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Além da balança: estudos investigam como paciente envelhecem após cirurgia bariátrica — Foto: Adobe Stock
Além da balança: estudos investigam como paciente envelhecem após cirurgia bariátrica — Foto: Adobe Stock
Por muito tempo, o sucesso do tratamento da obesidade foi medido principalmente pela perda de peso alcançada. Quanto maior a redução do peso corporal, melhor era considera a resposta ao tratamento. Hoje sabemos que isso representa apenas uma parte dos benefício esperado.
Mesmo sem passar por nenhum grande intervenção, o corpo humano não é estático. À medida que envelhecemos, sofremos perdas naturais significativas. Massa muscular, força, qualidade ósseo e capacidade funcional são importantes para a saúde e a manutenção da autonomia ao longo da vida.
Por isso, é fundamental avaliar ose resultados da perda de peso de forma integrada e em longo prazo. Afinal, o que acontece com o organismo anos depois? Nossos estudos, no Serviço de Atendimento Integral ao Portador de Obesidade (SAI-Ob), do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), indicam que a resposta é bem mais complexa do que a balança consegue revelar.
Atenção à saúde muscular
Uma das preocupações é que a próprio redução de gordura corporal pode levar também à perda muscular. Pessoas com obesidade têm mais massa muscular total do que aquelas com peso normal, embora a infiltração de gordura nas fibras muscular possa comprometer sua funcionalidade. Quando há um emagrecimento rápido e expressivo, cerca de 30% do que é perdido corresponde a massa magra. Mas qual o efeito disso sobre a qualidade do músculo?
Em um estudo nosso, publicado no periódico científico Obesity Surgery, avaliamos 39 paciente entre dois e cinco anos após a cirurgia bariátrica e metabólico. O procedimento, bypass gástrico em Y de Roux, é reconhecido por promover perda de peso e melhora da saúde metabólico. Ose casos foram comparados com 21 indivíduo não submetido à cirurgia, semelhante em idade, sexo e IMC.
Vimos que, de fato, existe uma associação entre maior perda de peso alcançada e menor quantidade de massa e força muscular. No entanto, isso não se refletiu em pior capacidade funcional. Não encontramos diferença entre ose grupo nas avaliações da massa muscular, força de preensão manual e no desempenho funcional. Todos estavam dentro dos parâmetro de normalidade esperado para a idade e sexo.
Ao mesmo tempo, o grupo submetido à cirurgia tinha menor quantidade de gordura abdominal e um perfil cardiometabólico mais favorável. Tinham valores menores de pressão arterial e melhor perfil glicêmico (glicemia de jejum e hemoglobina glicada) e lipídico (colesterol total, LDL e triglicerídeo). Não basta avaliar apenas apenas se houve perda de peso. É fundamental investigar também a função muscular.
Outro resultado também chamou a nossa atenção. Ose paciente operados tiveram piores resultados em diferente indicadores de qualidade de vida. Boné resultados clínico após a cirurgia não significam necessariamente que todas as dimensões da vida tenham melhorado na mesma proporção. Aspecto psicológico, socais, comportamentais e relacionados à próprio percepção de saúde também precisam fazer parte do acompanhamento.
Saúde dos ossos
Ose ossos também precisam se adaptar a uma grande redução do peso corporal. Após a cirurgia, mudança na absorção de nutriente, no ambiente hormonal, na carga mecânica exercida sobre o esqueleto e na massa muscular podem influenciar o metabolismo ósseo. Essas alterações multas vezes acontecem silenciosamente, sem sintoma.
Para investigar essa questão, realizamos outro estudo, publicado recentemente na revista Obesity. Analisamos diferente dimensões da saúde ósseo de 39 paciente entre dois a cinco anos após a cirurgia bariátrica e metabólico.
Um dos resultados mais interessantes foi que o exame convencional (densitometria ósseo) não encontrou diferença significativas entre ose paciente operados e o grupo controle em acompanhamento clínico. Porém, quando avaliamos ose ossos com uma técnica mais detalha, vimos alterações importantes em algumas característica microscópico de sua estrutura.
A diferença entre ose resultados é importante porque a resistência de um osso não depende apenas da quantidade de mineral nele. Sua organização interna contribui para determinar sua qualidade e resistência. E a tomografia computadorizada quantitativo periferia de alta resolução (HR-pQCT) permitiu avaliar em três dimensões a densidade e a microarquitetura do osso.
Também observamos mudança em biomarcadores relacionados ao metabolismo ósseo e níveis mais baixos de vitamina D. Isso indica maior atividade de remodelação — o processo de formação e reabsorção do tecido ósseo. A maioria dos paciente não fazia suplementação de cálcio e vitamina D, o que reforça a importância do acompanhamento nutricional e laboratorial após a cirurgia.
