Por Mariana Ribeiro – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Em meio à euforia provocada e vivida neste exato momento pela Copa do Mundo de 2026, é praticamente impossível não pensar na Copa do Mundo Feminina de 2027, que acontecerá no Brasil. Apesar do crescimento significativo na popularidade da modalidade e dos investimentos da competição, ainda há um longo caminho a ser percorrido para alcançar a igualdade. Em um mundo onde o futebol masculino é alvo de grande parte dos holofotes, o futebol feminino luta para sobreviver.
A disparidade entre homens e mulheres é algo que permeia a história da humanidade e com o futebol não é diferente. A Copa do Mundo Feminina de 2027 promete contribuir de maneira social para que o futebol feminino se consolide como potência, enquanto o futebol masculino se reafirma no cenário há décadas. Porém, o evento assumiu um caráter contraditório já durante seu lançamento, no início deste ano, quando o momento foi utilizado como cerimônia para homenagear craques da Seleção Brasileira masculina de futebol e reduziu a atenção destinada às estrelas da modalidade feminina. Apesar da busca por mudanças, o machismo ainda se faz presente em 2026, assim como nas Copas do Mundo Femininas anteriores, que foram marcadas pela falta de protagonismo e visibilidade das mulheres.
História da Copa do Mundo Feminina
A primeira Copa do Mundo Feminina de futebol ocorreu em 1991, na China, 61 anos depois da primeira edição masculina do torneio. A Seleção Brasileira masculina já era tricampeã mundial. O evento só foi possível porque em 88, após muita pressão, a FIFA organizou o primeiro campeonato internacional de futebol feminino oficial como forma de testar o alcance de espectadores, foi um sucesso de público.
Na primeira edição do torneio, 12 seleções foram convidadas: China, Taipé Chinês, Japão, Brasil, Nigéria, Nova Zelândia, Dinamarca, Alemanha, Itália, Noruega, Suécia e Estados Unidos. Os grupos foram divididos em três chaves, com quatro seleções em cada uma delas. Os dois primeiros países de cada chave se classificavam e os dois melhores terceiros colocados também. Os jogos eram divididos em dois tempos de 40 minutos, totalizando 80 minutos de partida, isso porque, de acordo com a FIFA, mulheres não suportariam jogar 90 minutos como as seleções masculinas.
A Copa do Mundo Feminina de 1991 também ficou conhecida como Copa do Mundo M&M, a empresa foi a única patrocinadora da competição. O patrocínio de grandes empresas já era difundido no futebol masculino. A Copa masculina, que ocorreu na Itália no ano anterior, contou com grandes patrocinadores como Coca-Cola, Adidas e Budweiser.
A primeira edição do mundial feminino foi um sucesso e 65 mil pessoas assistiram no Tianhe Stadium a vitória dos Estados Unidos em cima da Noruega na final. Mesmo sem o devido preparo das seleções e com jogadoras utilizando uniformes masculinos, a competição foi um marco importante para que a modalidade fosse incluída nas Olimpíadas de Atlanta de 1996. Nenhuma das seleções participantes recebeu premiação em dinheiro, enquanto na Copa do Mundo Masculina de 90, a Alemanha, que foi campeã, ganhou 3,5 milhões de dólares. Além disso, a edição foi amplamente ignorada e apagada pela grande mídia da época. A primeira Copa do Mundo em que todas as seleções femininas participantes receberam prêmios em dinheiro ocorreu em 2007 e até a última Copa, em 2023, os valores são inferiores aos que beneficiam as seleções masculinas.
Futebol feminino ao longo dos anos
As mulheres jogam futebol desde o século XIX, mas isso não quer dizer que tenha sido uma trajetória tranquila.
Durante a Primeira Guerra Mundial, na Inglaterra, quando os homens foram para os campos de batalha, as mulheres os substituíram nas fábricas e assim surgiram times compostos por mulheres operárias. A iniciativa surgiu como meio para melhorar o seu condicionamento físico e como forma de arrecadação de dinheiro para o exército inglês. O Dick, Kerr’s Ladies F.C, foi um dos principais times da época e representa um marco histórico importante, responsável por revolucionar o futebol feminino. As mulheres desde muito antes da primeira Copa do Mundo Feminina já possuíam competições não oficiais.
No Brasil, na década de 30, o futebol se popularizava em meio à massa e os homens já defendiam que o esporte era muito violento e que era responsável por desequilibrar as funções orgânicas das mulheres que as permitiam ser mães. A modalidade enfrentou uma forte rigidez da mídia e da sociedade do período. Durante a ditadura implementada no governo Vargas, em 41, os ditos esportes que eram incompatíveis com a natureza feminina foram proibidos. Desse modo, o esporte passou por 38 anos de clandestinidade, foi a única maneira de manter a modalidade viva. Atletas foram detidas e a ex-nadadora Maria Lenk foi uma peça chave na CPI que resultou na liberação da prática esportiva. O futebol feminino brasileiro foi legalizado apenas em 1979, um ano após o nascimento de Formiga, um dos maiores nomes do futebol feminino nacional. Apenas em 1983 o futebol feminino foi regulamentado no Brasil.
O que esperar da Copa do Mundo de 2027?
A Copa do Mundo de 2027 é a décima edição do torneio e será a primeira disputada em território sul-americano, no Brasil. A competição contará com 32 seleções de várias partes do mundo. O governo brasileiro promete produzir a maior Copa do Mundo Feminina já vista em um âmbito socioeconômico e estrutural. Murais de arte de rua já foram inaugurados em oito cidades brasileiras, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Há um ano da edição histórica, o principal desejo é ver os estádios brasileiros lotados.
Em meio às expectativas financeiras, a premissa de que será uma Copa pensada para que outras meninas se espelhem nas atletas do mundo todo que passarão pelo Brasil e o ideal de uma competição mais igualitária, se comparada à competição masculina, é importante que as mulheres não percam seu protagonismo.
O Brasil é o país do futebol, mas, de fato, é para todos? Enquanto as mulheres se destacam em campo, os prêmios, salários milionários, a visibilidade e o reconhecimento continuam sendo uma dádiva masculina, mesmo durante as fases ruins. A cultura esportiva privilegia o masculino e o machismo acompanha as atletas desde o início de sua formação, apesar de seu talento e brilho serem indiscutíveis.
