Comunidades, coletivos e agentes culturais do arquipélago do Marajó, no Pará, articulam uma campanha pela repatriação de coleções arqueológicas marajoaras que estão em museus fora do Brasil. O Manifesto Marajoara reivindica a devolução das peças e a adoção de medidas que garantam às populações locais o acesso ao patrimônio ancestral, com a implantação de espaços de memória e programas de educação patrimonial em diferentes municípios da região.
O abaixo-assinado, publicado na plataforma Change.org, pede que órgãos públicos brasileiros adotem medidas políticas e diplomáticas para recuperar as coleções. No momento da consulta informado na página da campanha, o documento reunia 849 assinaturas. Acesse e assine o manifesto.
Foto: Denver Art Museum
O movimento argumenta que a cerâmica arqueológica marajoara representa parte fundamental da identidade cultural das comunidades locais. O patrimônio, segundo o texto, não se limita aos objetos preservados em museus: inclui também conhecimentos ancestrais sobre matérias-primas, técnicas de produção cerâmica, grafismos e outros saberes associados à tradição.
O manifesto aponta que parte das coleções foi retirada de sítios arqueológicos do Marajó e levada para instituições estrangeiras, em circunstâncias que nem sempre são conhecidas pelas comunidades. Os autores também questionam a situação de peças que permanecem em acervos sem exposição pública, o que, na avaliação do movimento, restringe o acesso da população à própria história.
Repatriação inclui reparação cultural e acesso ao patrimônio
A proposta vai além da devolução dos objetos. O documento defende a criação de memoriais, museus e espaços pedagógicos em diferentes pontos do arquipélago, além da formação de profissionais locais nas áreas de arqueologia, museologia e educação patrimonial.
A iniciativa considera a extensão territorial do Marajó, que reúne 17 municípios e mais de 500 mil habitantes, segundo o manifesto. Para os signatários, a concentração dos acervos em instituições distantes dificulta o acesso das comunidades a esse patrimônio.
O texto também reivindica programas permanentes de educação patrimonial, tanto para prevenir a retirada ilegal de peças arqueológicas quanto para ampliar a preservação, a pesquisa e a socialização das coleções já existentes. As ações, segundo a proposta, devem ser construídas de forma participativa, em diálogo com as comunidades marajoaras.
Entre as instituições apontadas como possíveis parceiras estão o Museu Paraense Emílio Goeldi, a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Secretaria de Estado de Cultura do Pará (Secult). O manifesto também será encaminhado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), ao Ministério das Relações Exteriores e a entidades ligadas à arqueologia e à defesa do patrimônio cultural.
A mobilização ocorre em um contexto de debates internacionais sobre a restituição de bens culturais retirados de seus territórios de origem. No Brasil, o retorno do manto Tupinambá, que estava na Dinamarca, e a repatriação do fóssil Ubirajara jubatus, que se encontrava na Alemanha, são citados no documento como referências para a reversão de processos históricos de apropriação.
No próprio Marajó, o movimento destaca a mobilização comunitária para a implantação de museus e memoriais, além da reformulação do Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari, com apoio do governo estadual, como iniciativas para ampliar as condições de preservação de coleções arqueológicas no território.
A reivindicação central do manifesto é que a repatriação seja acompanhada de condições para a guarda, a pesquisa, a preservação e o acesso público aos acervos. Para os signatários, recuperar as peças significa também fortalecer a transmissão dos conhecimentos ancestrais e assegurar que as próximas gerações possam conhecer e usufruir do patrimônio cultural marajoara.
Fonte: Mídia Ninja.
