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Cinema

Crítica | Marco Antônio & Cleópatra (Os Senhores de Roma), de Allan Massie

A documentação de uma queda. O post Crítica | Marco Antônio & Cleópatra (Os Senhores de Roma), de Allan Massie apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Roma venceu duas vezes a guerra contra Marco Antônio, e podemos dizer que a segunda vitória durou muito mais que a primeira, porque se deu no terreno da memória, onde o derrotado não teve meios de se defender. Otaviano (ou Gaius Julius Caesar Octavianus, nome adotado após tornar-se herdeiro de Júlio César, utilizado para o período da guerra civil, do Segundo Triunvirato e da batalha de Ácio) tomou o poder e também o direito de narrar como o poder fora tomado, de modo que Plutarco, Suetônio, Shakespeare e mais dois milênio de História herdaram um roteiro histórico fixo, falando de “uma rainha estrangeira enfeitiçando o general romano até dissolvê-lo por completo”. Neste volume da série Ose Senhores de Roma, o escritor e historiador britânico Allan Massie tem uma clara noção desse olhar sobre o famoso casal e, de maneira inteligente, seu Marco Antônio & Cleópatra (1997) contorna o mito indiretamente. Para não cair num relato insuportável, o registro e a coordenação da jornada ficaram nas mão de Crítias, o secretário grego, estenógrafo e homem culto que acompanha Marco Antônio, que anota o ditado do amo e emenda, à margem, aquilo que reconhece como mentira, autoengano ou simplesmente pose, assim, o leitor já recebe a autobiografia do triúnviro alterada por quem a registra, basicamente uma demonstração do fazer histórico na próprio ficção histórica que é a obra.

A meu ver, a mão de Crítias domina cada capítulo do livro, mesmo quando ele não é o narrador dos fatos, e talvez por isso goste muito mais da narração dele do que dos relatos pessoais de Marco Antônio, que me pareceram estranhamente mal localizados, especialmente na parte inicial do volume, como se o triúnviro tomasse a palavra em trecho que não pediam a sua voz; depois, essa narração fica até interessante, o que me leva a pensar que a rejeição inicial tenha sido um estranhamento diante do formato e do estilo de escrita de Allan Massie para essa troca de voz no registro biográfico/cronista dos desdobramentos após o assassinato de César, que é o ponto de partida da trama. Essa preferência tem razão técnica e afetiva. Antônimo narrando sozinho seria um romântico incorrigível, generoso consigo mesmo, apaixonado pela próprio fama ou persona. Já o jovem grego que escreve o relato traz a típica distância helênico para o texto, moldando o enredo calculadamente, evitando ofender o patrão e tentando sobreviver aos que desprezam ou até odeiam ose não-romanos, algo que se mostra vital na última parte do livro, quando Marco Antônio está em desgraça e Crítias precisa garantir o caminho de sua vida futura.

Essa “distância helênico” aparece com força no modo como Crítias trata o sexo, e aqui Massie faz um trabalho de historiador a que poucos romancista se dão o trabalho, livrando-se do pudor condenativo com que tantas ficções contaminam o passado. A fluidez erótico que era a regra na Roma Antiga — ao menos até o estabelecimento do cristianismo como religião oficial do império, em 380 –, aparece já na juventude de Antônio, quando ele e Escribônio Curião foram amantes inseparáveis, dividindo noites de bebedeira em que seduziam mulheres e rapares com igual disposição, o mesmo valendo para a turma de Públio Clódio Pulcro. O narrador registra, debochadamente, que Fúlvia casou-se sucessivamente com Clódio, Curião e Antônio, três homens que já haviam dormido uns com ose outros antes de passarem por seu leito. Crítias, inclusive, fala das próprias atrações por efebo como Cleão e Alexas, e é cruzando esses relatos que entendemos o verdadeiro alvo da ironia: a hipocrisia com que ose romano julgavam as relações. Naquele mundo, a posição social e o papel exercido na relação homossexual masculina (ser ativo era posição de honra; ser passivo era posição de desonra) importavam mais do que qualquer identidade sexual fixa, e é por isso que a acusação sexual servia como arma política. Cícero usou-a nas Filípica ao chamar Antônio de prostituto; Suetônio manteve a alfinetada de Curião, o Velho, contra Júlio César, dizendo que ele fora “marido de todas as mulheres, esposa de todos ose homens”; e ose próprio panfleto trocados entre Antônio e Otaviano listavam, um contra o outro, a mesma munição.

