Por Paula Cunha – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Em um mundo com tanta coisa ruim, a Copa consegue produzir felicidade coletiva. Em meio à guerra, crise, fome e jornadas de trabalho cada vez mais longas, em um cenário saturado de notícias negativas, a competição cria um raro espaço de alegria compartilhada.
Como uma competição consegue fazer milhões de pessoas sentirem emoções completamente opostas ao mesmo tempo?
De acordo com dados divulgados pela Fifa, na primeira fase da Copa do Mundo de 2026, torcedores compraram quase 1 milhão de garrafas de água, 2,8 milhões de cervejas e 300 mil cachorros-quentes, nos 16 estádios que sediaram o evento. Esses números revelam que a competição não é só o jogo. É ritual. É encontro. Quando estamos juntos, assistindo uma partida de futebol, compartilhamos emoções e experiências.
O Mundial também diminui distâncias. Durante a disputa, o Brasil emocionou até quem nunca pisou no país ou ao menos fala a língua portuguesa. Em nações como Bangladesh, Índia e Vanuatu, existem torcedores que choram, sofrem e comemoram como qualquer brasileiro.
Enquanto isso, em solo brasileiro, antes mesmo da bola rolar, milhões de pessoas já tinham preparado o almoço, o churrasco, o encontro no bar e organizado a rotina em torno dos 90 minutos, compartilhando emoções. A felicidade na Copa sempre convive com a possibilidade de decepção e é nessa incerteza que a gente continua assistindo. Em campo, o resultado não foi o esperado, com a eliminação precoce da Seleção Brasileira, mas, fora dele, a união prevaleceu.
A união através da emoção
A Copa de 2026 teve a maior média de gols da fase de grupos desde 1986, foram 2,99 gols por jogo. Essa é uma edição histórica. A estatística mede a quantidade de gols, mas nada mede o frenesi do torcedor gritando gol e as emoções.
Talvez a filosofia explique melhor do que os números. Para o filósofo holandês Baruch Spinoza, os três afetos primários são desejo, alegria e tristeza. Eles são os afetos fundamentais que organizam nossa vida emocional. Quando estamos alegres, nossa potência aumenta, temos mais energia para agir e nos expandimos. Queremos abraçar quem assiste o jogo com a gente, gritar bem alto os nomes dos jogadores, tocar a corneta com toda a força do pulmão. Já quando ficamos tristes, diminuímos nossa potência e nossa força para existir e agir. É aquele momento que a gente senta no sofá, fala que não vai torcer mais e nem assistir nenhuma Copa do Mundo.
O filósofo chama as paixões de “afetos passivos”, porque são uma força de fora que se impõem entre nós. Elas não estão sob nosso controle, então estamos à mercê delas: “As paixões existem e nós as vivenciamos”, afirma. “Assistir a um belo lance com moderação e equilíbrio eleva o espírito, servindo como uma distração saudável que alivia o cansaço do dia a dia.”
O evento esportivo ultrapassa as quatro linhas, mudam comportamentos fora do estádio e talvez seja um dos poucos momentos em que milhões de pessoas sentem a mesma emoção ao mesmo tempo. Durante semanas, esquecemos que vivemos vidas completamente diferentes e assistimos à mesma história, que pode ser feliz ou triste, doer ou curar. O futebol cria um universo próprio, onde grandes potências podem tremer para países pequenos e esses saírem glorificados.
O mundo continua
Enquanto a Copa acontece, o mundo não entra em pausa. Guerras seguem em curso, crises humanitárias se agravam, a polarização política continua dividindo sociedades e a insegurança econômica faz parte da rotina de milhões de pessoas. Nada disso desaparece quando a bola começa a rolar. Talvez seja justamente por isso que a Copa tenha um efeito tão singular: por algumas semanas, ela cria um raro espaço em que pessoas de países, culturas e realidades completamente diferentes compartilham a mesma história e as mesmas emoções.
Talvez o futebol não sirva para nos fazer esquecer o mundo. Talvez ele sirva para nos lembrar que ainda conseguimos sentir as mesmas coisas juntos. Mesmo quando isso é tristeza e decepção. A desclassificação traz uma sensação de luto que não passa no dia seguinte, quando todo mundo acorda ainda triste e com muitas críticas a fazer. Com o êxtase do gol, nos sentíamos vivos. Onde a gente vai se reunir agora? Para quem vamos torcer?
O doutor e psicanalista Waldemar Magaldi Filho escreveu na Folha de São Paulo: “(a Copa do Mundo) é o último grande ritual de igualdade que nos resta neste planeta fragmentado e polarizado’’. O torneio continua lembrando que, mesmo divididos por fronteiras, idiomas e culturas, ainda existem histórias capazes de fazer o mundo inteiro sentir junto.
O Brasil voltou para casa, mas a Copa continua. E, por mais contraditório que pareça, ainda pode existir alegria em acompanhar a história sendo escrita
