Por Sofia Missiato Barbuio
Quando não está escalando, Milena Martins gosta de jogar futebol, brincar na rua, assistir animes e passar tempo com a família. A cena poderia descrever qualquer adolescente de sua idade, mas basta chegar o início da semana para que a rotina mude completamente. Entre escola, fisioterapia, horas de treinamento e longos trajetos de ônibus por Brasília, ela alimenta um sonho que parece grande até para muitos adultos: disputar uma Olimpíada.
A escalada entrou em sua vida durante a pandemia, quase por acaso. O tio, apaixonado por esportes, ajudou amigos a montar um pequeno muro de escalada em uma casa da capital federal e a convidou para experimentar. O que começou como uma brincadeira rapidamente virou paixão. “Eu fui e gostei muito”, resume. Desde então, nunca mais deixou de treinar.
Antes disso, a atleta já havia experimentado diferentes modalidades. Já fez balé, natação e jiu-jítsu, esporte que praticava quando conheceu a escalada. Mas foi na parede que encontrou algo diferente. No início, a diversão era suficiente. Com o passar do tempo, veio a vontade de evoluir, competir e descobrir até onde seria capaz de chegar. Hoje, sua principal motivação continua sendo simples: melhorar a cada treino e, um dia, disputar os Jogos Olímpicos.

A rotina para perseguir esse objetivo exige uma disciplina incomum para alguém tão jovem. Depois das aulas pela manhã, Milena segue para a fisioterapia. Em seguida, atravessa a cidade novamente para o treinamento específico de escalada, que dura quase três horas. Só então retorna para casa. É uma rotina intensa, construída muito antes da maioridade, mas que ela encara com persistencia e determinação.
Mais do que resultados, a escalada transformou sua personalidade. Milena, que se descreve como extremamente tímida, encontrou no esporte a confiança para se expressar nos espaços. “Eu era uma criança muito tímida e, com o tempo, o esporte me trouxe a confiança de falar mais e de me expressar mais. Se não fosse a escalada, eu seria bem mais fechada e isso fecharia algumas portas na minha vida.”
Essa maturidade também aparece na forma como encara as competições. Em vez de pensar apenas no resultado, procura lembrar dos conselhos do treinador antes de entrar em uma final: divertir-se. Para ela, quando a escalada deixa de ser prazer e se transforma apenas em obrigação, o desempenho também sofre. É uma filosofia simples, mas que revela uma compreensão precoce sobre o aspecto mental do esporte de alto rendimento.

Fora das competições, a preparação também passa pela alimentação. Durante boa parte da temporada, prioriza proteínas, carboidratos e gorduras boas. Em uma fase recente, seguiu um plano alimentar voltado para o ganho de massa muscular, elaborado por uma nutricionista. Próximo das competições, reduz o consumo de açúcar. Tudo faz parte de um processo que, apesar da pouca idade, já é conduzido com profissionalismo.
Nos últimos anos, tornou-se personagem do documentário Escalando o Mundo, dirigido pelos cineastas Rodrigo Rangel e com produção de Larissa Corino. A produção acompanha sua trajetória dos 12 aos 14 anos, registrando sua evolução técnica na escalada e as longas viagens até os locais de prática, os desafios de conciliar escola e esporte e as barreiras enfrentadas por uma jovem da periferia do Distrito Federal para se desenvolver em uma modalidade ainda pouco acessível no Brasil.
No início, a presença constante das câmeras a intimidava. Aos poucos, conforme a convivência aumentou, elas deixaram de ser um obstáculo. “Depois a gente vai conhecendo a pessoa e se acostumando”, lembra. A expectativa é que o filme estreie esse ano.

É justamente essa trajetória que Milena gostaria que fosse mais conhecida. Segundo ela, as medalhas são apenas a parte visível da história. Por trás de cada resultado há anos de dedicação, viagens cansativas, treinos em condições limitadas e o esforço constante para seguir competindo. Para a atleta, reconhecer esse caminho é tão importante quanto celebrar as vitórias.
Se Milena pudesse voltar no tempo para conversar com a menina que experimentou pela primeira vez aquele muro improvisado durante a pandemia, deixaria um conselho: “Não se comparar tanto com os outros, fazer mais o seu e escutar mais o treinador.”
Talvez seja justamente essa combinação entre leveza e ambição que torne Milena Martins uma atleta diferente. Enquanto sonha em vestir a camisa do Brasil nos maiores palcos do esporte mundial, ela continua encontrando felicidade nas coisas mais simples: uma partida de futebol na rua, um episódio de anime na Netflix e a certeza de que, no dia seguinte, haverá mais uma parede esperando para ser escalada.
