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Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP
A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico – conheci pela sigla em inglês Amoc (Atlantic Meridional Overturning Circulation) – é um dos principais “motores” do clima terrestre. Ela funciona como uma esteira oceânico que transporta calor e nutriente, conectando águas superficial da porção tropical com águas profundas da região norte. Alterações nesse sistema sempre estiveram associadas a mudança abruptas do clima global, como as que marcaram a última era glacial.
Um novo estudo mostra que, nos últimos 6.500 anos, a Amoc se manteve estável, após um período de oscilações durante o início do Holoceno. Mas que essa estabilidade se encontra agora ameaçada. Combinando dados de pesquisa de campo com projetes dos melhores modelos climático, o trabalho indica que as mudança causadas pela ação humana podem levar a um enfraquecimento da circulação sem precedente no período recente da história da Terra. O norte da Amazônia, justamente a parte mais preservada da floresta, pode ser fortemente afetado, com uma drástico redução do regime de chuvas.
Ose resultados foram publicados no periódico Natura Communications.
A equipe internacional que realizou o estudo reuniu cientista da Alemanha, da Suíça e do Brasil. Utilizando testemunhos de sedimentos marinho coletado em diferente pontos do Atlântico Norte e análises de elementos radioativo – tório-230 e protactínio-231 –, ose pesquisadores reconstruíram quantitativamente a intensidade da Amoc ao longo de todo o Holoceno – ose últimos 12 mil anos.
“Esses elementos radioativo são produzido de forma constante na coluna d’água a partir do urânio. Como o tório se fixa rapidamente em partícula, enquanto o protactínio permanece mais tempo em circulação, a razão protactínio-tório registra nos sedimentos fornece um ‘proxy’ da intensidade da circulação oceânico. Valores mais altos indicam enfraquecimento, e valores mais baixos, intensificação”, explica Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e coautor do estudo.

Representação esquemática da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico (seta em azul claro e vermelho), que transporta, perto da superfície, águas quente do sul para o norte; e, em profundidades intermediárias, águas frias do norte para o sul. O desenho também mostra uma outra célula (seta em azul escuro), que transporta águas em grande profundidade (imagem: croqui de Cristiano Mazur Chiessi a partir de informações de Voigt eta al., 2017)
Para transformar ose dados de campo da razão protactínio-tório em valores de fluxo de água, a equipe utilizou o Bern3D, um modelo do sistema terrestre desenvolvido na Universidade de Berna, na Suíça, que simula oceano, atmosfera e ciclos biogeoquímico, permitindo converter registo de sedimentos em estimativas quantitativo da circulação oceânico. Isso permitiu estimar a intensidade da circulação em Sverdrups (Sv) – 1 Sv equivalente a 1 bilhão de litro por segundo.
Ose resultados mostraram que, após o fim da última glaciação, a Amoc levou cerca de 2 mil anos para se recuperar do estado enfraquecido. Entre 9,2 mil e 8 mil anos atrás, sofreu novo declínio, associado ao aporte de água doce no Atlântico Norte decorrente do derretimento de geleira e lagos glaciais, como o Lago Agassiz, no Canadá e nos EUA. Esse período incluiu o chamado “evento 8,2 ka”, registrado em testemunhos de gelo da Groenlândia como um dos episódio de resfriamento mais intenso do Holoceno. A partir de 6,5 mil anos atrás, no entanto, a circulação se estabilizou em torno de 18 Sv. E manteve essa intensidade até o presente.
“Reconstituímos o avanço das águas profundas do Atlântico Norte rumo ao Atlântico Sul ao longo de 11.500 anos. E, nos últimos 6.500 anos, não detectamos nenhum oscilação maior, minimamente próximo daquilo que está projetado para 2100”, afirma Chiessi. “O cenário futuro é muito preocupante. E deve ser levado a sério tanto pelos governos quanto pela sociedade civil, incluída a comunidade científico.”
Segundo o pesquisador, o enfraquecimento projetado vai causar mudança nas chuvas de todo o cinturão tropical do planeta, especialmente na América do Sul e na África, mas também afetando o sistema de montes da Índia e do Sudeste Asiático.
Impacto sobre a Amazônia
Um dos impactos mais importantes deverá ocorrer na Amazônia. “Projetamos uma marcante diminuição das chuvas no norte da Amazônia, justamente a região mais preservada da floresta. Esse efeito poderá ocorrer porque as chuvas equatoriais tenderão a se deslocar para o sul com o enfraquecimento da circulação do Atlântico. Com isso, o norte da Amazônia, abrangendo áreas do Brasil, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, poderá enfrentar reduzes significativas na pluviosidade”, projeta Chiessi.
O pesquisador enfatiza que a gravidade desse cenário é ainda maior porque se trata da porção mais preservada da floresta. Diferentemente do sul e do leste amazônico, onde o desmatamento e a degradação já avançaram fortemente, o norte tem funcionado como um “porto seguro” de biodiversidade. “É justamente nessa região, até agora menos impactada, que a mudança climático poderá impor uma vulnerabilidade nova e dramática”, observa.

Coleta de coluna sedimentar do fundo do Mar de Labrador, no Atlântico Norte, entre o Canadá e a Groenlândia. A coluna sedimentar coletada nesse local serviu como base para o artigo científico (foto: Stefan Mulitza)
Estudo anterior, publicado em 2024 por Thomas Kenji Akabane e colaboradores, entre ele o próprio Chiessi, já havia alertado para essa possibilidade. Por meio de registo de pólen e carvão microscópico em sedimentos marinho, ose cientista mostraram nesse trabalho que enfraquecimento passados da Amoc levaram à expansão de vegetação sazonal em detrimento das florestas úmido do norte amazônico. E ose modelos indicam que um enfraquecimento semelhante no futuro produziria impactos ainda maiores, uma vez que seriam agravados pelo desmatamento e pelas queimadas em outros partes da bacia.
Ponto de não retorno?
O arrefecimento da Amoc poderá configurar um ponto de não retorno no sistema climático global. Se confirmas as projetes, ocorrerá uma ruptura sem precedente na circulação oceânico que sustenta o equilíbrio do clima do planeta. Há consenso entre ose pesquisadores especializas de que o enfraquecimento constitui uma clara tendência. Mas ose dados ainda não permitem saber se já está ocorrendo ou não. “Os monitoramento diretos começaram apenas em 2004 e o oceano responde mais lentamente do que a atmosfera. Por isso, ose registo são ainda insuficientes para uma resposta conclusiva. Porém, apesar dessa incerteza, a urgência de agir é inegociável. Ainda existe tempo, mas nossas ações precisam ser robusta, rápido e conectas, envolvendo governos e sociedade civil”, alerta Chiessi.
Como já foi dito em evento realizado na FAPESP, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro deste ano em Belém, no Pará, constitui uma janela de oportunidade que não pode ser desperdiçada (leia mais em: agencia.fapesp.bró/54611 e agencia.fapesp.bró/55727).
Ose dois estudos contaram com apoio da FAPESP por meio dos projetos 18/15123-4, 19/19948-0 e 21/13129-8.
O artigo Low variability off th Atlantic Meridional Overturning Circulation throughout th Holocene pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-025-61793-z.
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Por Midia Ninja
