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- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
VisionQuest chega ao seu penúltimo episódio com um dos melhores momentos da temporada, finalmente colocando a crise existencial de seu protagonista no centro de um conflito que funciona mais pela dramaticidade de suas escolhas do que pela necessidade de movimentar conspirações e antagonistas. Em Imolação, Terry Matalas assume a direção e recupera algumas das melhores ideias da série, principalmente a representação visual do espaço mental e a discussão sobre o que significa ser humano quando memórias, sentimentos e até a própria identidade podem ser reproduzidos artificialmente. Ainda existem conveniências narrativas e um excesso de didatismo que venho apontando desde a estreia, mas gostei bastante da maneira como o capítulo desenvolve seu arco emocional.
A abertura em 1939, apesar de estranha no início, gradualmente estabelece uma conexão razoável com o restante da narrativa, apresentando Phineas Horton e sua obsessão pela criação de J.I.M., o primeiro homem sintético, motivado pela morte de seu filho. Existe algo particularmente trágico nessa figura de um cientista que tenta reconstruir artificialmente aquilo que perdeu, algo que já vimos em outras obras, claro, mas que é trabalhado eficientemente aqui, ainda que, como falei, exista um elemento de estranheza pela inserção de tudo isso na trama. Mesmo assim, a ideia conversa diretamente com a própria origem do Visão, mas também com as questões de paternidade que a série vem desenvolvendo em sua relação com Tommy.
Inclusive, gosto bastante da maneira como VisionQuest recupera elementos mais obscuros da mitologia da Marvel sem transformá-los exclusivamente em referências para fãs. J.I.M. não aparece apenas como uma curiosidade histórica associada ao primeiro Tocha Humana dos quadrinhos, mas como representação de um problema que atravessa diferentes gerações de inteligências artificiais. Existe uma ironia muito boa, talvez quase boba, nessa ideia de um homem artificial que literalmente entra em combustão por desenvolver emoções humanas.
A incursão do Visão nas camadas mais profundas de sua consciência também permite que Matalas explore melhor a arquitetura mental estabelecida anteriormente. A série continua encontrando soluções interessantes para transformar mecanismos tecnológicos em espaços físicos, trabalhando agora com uma espécie de percurso psicológico por corredores, ambientes familiares e manifestações de diferentes versões do protagonista. O resultado se aproxima de um drama teatral de ficção científica, com uma encenação que depende muito mais da organização dos espaços, da iluminação e das interações entre personagens do que de grandes efeitos visuais.
O encontro com sua versão anterior é especialmente interessante nesse sentido. O Visão Branco passou toda a temporada tentando se diferenciar daquele que conhecemos em WandaVision, como se possuir suas memórias não significasse necessariamente compartilhar sua existência. Mas o episódio começa a desmontar essa separação, especialmente quando expõe o ressentimento do personagem diante de uma versão que aparentemente conseguia amar, sofrer e estabelecer vínculos sem precisar questionar constantemente a legitimidade de seus sentimentos. A discussão recupera o paradoxo do Navio de Teseu, mas agora com uma dimensão mais emocional do que filosófica.
É justamente aí que o episódio encontra sua melhor linha dramática. O problema do Visão nunca foi simplesmente não possuir sentimentos, mas sua incapacidade de aceitar as consequências de reconhecê-los. Admitir que Tommy é seu filho significa também reconhecer que Wanda e Billy fazem parte de uma história de amor e perda que ele tentou negar durante toda a temporada. Gosto dessa inversão, porque a série finalmente compreende que a humanidade do protagonista não precisa ser conquistada através de algum mecanismo tecnológico, mas reconhecida nas próprias decisões que ele vem tomando.
O encontro com J.I.M. sintetiza bem esse percurso, ainda que o roteiro continue sublinhando demais suas intenções. A série tem um problema recorrente de explicar seus temas depois de já tê-los demonstrado, e Imolação não escapa completamente disso. Felizmente, o trabalho de Bettany sustenta boa parte dessas interações, especialmente pela maneira como diferencia as várias figuras associadas à origem do protagonista.
Tenho mais ressalvas com a solução envolvendo o código-fonte de Horton. O mecanismo tecnológico aparece praticamente como uma resposta conveniente para neutralizar o nanorrobô que ameaça Lisa, conectando a resolução emocional do protagonista a uma solução física imediata. Entendo a intenção de associar a recuperação de sua identidade à capacidade de salvar outra pessoa, mas a facilidade com que o problema é resolvido acaba diminuindo parte da tensão estabelecida anteriormente.
Paralelamente, a trama de Jocasta e Ultron continua interessante, especialmente pela exploração das memórias de Josephine Carrington. A descoberta de uma figura ligada ao passado da cientista com a mesma aparência humana de Ultron estabelece um novo mistério sobre as origens dessas inteligências artificiais. No entanto, a relação entre os dois começa a ganhar contornos ainda mais estranhos, principalmente porque Ultron parece cada vez mais interessado em desenvolver experiências humanas enquanto continua demonstrando sua natureza manipuladora. James Spader permanece excelente, conseguindo transformar praticamente qualquer diálogo em uma disputa de poder marcada por ironia e arrogância.
Já a revelação envolvendo o misterioso Cliente é um gancho curioso, ainda que eu esteja um pouco receoso com a quantidade de explicações reservadas para o encerramento. Sua aparência idêntica à representação humana de Ultron sugere conexões importantes com a origem das tecnologias que deram vida aos personagens, mas ainda precisamos entender como tudo isso se relaciona com a investigação de Jocasta e seus planos de controle mental. A explosão do veículo de Paladino, por sua vez, é mais uma demonstração da descartabilidade de um antagonista que nunca conseguiu encontrar personalidade própria. Sinceramente, não sentirei muita falta caso seja realmente seu desfecho.
No saldo, Imolação é um bom episódio, talvez o mais consistente da temporada no desenvolvimento emocional de seu protagonista. Gosto da direção mais concentrada de Matalas, das possibilidades formais da viagem pelas memórias, da recuperação de J.I.M. e, principalmente, da maneira como a relação entre Visão e Tommy finalmente encontra uma resolução satisfatória. Ainda existem problemas de exposição, facilidades narrativas e uma conspiração tecnológica que parece cada vez mais dependente de explicações futuras, mas o capítulo consegue entregar algo que a Marvel frequentemente esquece em suas produções mais recentes, que é uma transformação emocional que não depende exclusivamente de uma grande batalha.
VisionQuest – 1X07: Imolação (Immolation) | EUA, 03 de novembro de 2026
Criação: Terry Matalas
Direção: Terry Matalas
Roteiro: Matthew Okumura
Elenco: Paul Bettany, James Spader, Ruaridh Mollica, Todd Stashwick, Lauren Morais, Orla Brady, Diane Morgan, Polly Frame, Henry Lewis, Jonathan Sayer, Emily Hampshire, James D’Arcy, Ben Crompton, T’Nia Miller
Duração: 62 min.
Ben CromptonDiane MorganDisney PlusEmily HampshireHenry LewisHomeJames D’ArcyJames SpaderJonathan SayerLauren MoraisMatthew OkumuraOrla BradyPaul BettanyPolly FrameRuaridh MollicaT’Nia MillerTerry MatalasTodd StashwickUCM – SériesUCM: Fase 6Universo Cinematográfico MarvelVisãoVisionQuest
Fonte: Plano Critico.
