Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,01 ▼ 1,06% EURO R$ 5,62 ▼ 0,86% BITCOIN R$ 414.255 ▼ 0,14% TERçA-FEIRA, 20/10/2026 11:23
Cinema

Crítica | Tara Maldita (2018)

Releitura do clássico é morna, mas um interessante debate sobre psicopatia infantil. O post Crítica | Tara Maldita (2018) apareceu primeiro em Plano Crítico.

1

A ideia de que crianças podem ser terrivelmente perigosas evoca um medo primordial, subvertendo a imagem de pureza e inocência que a sociedade costuma atribuir à infância. Em diversas análises cinematográficas, essa temática é explorada para confrontar o espectador com a possibilidade de que o mal não seja apenas aprendido, mas por vezes intrínseco. Conforme abordado em discussões anteriores sobre o gênero, o horror protagonizado por menores desafia os instintos protetores dos adultos e coloca em xeque as noções de moralidade. Filmes que seguem essa linha tendem a perturbar profundamente, pois nos forçam a encarar figuras pequenas e aparentemente frágeis como predadores frios e calculistas, capazes de atos atrozes sem qualquer sinal de remorso ou empatia.

Um exemplo moderno dessa exploração é Tara Maldita, telefilme de 2018, lançado pelo canal Lifetime e dirigido por Rob Lowe. A obra busca revitalizar a premissa estabelecida pelo clássico A Semente Maldita, de 1956, que por sua vez foi baseada no romance de William March e na peça teatral subsequente. Embora a versão de mais recente tente modernizar a trama, alterando a dinâmica de alguns personagens e modificando o desfecho para surpreender o público atual, ela acaba pecando ao desperdiçar parte de seu potencial narrativo. Não chega a ser um pecado mortal, longe disso, mas um mandamento cinematográfico leve. O ritmo do filme é menos envolvente do que o material de origem exigiria, resultando em uma experiência que, embora interessante, não consegue atingir o mesmo nível de tensão psicológica.

No roteiro adaptado por Barbara Marshall, acompanhamos a vida de David (interpretado pelo próprio Rob Lowe), um pai solteiro e viúvo que dedica sua existência à criação da filha, Emma. Interpretada por McKenna Grace, Emma é apresentada ao mundo como uma criança exemplar, doce e dedicada aos estudos. No entanto, por trás dessa fachada de perfeição, esconde-se uma natureza egoísta, manipuladora e desprovida de sentimentos humanos básicos. A premissa central foca nesse contraste brutal: a dualidade entre a filha “perfeita” que David acredita conhecer e a assassina em potencial que se revela conforme seus desejos e caprichos não são atendidos, estabelecendo um dilema moral devastador para o protagonista.

O catalisador da trama ocorre durante um piquenique da escola, onde um colega de Emma morre afogado de forma suspeita. O garoto havia acabado de ganhar uma cobiçada medalha de caligrafia que Emma acreditava ser sua por direito. O evento desencadeia uma espiral de desespero, especialmente para a mãe da vítima, interpretada por Patty McCormack, isto é, a atriz que deu vida à icônica Rhoda no filme de 1956, aqui em uma participação especial como terapeuta. David começa a suspeitar do envolvimento da filha quando a medalha desaparece e, mais tarde, ele a encontra escondida entre os pertences da menina. Esse momento marca a quebra definitiva da confiança paterna e o início de uma investigação angustiante sobre a verdadeira face de sua prole.

À medida que “acidentes” e mortes começam a se acumular ao redor da pequena Emma, o filme mergulha no conflito interno de David, que precisa confrontar a realidade de que sua filha é um monstro sem remorsos. A narrativa se divide entre o suspense da investigação policial e o horror doméstico de um pai que se sente refém dentro da própria casa. Rob Lowe faz um trabalho competente na direção, equilibrando a atuação com a condução da trama, embora na finalização pareça perder o fôlego. O roteiro enfatiza que, para Emma, qualquer pessoa que se coloque em seu caminho ou que possua algo que ela deseje torna-se um alvo descartável, transformando o ambiente familiar em um cenário de sobrevivência.

