Por Marjourie Corrêa
É natural que um bebê de oito meses embarque com a mãe em uma viagem de avião. E foi isso que aconteceu com Lucca e Ketlen no dia 23 de julho deste ano, quando partiram de Santos para Belo Horizonte. Apesar de natural, o fato carrega um significado importante.
Foi a primeira vez que Ketlen, maior artilheira da história do Santos, viajou para disputar uma partida fora da Vila Belmiro desde o nascimento do filho. Lucca acompanhou a mãe na viagem da equipe para enfrentar o América-MG pelo Campeonato Brasileiro Feminino. Ao lado deles, estava também um acompanhante responsável pelos cuidados com a criança.
Mas não foi apenas a primeira vez de Ketlen e Lucca. Foi também a primeira vez que uma jogadora viajou acompanhada do bebê e de um responsável pelos seus cuidados, com as despesas custeadas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em uma competição nacional. A possibilidade está prevista em uma medida anunciada pela entidade em 2025 e que passou a valer em 2026.
Embora pareça apenas um arranjo logístico, a mudança pode representar algo muito maior. Ampliando o debate, é possível encarar a iniciativa como uma forma de garantir que atletas possam viver a maternidade sem que a carreira precise ser interrompida.

Linha do tempo do “novo normal”
Se agora o caso de Ketlen é o que deve ser visto como normal, é preciso lembrar que nem sempre foi assim.
Antes da nova determinação, anunciada pela CBF em novembro de 2025, situações como essa dependiam de negociações diretas entre atleta e clube. Caberia à jogadora encontrar uma maneira de conciliar viagens, treinamentos e calendário de competições com os cuidados do bebê.
A nova regra muda essa lógica, pois estabelece que atletas mães em período de amamentação podem levar os filhos nas viagens oficiais de competições nacionais, com despesas de deslocamento, hospedagem e alimentação custeadas pela CBF. Também é previsto o custeio de um acompanhante para auxiliar nos cuidados com a criança.
O exemplo de Ketlen ajuda a mostrar como uma decisão administrativa se transforma em uma situação concreta, porque agora a atleta pode cumprir suas obrigações profissionais sem precisar se afastar do filho durante os períodos de viagem.
Mas essa decisão não veio do nada. Ela é resultado de um movimento maior de transformação do futebol feminino e não é preciso voltar muito no tempo para encontrar sinais dessa mudança.
- Em 2021, a FIFA estabeleceu regras específicas relacionadas à maternidade para jogadoras profissionais, incluindo licença-maternidade e garantias para o retorno das atletas. Então a discussão passou a envolver não apenas o direito de uma jogadora ser mãe, mas também as condições necessárias para que ela pudesse continuar sendo atleta depois da maternidade.
- Em 2025, o Brasil passa a acompanhar esse movimento. No mês de novembro, enquanto apresentava o novo calendário do futebol feminino, a CBF anunciou uma série de mudanças estruturais para a modalidade, dentre as quais estava o apoio às atletas mães e lactantes durante as viagens.
- Agora, em 2026, a regra passou a ser aplicada. O caso de Ketlen é um dos primeiros exemplos públicos dessa nova realidade. A atacante havia retomado os treinamentos depois do nascimento de Lucca e, em julho, voltou a viajar com a equipe. Dessa vez, o filho também fazia parte da delegação.
A cena é simples. Mas, para o futebol feminino, representa uma mudança na forma de pensar a carreira de uma atleta que se torna mãe. Ao assumir parte dos custos e da logística, a CBF reconhece que o cuidado com os filhos também precisa ser considerado dentro da organização do trabalho esportivo. A medida não resolve todos os desafios enfrentados pelas atletas mães, mas representa um passo para criar condições para que ser mãe não signifique deixar de ser atleta.