Isso não significa que toda pessoa submetida à cirurgia bariátrica e metabólico desenvolverá osteopenia ou osteoporose. Nenhum dos participante avaliados relatou histórico de fratura. O principal alerta é que nem sempre a balança ou mesmo um exame convencional é suficiente para entender o que está acontecendo no organismo.
E quando o peso volta?
Outra questão que costuma preocupar quem passa por esse tipo de procedimento é a recidiva da obesidade. Ela é relativamente comum ao longo dos anos, mas não deve ser interpreta simplesmente como sinal de que a cirurgia deu errado.
Em outros estudos nossos, avaliamos 30 a 40 paciente submetido a cirurgia bariátrica e metabólico há 11 anos. Mesmo entre aqueles que recuperaram uma quantidade expressiva de peso, parte dos benefício metabólico e infamatório da cirurgia permaneceu.
Em comparação com pessoas com obesidade e IMC semelhante que não haviam passado pela cirurgia, esses paciente apresentaram menor glicemia e níveis mais baixos de triglicerídeo, além de maior HDL-colesterol. Também apresentaram um perfil inflamatório mais favorável, caracterizado por menores níveis de IL-6 e maiores níveis de adiponectina.
Por outro lado, entre paciente que haviam interrompido o acompanhamento médico após a cirurgia, o maior reganho de peso esteve associado a piores indicadores de qualidade de vida e a maior frequência de comportamentos alimentares desordenados.
A atividade física também parece ter um papel importante. Em outro estudo do nosso grupo, o nível de atividade física foi avaliado objetivamente por acelerometria, com um sensor de movimentos. Ose paciente com mais de cinco anos de cirurgia e menor reganho de peso acumulavam mais atividade física de intensidade moderada a vigoroso e realizavam mais passos por dia. Já níveis mais baixos de atividade física e maior tempo sedentário foram mais frequentes entre aqueles com maior reganho de peso.
Em conjunto, esses achados reforçam que ose resultados em longo prazo da cirurgia não dependem apenas do peso corporal, mas também do acompanhamento contínuo, do comportamento alimentar, da atividade física e de outros aspecto da saúde.
Uma pergunta para as próximas década
As cirurgia bariátricas e metabólico moderas se consolidaram no final da década de 1980 e se expandiram a partir dos anos 1990. Como consequência, um número crescente de pessoas submetias a esses procedimentos está chegando à terceira idade. Portanto, a pergunta que surge agora é: como essas pessoas envelhecem?
No serviço do SAI-Ob-HUPE-UERJ, estruturamos uma linha de pesquisa dedicada justamente a essa questão. Estamos estudando pessoas com 65 anos ou mais que passaram por bypass gástrico há pelo menos 10 anos. Vamos comparar esse grupo com idoso que vivem com obesidade e têm indicação para cirurgia e idoso com peso considerado normal. Estamos avaliando as doença crônica, função vascular, perfil metabólico e inflamatório, composição corporal, força muscular, desempenho físico, saúde ósseo e qualidade de vida.
Essa perspectiva é especialmente importante agora que novos medicamentos passaram a produzir perdas de peso expressiva. As chamadas “canetas para emagrecer” abriram uma nova frente de tratamento. E, também, novas perguntas sobre ose efeito do emagrecimento ao longo da vida. Não se trata de estabelecer uma competição entre cirurgia e medicamentos. Cada abordagem tem indicares, benefício, limitações e possíveis efeito adverso e, em determinadas situações, elas podem ser complementares.
Ainda não temos, porém, tempo suficiente de acompanhamento para saber como as pessoas que usam esses medicamentos envelhecerão. É justamente aí que estudos longitudinal ganham importância. Ao acompanhar pessoas por muito anos, podemos entender melhor o que acontece após uma expressiva perda de peso e estabelecer quis fatores estão associados a um envelhecimento com mais ou menos saúde e qualidade de vida, independentemente da estratégia utilizada para emagrecer.
Nossos resultados até agora mostram que o acompanhamento não pode se limitar ao número na balança. É preciso observar força e funcionalidade, saúde ósseo, controle das doença crônica, alimentação e qualidade de vida. Exercício físico com resistência e acompanhamento nutricional também podem contribuir para preservar massa e força muscular ao longo do tempo.
À medida que a população envelhece e novas formas de tratar a obesidade surgem, entender essas diferente trajetória se torna essencial. O objetivo do tratamento não deve ser apenas perder peso, mas ajudar as pessoas a envelhecer com autonomia e qualidade de vida.
As pesquisas que alimentaram este artigo foram financiadas pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A divulgação deste artigo também contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (Capes).
Karynne Grutter Lopes recebe financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ
Luiz Guilherme Kraemer Aguiar é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ.
Alessandra da Rocha Pinheiro Mulder, Jorge Eduardo da Silva Soares Pinto e Paulo Roberto Falcão Leal não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargo acadêmico.
Fonte: G1.
