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Cinema

Crítica | Doctor Who: Os Sóis De Caresh, De Paul Saint

Um bom livro, até a criatividade ir embora com os cabelos do Doutor. O post Crítica | Doctor Who: Os Sóis De Caresh, de Paul Saint apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Equipe: 3º Doutor, Jo
Tempo: 1971 e 1999
Espaço: Londres, Israel, Planeta Caresh

Os Sóis De Caresh, romance de Paul Saint (pseudônimo de Paul Beardsley) em seu único trabalho para Doctor Who, é um livro que parece um pouco experimental para os padrões da série, ainda que no fim das contas, ainda se apegue a fórmulas típicas da Era do 3º Doutor, período do show que a obra retrata. Em outras resenhas da linha Past Doctor Adventures, eu escrevi que há dois caminhos que o autor pode seguir com esses livros: escrever uma história que poderia ter sido produzida na televisão na era do programa retratada, ou valer-se do formato literário para criar uma história que, por questões de orçamento, temática ou faixa etária, nunca teria sido produzida pela TV da época. Paul Saint propõe um terceiro caminho, fazer ambas as coisas, o que é um desafio interessante, mas que aqui acaba rendendo uma obra que perde a sua coesão a partir de certo ponto.

Na trama, situada entre Carnival Of Monsters e Frontier In Space, em 1999, a polícia londrina acha um corpo petrificado em um quarto de hotel. Ao mesmo tempo, uma jovem alienígena amnésica chega à Terra, sabendo apenas que deve voltar para o seu mundo antes que seja tarde. No espaço, enquanto viaja com Jo, o 3º Doutor é abordado por uma Time Lady para quem deve um favor, e para pagar essa dívida, ele deve voltar à Terra. Mas quando a TARDIS tem dificuldade em se materializar em 1999, o que provoca uma acidentada aterrissagem, o Doutor acredita que o que causou o incidente foi uma fratura temporal, que o lembra de um caso que investigou com a UNIT em seu exílio. Todos esses eventos se conectam ao distante planeta Caresh, que está à beira da destruição.

Os Sóis De Caresh é um livro interessado em construir um universo que soe estranho para os seus personagens. O autor é cuidadoso ao nos lembrar que ainda é uma história de Doctor Who, com um prólogo nos anos 1970, com a UNIT investigando uma anomalia em Israel, mas, passado o prólogo, só veremos o Doutor e Jo após 50 páginas, com a obra se dedicando aos personagens originais em seu início. Os personagens que mais trazem essa estranheza são Troy Game, a alienígena de Caresh, e Simon Haldane, um fã de ficção científica que abriga Troy. O autor é competente em retratar como dar de cara com uma bela alienígena afeta o senso de realidade de Simon, mas mais interessante é como a obra retrata a perspectiva de Troy sobre a Terra, passando o estranhamento dela diante de situações triviais, como pegar o metrô. Por outro lado, Saint encerra a relação entre os personagens com um momento de choque, que, ainda que sinalizado, é deslocado do tom do resto do livro.

O autor está interessado em brincar não só com a mitologia do show, mas em apresentar ideias criativas sobre o conceito de anomalias temporais. Há um uso inventivo da ideia de loop temporal em uma passagem particularmente tensa envolvendo Jo, além da apresentação de uma doença temporal que faz com que o indivíduo viva a sua vida de trás para frente, que é bem utilizado pela trama. Gosto também de como a obra constrói o antagonista da trama, Lord Roche, um Time Lord renegado que, após tentar salvar Caresh, atrai a atenção de seres extradimensionais, e que agora está disposto a tudo para salvar a própria pele. Roche não tem plano maligno, e de fato, toda a crise parte de uma daquelas boas intenções que enchem o inferno. Não temos um vilão psicopata que chafurda em maldade, mas um covarde disposto a deixar que outros paguem por suas ações.

O autor faz um bom trabalho no desenvolvimento dos personagens, na maior parte do tempo. Ainda que a obra não busque profundidade com a dupla da TARDIS, ela é muito bem transposta para as páginas, com o autor não só reproduzindo os trejeitos que Jon Pertwee deu ao seu Doutor na TV, mas entendendo o momento que Jo estava naquele momento do show, ainda doce, mas se tornando mais independente. Mas são os personagens originais que chamam a atenção, como a citada Troy Game, que, mesmo construída como uma personagem completamente alienígena em seus costumes e interações, nos conquista por misturar ingenuidade, curiosidade e determinação em uma mistura cativante. O vilão Lord Roche surge também como um canalha que adoramos odiar, ganhando um momento de brilhantismo quando joga as criaturas que o estão perseguindo em cima do Doutor ao simplesmente se regenerar para o rosto do 3º Doutor.

Mas no terço final, a ação se move para o planeta Karesh, e toda a criatividade que o livro possuía até então evapora. A ambientação do planeta é genérica, os personagens desse núcleo são desinteressantes, a ação é sem graça, e até Troy Game perde um pouco do seu brilho. Há uma tentativa de agitar um pouco as coisas através da ideia do Doutor e Jo de se misturarem ao rasparem as cabeças (o que inclusive ilustra a capa), mas no fim das contas, não faz diferença alguma. Toda a situação acaba se resolvendo na base da tecno baboseira tirada da cartola, sem o mínimo de impacto emocional, característica que faz alguns dos finais mais preguiçosos de Doctor Who, o que se repete aqui.

Os Sóis De Caresh foi um livro que me deixou com sentimentos conflitantes. Paul Saint, durante a maior parte da obra, entrega uma história cheia de elementos criativos de ficção científica e personagens cativantes em uma narrativa que mistura ação, comédia e suspense de forma muito bem equilibrada. Mas, apesar desses acertos, as últimas sessenta páginas são um banho de água fria ao simplesmente abandonar personagens e tornar os caminhos mais convencionais e preguiçosos para um livro que até então era frenético na apresentação de suas ideias. Ainda é uma boa leitura, mas termina deixando a impressão de que, ao não saber como terminar a sua história, o autor optou por tomar a rota mais preguiçosa e sem graça.

Doctor Who: Os Sóis De Caresh (The Suns Of Caresh) – Reino Unido. 05 de Agosto de 2002
Autor: Paul Saint (pseudônimo de Paul Beardsley)
BBC Past Doctor Adventures #55
Publicação: BBC Books
286 páginas.

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Fonte: Plano Critico.

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