Por Júlia Neves
Se sairmos do campo e direcionarmos nossos olhares para as arquibancadas, o que veremos é pura sinergia. A conexão entre pessoas que gritam cânticos com os olhos atentos e o coração palpitando por um mesmo motivo: o time do coração. Nessa multidão, mulheres, em grito uníssono, se fazem presentes em um espaço majoritariamente masculino e, entre elas, essa conexão vai além do placar, é uma sinergia tecida por quem divide não só a mesma cor da camisa, mas o mesmo espaço de resistência.
O despertar de um novo olhar
Foi pensando no protagonismo feminino nas arquibancadas que nasceu o projeto ‘‘Cuerpas reales, Hinchas reales’’, (‘’Corpos reais, Torcedoras reais’’, em português), criado pela fotógrafa argentina e professora da Universidade de La Plata, Erica Voget.
Erica atua como diretora e curadora do projeto fotográfico internacional e, ao Mídia Ninja, conta que em 2020, durante um jogo do clube local ‘’Gimnasia y Esgrima La Plata’’, ela estava interessada em registrar as emoções e reações das torcedoras no momento em que Maradona – técnico do time na época– aparecesse em campo. O que a fotógrafa observou foi de uma energia tão intensa que a fez questionar ‘’Como as mulheres e as minorias vivem o futebol?’’ E assim nasceu um projeto que aborda corporalidades e memória no esporte sob uma perspectiva feminista.
Composto por 88 fotógrafas de onze países da América Latina, o objetivo delas é captar a essência das torcedoras e, principalmente, o que as torna diferentes umas das outras. Em seu próprio território, cada fotógrafa tem uma meta em comum: ampliar a representatividade e traduzir a experiência individual de cada mulher. ‘’Buscamos refletir a complexidade real das experiências ligadas ao futebol. Isso implica incluir diferentes idades, contextos sociais e territoriais, e também diferentes formas de vivenciar a experiência: tanto individual, quanto coletiva. Há retratos íntimos, onde aparece uma única torcedora com sua história, e também cenas compartilhadas, onde o vínculo familiar, afetivo ou comunitário ganha destaque’’, diz Erica Voget.


Com os olhares voltados para as individualidades históricas das torcedoras, suas casas viram cenário, suas camisas de time viram grandes símbolos e seus rostos protagonizam grandes fotografias que dispensam legendas para serem traduzidas.
Corpos Reais
O termo ‘’corpos reais’’ tem uma perspectiva literal, mas também política. No sentido literal, trata-se de abraçar o que é enxergado. As rugas, marcas e traços que existem ali fazem parte do existir de alguém. Politicamente, trata-se de concentrar o olhar para as mulheres no esporte, mostrando sua história, força e paixão pelo clube.
Para Voget, por muito tempo a mídia construiu uma imagem restrita das mulheres no futebol, retratando-as de forma hegemônica e sexualizada. Dando a elas uma única forma de serem representadas nesse meio. ‘’Corpos é uma decisão consciente. O termo faz parte do significado da obra e não se trata apenas de mostrar imagens, mas de levantar questões sobre como as representações são construídas e quais corpos são incluídos ou excluídos delas. Um corpo real, neste contexto, é um corpo com história, identidade e experiência. Um corpo que não se conforma com um modelo único’’, afirmou.
Dessa forma, o ‘corpo real’ deixa de ser apenas uma descrição física e se torna um manifesto que desafia a linguagem e a visão do público, reafirmando que o futebol pertence às mulheres tanto quanto pertence aos homens.

Reafirmar esse lugar de pertencimento às mulheres é crucial para romper com a estrutura tradicional que cerca o futebol. A desconstrução desse olhar masculino passa, necessariamente, por uma nova forma de produzir imagens. Não basta apenas apontar a lente para as mulheres, é preciso mudar a lógica da fotografia. Erica detalha que essa transformação começa no reconhecimento de que nenhuma perspectiva é neutra. ‘’Historicamente, o futebol tem sido narrado a partir de uma perspectiva que define o que deve ser visível e o que pode permanecer à margem. O projeto faz do jogo um espetáculo para a experiência daqueles que o vivenciam. Isso também implica reexaminar a prática fotográfica’’, disse ela.
Para traduzir ainda mais o compromisso com a obra, as quase 100 fotógrafas participantes atuam em diferentes regiões e trabalham a partir de uma estrutura ética e sob uma perspectiva coletiva, prezando sempre pelo diálogo e o consenso.

Apesar das fronteiras geográficas e das particularidades de cada torcedora, o projeto revela que a vivência feminina e não-masculina no futebol compartilha um DNA comum. Ao analisar as diferentes pessoas que já passaram pelo projeto, a diretora e curadora percebe que as semelhanças fazem a coletividade ganhar força. ‘’A intensidade do vínculo com o clube, a construção da identidade e o sentimento de pertencimento são comuns a todas as regiões. Experiências semelhantes de invisibilidade ou de necessidade de legitimar seu lugar no futebol também emergem. O projeto constrói um arquivo que conecta essas experiências e as inscreve em uma memória coletiva’’, ressaltou.
Além disso, para ela, essas semelhanças nos permitem perceber que não se tratam de casos isolados, mas sim de uma estrutura que se reproduz em escala global.
Histórias que precisam ser contadas
Para além dos retratos e dos gritos coletivos, o ‘’Corpos Reais, Torcedoras reais’’ mergulha no íntimo das trajetórias das torcedoras, onde o futebol se torna uma ferramenta de libertação pessoal. Erica recorda que, em meio a tantos registros, algumas histórias saltam das fotografias como símbolos de autonomia, força e pioneirismo. ‘’As histórias são muitas e variadas, mas algumas claramente encapsulam a essência do projeto. Uma delas, é a de Dulcinea, torcedora do Clube Atlético Mineiro. Por muitos anos, seu marido não a permitiu fazer uma tatuagem. Após a morte dele, ela decidiu fazê-la, não só uma mas várias por todo o corpo’’, ressaltou.
A história da brasileira Dulcinea revela como os registros vão além de apenas memórias. Seu gesto fala de autonomia, desejo e uma relação com o futebol que é tanto física quanto política. A liberdade de poder tatuar o próprio corpo, a fez marcar o brasão do seu time na pele, provando que um ‘corpo real’ é, antes de tudo, um corpo que decide.

Sob essa perspectiva, o projeto também inclui grandes figuras como Nora Cortinãs – figura histórica dos direitos humanos na Argentina–, Lucía Topolansky e Nilda Perla Barrios – pioneira do futebol feminino na Argentina–. Suas contribuições demonstram que a relação entre mulheres, pessoas não binárias e o futebol transcende diferentes esferas sociais, políticas e geracionais.

Cada história é única, mas juntas elas constroem um arquivo que revela algo fundamental: mulheres e pessoas não binárias sempre estiveram presentes no futebol. O que faltava era uma representação que as tornassem visíveis. Corpos Reais, Torcedoras reais é sobre criar memórias e resgatar legados.

