A força criativa da Amazônia brasileira ganhou um capítulo especial na 6ª edição do Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato, uma das principais premiações do setor no país. Entre as 100 unidades produtivas selecionadas em todo o Brasil, artesãos e cooperativas dos estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Tocantins e Maranhão) mostraram que floresta, cultura e empreendedorismo caminham juntos.
O prêmio, promovido pelo Sebrae desde 2006, reconhece as unidades de produção artesanal mais competitivas do país, avaliando critérios como gestão, inovação, identidade cultural, sustentabilidade e capacidade de comercialização. Como recompensa, os vencedores recebem o selo Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato, válido por três anos, além de apoio para participar da cerimônia de premiação, marcada para novembro, no Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB), no Rio de Janeiro. E da divulgação de seus produtos no catálogo oficial da premiação.
A Amazônia representada em múltiplas frentes
O resultado da 6ª edição confirma a diversidade e a pujança do artesanato amazônico. São dezenas de mãos espalhadas por comunidades ribeirinhas, indígenas e urbanas que carimbaram presença entre os 100 melhores do Brasil, entre elas:
- Amazonas, o estado com maior número de representantes da região, com nomes como Alva Tuyuca Artesanato (Barcelos), Assai SGC e Casa da Arte (São Gabriel da Cachoeira), Associação dos Artesãos Teçume da Floresta (Careiro), Bonecaria da Amazônia (Iranduba), Celdo Braga Bioinstrumentos Amazônicos (Manaus), Dina Piaçasuiwara (Barcelos), Mateus Pereira (Parintins), Teçume da Amazônia (Maraã) e a Cooperativa de Trabalho de Artesanato Amazonense (Copamart), de Manaus;
- Pará, com Jefferson Paiva de Sousa e Trançados do Arapiuns (Santarém), além da cooperativa Mulheres de Barro, de Parauapebas;
- Acre, representado por Cores da Mata Biojoias (Rio Branco) e Maqueson P Silva Ltda (Cruzeiro do Sul);
- Rondônia, com Evandro Pires, de Porto Velho;
- Tocantins, com a Acappm e Fios Dourados, ambas de Mateiros;
- Maranhão, com a Associação das Rendeiras da Praia da Raposa e José Carlos Martins, de São Luís.
Essa presença consolida a Amazônia como um dos grandes polos de identidade e inovação do artesanato nacional, um artesanato que carrega grafismos ancestrais, técnicas de trançado indígena, cerâmica, biojoias e saberes tradicionais transmitidos de geração em geração.
Cooperativismo que gera renda e mantém tradições vivas
Dentro desse universo, um destaque especial merece ser feito às cooperativas, modelo de organização que une artesãos em torno da força coletiva, da autogestão e da geração de renda compartilhada. Entre as cinco cooperativas vencedoras da 6ª edição do TOP 100 em todo o Brasil, duas representam a força do cooperativismo amazônico: a Copamart, do Amazonas, e a Mulheres de Barro, do Pará, prova de que trabalhar em conjunto potencializa a qualidade, a gestão e o alcance comercial do artesanato regional.
Cooperativa Mulheres de Barro: a cerâmica que resgata seis mil anos de história
Entre as cinco cooperativas premiadas no país, uma história em especial ilustra o poder transformador do artesanato: a da Cooperativa Mulheres de Barro, de Parauapebas, no sudeste do Pará.
A cooperativa nasceu em meio a uma paisagem marcada pela exploração mineral. A instalação do projeto Salobo — um dos maiores empreendimentos de extração de cobre do país, dentro da Floresta Nacional do Tapirapé-Aquiri — segue uma lógica ainda predatória de desenvolvimento, que historicamente avança sobre territórios, corpos e modos de vida em nome do lucro, deixando marcas ambientais e sociais profundas na Amazônia e alimentando uma promessa desenvolvimentista que racializa não só quem vive na região, mas o próprio território. Foi nesse cenário de tensão entre exploração e memória que pesquisas arqueológicas, conduzidas com apoio do Museu Paraense Emílio Goeldi, encontraram vestígios cerâmicos com cerca de seis mil anos de existência, produzidos por povos que viviam às margens do rio Itacaiúnas e de seus afluentes. É nesse contexto que a Mulheres de Barro se firma como elo de resistência e preservação da memória ancestral do território, transformando o saber arqueológico em ferramenta de permanência cultural diante do avanço predatório sobre a floresta e sobre quem nela vive.
Foi a partir das oficinas de educação patrimonial, hoje uma exigência do Iphan em processos de licenciamento arqueológico, que um grupo de mulheres da região passou a aprender sobre essa história e, literalmente, a colocar as mãos na massa. Sandra dos Santos Silva, presidente da cooperativa, conta que o grupo não sabia trabalhar com cerâmica e aprendeu tudo do zero ao longo de seis anos de formação, em um processo que ela descreve como uma verdadeira virada de chave em suas vidas.
Hoje, a Mulheres de Barro reúne 22 cooperados, sendo 18 mulheres e 4 homens, que produzem peças cerâmicas inspiradas nos grafismos de povos que habitaram a região há milênios, aplicando também pigmentos minerais extraídos localmente para dar cor às peças. Mais do que artesanato, o trabalho da cooperativa é hoje reconhecido como símbolo da identidade cultural de Parauapebas, batizado de cerâmica Tapirapé-Aquiri.
Para Sandra, o diferencial da cooperativa vai muito além da técnica: é sobre estimular o empoderamento e autonomia de mulheres através da arte, criar senso de pertencimento ao território e gerar renda para as famílias envolvidas. A cooperativa também atua na formação de novos artesãos, ministrando cursos e oficinas que ajudam a manter viva a memória ancestral da região, e a floresta onde esses artefatos foram encontrados.
A conquista do TOP 100 Sebrae de Artesanato chega, assim, como reconhecimento nacional de uma trajetória que começou como um desafio comunitário e hoje é referência de cultura, sustentabilidade e força feminina na Amazônia. Para Sandra, esse reconhecimento tem um significado que vai além do troféu: “a importância é da visibilidade para a produção do artesanato brasileiro em todas as regiões e nos municípios mais longínquos, que é o caso do nosso, Parauapebas, Pará”, destaca a presidente da cooperativa.
Um selo de qualidade para toda a região
Além do orgulho simbólico, a chegada ao TOP 100 traz benefícios concretos para as cooperativas e artesãos vencedores: o direito de uso do selo Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato por três anos, a divulgação de até três produtos no catálogo oficial da premiação, apoio para participar da cerimônia nacional em novembro, no Rio de Janeiro, e o convite para ações de promoção comercial após o evento, passos importantes para ampliar mercados e fortalecer o faturamento de quem vive da arte manual.
Fica o reconhecimento a todos os artesãos e cooperativas da Amazônia Legal que, com criatividade, resistência e trabalho coletivo, seguem colocando a floresta e suas histórias nas mãos, e agora, também, no mapa do melhor artesanato do Brasil.
