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Cinema

Crítica | South Park (South America) – 29X03: Você Gosta Disso na Sua Cara

Harmonização infantil. O post Crítica | South Park (South America) – 29X03: Você Gosta Disso na Sua Cara apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Depois de esculhambar as bicicletas elétricas e transformar bilionários em pequenos pênis antropomórficos, South America continua sua ótima 29ª temporada encontrando uma nova aberração do cotidiano, dessa vez sobre a obsessão estética de crianças que mal aprenderam a multiplicar, mas já estão preocupadas com simetria facial, envelhecimento precoce e a quantidade de “aura” que conseguem acumular nas redes sociais. Mantendo a abordagem mais próxima do South Park clássico dos dois capítulos anteriores, o episódio segue trocando a sátira política direta por uma maluquice contemporânea que, evidentemente, não precisou ser inventada por Trey Parker. Afinal, quando crianças de dez anos estão usando aplicativos para descobrir quais características de seus rostos precisam corrigir, o trabalho de um roteirista de comédia já começa praticamente pronto.

A premissa parte de duas tendências que talvez exijam uma breve tradução para quem ainda não foi completamente contaminado pelo vocabulário das redes sociais (eu mesmo tive que pesquisar…): looksmaxxing, a tentativa de maximizar a própria aparência física, e aura farming, uma espécie de esforço performático para parecer descolado, impressionante ou superior aos outros. Nesse maravilhoso universo de imbecilidades digitais, não basta ser bonito ou interessante, já que é necessário transformar a própria existência em uma competição permanente de validação. A escola de South America, portanto, vira palco de batalhas de aura, com direito a pontuações, desafios e a ameaça suprema de ser considerado cringe. Terrível destino para uma criança que deveria estar preocupada, sei lá, em brincar.

É justamente Ike, o irmão caçula de Kyle, quem acaba envolvido em uma dessas disputas, tendo como adversário Chase Chadwick, um garoto que parece ter saído diretamente dos delírios de algum influenciador especializado em avaliar mandíbulas alheias. Cartman, evidentemente, compra toda essa lógica imediatamente, passando a aconselhar Ike como se estivesse preparando um atleta para disputar uma final olímpica. É uma utilização muito divertida do personagem, principalmente porque sua compreensão das regras absurdas desse mundinho é tão natural quanto sua disposição de explorá-las.

Paralelamente, Stan descobre que Wendy está preocupada com a aparência e acaba entrando no maravilhoso mercado de produtos antienvelhecimento vendidos pela Sephora. Tudo é uma crítica bastante pertinente ao mercado de cosméticos, à publicidade algorítmica e à exploração comercial da insegurança, especialmente quando o público-alvo é jovem demais para perceber que está sendo transformado em consumidor compulsivo.

Mas o grande achado do episódio é a transformação da Sephora em uma espécie de portal para os Backrooms, fenômeno de horror nascido na internet e caracterizado por ambientes aparentemente intermináveis, vazios e estranhamente familiares. A direção trabalha muito bem essa mudança de registro, substituindo a movimentação habitual da loja por elementos do filme sobre um labirinto literalmente sem saída.

A brincadeira com a passagem do tempo, inclusive, funciona muito bem, assim como a utilização dos funcionários da loja, cada vez mais perturbadores à medida que a narrativa avança. O que começa como uma paródia relativamente inocente dos vendedores insistentes de cosméticos acaba se convertendo em um pequeno filme de horror corporal cômico, especialmente quando Cartman e Ike são levados para os fundos em busca de amostras grátis.

É aqui, também, que Parker leva a brincadeira para seu terreno tradicionalmente escatológico, com os funcionários perguntando insistentemente se os clientes gostam de receber creme no rosto. O duplo sentido sexual é evidente, culminando na aparição de uma gerente monstruosa que dispara o produto por um tubo localizado entre as pernas. É o tipo de piada que praticamente dispensa explicações e que a série faz questão de repetir até o limite do constrangimento. Confesso que a insistência começa a perder um pouco da graça, mas a composição grotesca da criatura e a associação entre exploração comercial, padrões de beleza e sexualização precoce ainda dão alguma força ao exagero.

Randy, por sua vez, protagoniza talvez a melhor gag do episódio. Depois de inicialmente representar o adulto sensato diante das preocupações estéticas de Stan, ele próprio resolve utilizar o aplicativo e acaba tão obcecado com o rejuvenescimento que retorna da Sephora com aparência de aluno da quarta série. É uma solução absolutamente imbecil, no melhor sentido possível, especialmente porque Randy passa a frequentar a escola com o próprio filho, para profundo desespero de Stan. A transformação também funciona como piada sobre a incapacidade dos adultos de escapar das mesmas modinhas que condenam nos jovens.

O desfecho da batalha de aura é especialmente divertido por sua simplicidade. Depois de tantas discussões sobre aparência, popularidade, vergonha e influência digital, Randy resolve o problema da maneira mais antiga possível, com uma surra em Chase. É um anticlímax deliberado que contrapõe toda aquela linguagem artificial de competição estética a uma demonstração brutal de violência física, com direito ao retorno de sua clássica desculpa envolvendo estar na América, agora devidamente adaptada ao novo nome da cidade.

No geral, Você Gosta Disso na Sua Cara é outro bom episódio dessa fase mais clássica de South Park, com destaque para a costura entre obsessão estética, consumo infantil, cultura dos influenciadores e horror de internet. Talvez o humor escatológico dos cosméticos seja repetido além da conta, mas o trabalho visual nos Backrooms, a deformação de Ike e Cartman e a transformação de Randy compensam bastante. O mais interessante é perceber que Trey Parker continua encontrando maneiras de transformar comportamentos reais em pequenas aberrações animadas, sem precisar recorrer semanalmente ao ocupante da Casa Branca. E, convenhamos, quando precisamos explicar para crianças que seus rostos não precisam de procedimentos antienvelhecimento, talvez a gerente monstruosa da Sephora nem seja a coisa mais assustadora do episódio.

South Park (South America) – 29X03: Você Gosta Disso na Sua Cara (South Park (South America) – 29X03: You Like That on Your Face – EUA, 14 de outubro de 2026)
Data de lançamento no Brasil: 14 de outubro de 2026
Direção: Trey Parker
Roteiro: Trey Parker
Elenco: Trey Parker, Matt Stone, April Stewart, Mike Judge
Duração: 22 min.

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Fonte: Plano Critico.

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