (responsável por 11 sedes), seguidos pelo México (com 3) e pelo Canadá (com 2). Ao longo de todo o campeonato, os gramados estadunidenses receberão 78 partidas, enquanto as sub-sedes mexicanas e canadenses abrigarão 13 jogos cada uma.
De fato, a descentralização da Copa do Mundo entre várias nações tem potencial real para mitigar gastos supérfluos, especialmente de recursos públicos, reduzir o surgimento de “elefantes brancos”, conter agressões ecológicas locais e frear o consumo imediato de recursos naturais finitos. Por outro lado, esse modelo pode agravar um gargalo que também vem sendo enfatizado pela comunidade científica: o aumento nas emissões de gases de efeito estufa, conforme alertam autores como Müller e colaboradores (2024) e Orr (2024).
Megaeventos esportivos naturalmente intensificam o fluxo e o deslocamento de pessoas, mesmo quando sediados em um único país. Contudo, a realização do torneio em múltiplos territórios tende a complexificar esse cenário, exigindo que atletas, delegações e espectadores percorram distâncias continentais. Cria-se, portanto, uma dinâmica em que o volume diário de voos e de viagens em veículos terrestres cresce substancialmente, elevando diretamente a pegada de carbono e, consequentemente, o impacto ambiental global.
Ademais, a edição de 2026 traz outro marco além do recorde de nações anfitriãs: uma expansão estrutural sem precedentes no número de seleções participantes, que saltou de 32 para 48 equipes. Como reflexo direto dessa mudança, o calendário da competição foi ampliado de 64 para 104 partidas. Esse incremento no volume de jogos gera, inevitavelmente, uma escala ainda maior no trânsito de torcedores e na circulação de pessoas entre as cidades-sede.
Diante disso, emerge um cenário paradoxal: não seria contraditório adotar um modelo de múltiplos países-sede para combater os legados negativos do torneio na esfera ecológica, e, na mesma edição, inflar a amplitude do evento e o número de jogos? Essa expansão inevitavelmente intensifica a complexidade em torno do planejamento, da organização e da execução de toda a infraestrutura exigida.
Aliás, outro fator crítico a se considerar é a disparidade na distribuição das partidas e das cidades anfitriãs, com uma evidente hegemonia dos Estados Unidos. Se a premissa de sediar a competição em mais de um território visa descentralizar responsabilidades e viabilizar uma gestão mais sustentável, concentrar o evento de maneira tão desigual não limitaria a eficácia dessa própria estratégia? Afinal, o desequilíbrio reduz o potencial de divisão equitativa de custos, pulverização de responsabilidades e incentivo à cooperação mútua.
De qualquer maneira, a edição de 2026 é a pioneira a anunciar tais ambições e inaugura um modelo de gestão que tende a se consolidar no horizonte dos megaeventos esportivos. Exemplo disso é a Copa do Mundo de 2030, que também será compartilhada por múltiplos países-sede, capitaneada por Espanha, Portugal e Marrocos, com jogos comemorativos no Uruguai, Argentina e Paraguai. Nesse contexto, os legados deixados a partir de agora servirão de termômetro para avaliar esse novo formato. Será fundamental monitorar as reais consequências nas esferas ambiental e socioeconômica, refletindo sobre as potencialidades e limitações desse modelo, sem mascarar os novos desafios estruturais que vão surgir.