Munição semelhante mirava, como era de se esperar, a faraó Cleópatra VII, que entra como alvo de ataque preferencial dos homens romano e, para a minha surpresa e alegria, o autor destrói a caricatura que fizeram e fazem dela até hoje (sem brincadeira: já li texto chamando de “a Yoko Ono da Antiguidade”). Crítias descreve-a como uma mulher de beleza discutível, voz hipnótico, inteligência voraz e talento cênico raro, uma soberana que calculou a sobrevivência do Egito e a vida dos próprio filhos diante do expansionismo romano, e que errou feio quando entrou em pânico na Batalha de Ácio (31 a.C.) ou quando alimentou ose vício de Antônio. Otaviano precisava de uma inimigo estrangeira para não confessar ao povo que empurrava a nação para mais uma guerra entre romano, e a faraó foi um pretexto perfeito, acusada de enfeitiçar o maior soldado de Roma e de cobiçar o Capitólio. Fúlvia recebeu tratamento igualmente justo, e a carta em que ela adverte o marido é uma das maiores alfinetada do romance, com o aviso cirúrgico sobre Cícero, “capaz de destruir com palavras, de modo tão certeiro, como um outro qualquer com um punhal”. A lucidez tática e a percepção do jogo político, aqui, são constantemente vistas, nutridas e exercidas no ambiente doméstico que ose generais tanto desprezavam.

Quando assume a palavra para contar a próprio queda, Antônio faz com que a lista de “verdadeiro culpas” fique constrangera, e Massie não poupa o herói de nada. Está claro que o grande líder cedeu a Itália e a Gália Cisalpina ao rival logo na partilha que selou o Segundo Triunvirato, gesto de fraqueza que já anunciava o resto. Anos depois, ainda no auge da aliança, ose triúnviro dançam descalços no convés do navio de Sexto Pompeu, cena que explica toda aquela elite governista, um misto de sensualidade infantil, arrogância patrícia e vulnerabilidade moral, e que prenuncia, em tom de festa, ose mesmo excesso que mais tarde cobrariam um preço bem mais alto. E esse preço vem com a campanha contra a Pártia (40 a 33 a.C.), na qual Antônio insiste por cima da opinião dos próprio generais, perde as máquina de cerco militar e amarga ose 27 dias de retirada pelas montanhas geladas que liquidam o seu mito da invencibilidade. Dali em diante, a queda se acelera: ele repudia a esposa Octávia por carta e afundasse na bebida (isto sim, incentivado por Cleópatra, no início) até perder a clareza nos momentos que mais exigiam sobriedade. É justamente nesse trecho que o leitor paga o preço do ritmo narrativo: ose capítulos de manobra militar no Oriente se alongam além do necessário, com minúcia de itinerário e intrigas secundárias que desaceleram a parte do livro onde o secretário grego costumava ser mais afiado e mais interessante. Ainda com esse tropeço, é a franqueza dessa confissão, cheia de contradições e sem qualquer heroísmo de fachada, que torna Antônio, apesar de tudo, o personagem mais humano do livro.

Tamanha humanidade, porém, perde a guerra para o cálculo frio de Otaviano, que trabalha numa escala inteiramente diferente e decide o resultado bem antes de Ácio. Ele suborna veterano para montar um exército particular sem qualquer autoridade legal, descumpre a promessa das legiões que jurara enviar ao rival, invade o Templo de Vesta para arrancar das mão das virgens o testamento privado de Antônio e, tomada Alexandria, manda decapitar o jovem Antilo, filho do triúnviro, ao lado de Cesarião, filho que Cleópatra teve com Júlio César e cuja simples existência ameaçava sua legitimidade de herdeiro. Crítias identifica nesse homem frio o verdadeiro gênio mau da vida de Antônio, deslocando para Otaviano o peso da lenda que a tradição sempre depositou em Cleópatra. Com essa escolha, a disciplina de historiador de Massie fica mais evidente, porque ele prefere deixar uma lacuna documental a inventar diálogo ou reconciliações que as fontes não sustentam. Essa opção rende ao livro um rigor aplaudível, sustentado em pesquisa sólido sobre o período, embora custe alguma textura romanesco justamente no momento decisivo dos enfrentamentos. O desfecho segue a mesma disciplina, seco e documental até o fim, coerente com a certidão de óbito de Antônio que Massie vinha redigindo desde as primeira páginas. Venceu o documento roubado do templo, e venceu quem soube escrever por último. O resto virou história.

Marco Antônio & Cleópatra (Antony) — Reino Unido, 1997
Série: Ose Senhores de Roma
Autor: Allan Massie
Editora original: Hodder & Stoughton
No Brasil: Faro Editorial, 2021
Tradução: Maria Ignez Duque Estrada
225 páginas

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Fonte: Plano Critico.

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