Um dos pontos altos da produção reside na estética técnica, com a direção de fotografia de Peter Menzies Jr., que utiliza sombras e enquadramentos para favorecer os momentos de tensão. Há um tom quase poético no contraste visual entre a delicadeza de Emma e a temática pavorosa que a cerca. O design de produção de Tink, aliado à direção de arte coesa de Sarah Stapleton, permite que as escolhas espaciais intensifiquem o isolamento dos personagens, criando uma atmosfera de clausura. Por outro lado, a trilha sonora de Leanna Primiani, embora funcional e interessante em suas composições, acaba sendo pouco impactante, falhando em elevar os momentos de clímax à magnitude emocional que a história sugere.

O desenvolvimento da trama apresenta tópicos verdadeiramente angustiantes, como o arco envolvendo Chloe, a babá contratada por David. Ela é a única pessoa externa a perceber a verdadeira natureza de Emma, o que estabelece um jogo de gato e rato perigoso. A manipulação de Emma atinge níveis cruéis quando ela decide se livrar da funcionária, culminando em uma cena perturbadora onde a menina provoca um acidente fatal. Esse assassinato reafirma a capacidade de planejamento da criança e sua total falta de empatia, consolidando-a como uma vilã que utiliza o ambiente cotidiano como uma arma letal contra aqueles que ousam desafiá-la.

Em linhas gerais, o filme presta uma homenagem significativa ao legado da obra original ao incluir Patty McCormack como a Dra. March. Em suas sessões, a terapeuta sugere a David que a maldade pode ser algo hereditário, um “gene ruim” que salta gerações, fazendo um aceno direto às teorias deterministas do filme de 1956. Essa conexão entre as versões reforça a ideia de que o mal representado por Emma é algo incontrolável e biológico. Apesar de suas falhas de ritmo, Tara Maldita consegue entregar uma reflexão sombria sobre os limites do amor incondicional e a terrível constatação de que, às vezes, o perigo mais mortal está dormindo no quarto ao lado, sob a máscara de uma criança inocente.

O desenvolvimento de Tara Maldita explora a inquietante dualidade entre a aparência angelical e a sociopatia infantil, utilizando o tropo clássico da “criança maldita” para questionar a natureza do mal. Na versão de 2018, a narrativa sugere que a maldade de Emma é uma característica intrínseca e inata, apresentando-a como uma psicopata desprovida de empatia que utiliza sua imagem de inocência para manipular todos ao seu redor. Essa capacidade de fingir emoções e orquestrar situações cruéis sob uma fachada inofensiva intensifica o horror, subvertendo a percepção tradicional da pureza na infância. Um manancial para debates.

Ademais, no centro desse conflito está o profundo dilema parental e a culpa enfrentada por David, um pai solteiro dedicado que vê seu mundo desmoronar ao suspeitar da própria filha. O sofrimento de David reflete a angústia de questionar sua eficácia na criação de Emma, enquanto ele luta para aceitar que o monstro que ele teme habita o corpo de seu bem mais precioso. O filme utiliza esse embate psicológico para mostrar como o amor paterno pode ser transformado em uma arma de manipulação, tornando a jornada do protagonista uma espiral de isolamento e dúvida devastadora.

Tara Maldita (The Bad Seed, EUA – 2018)
Direção: Rob Lowe
Roteiro: Barbara Marshall, William March
Elenco: Mckenna Grace, Rob Lowe, Cara Buono, Patty McCormack, Sarah Dugdale, Lorne Cardinal, Luke Roessler, John Emmet Tracy, Lucas Steagall, Kate Isaac, Marci T. House, Shauna Johannesen, Ema Mlinar, Nevis Unipan
Duração: 90 min

Barbara MarshallCara BuonoEma MlinarJohn Emmet TracyKate IsaacLorne CardinalLucas SteagallLuke RoesslerMarci T. HouseMckenna GraceNevis UnipanOutubro do TerrorOutubro do Terror 2026Patty McCormackRob LoweSarah DugdaleShauna JohannesenWilliam March

Fonte: Plano Critico.

Compartilhe esta matéria:
Portal Inhaí

Portal Inhaí

Confira as notícias e colunas publicadas por Portal Inhaí no Portal Inhaí.