Cientistas lançam painel global com mais de 400 pesquisadores para acelerar saída dos combustíveis fósseis

Portal Inhaí
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No marco da primeira Conferência Internacional sobre Transição para Fora dos Combustíveis Fósseis, realizada na cidade caribenha de Santa Marta, cientistas de todo o mundo lançaram nesta sexta-feira o Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET, na sigla em inglês), um corpo consultivo com mais de 400 pesquisadores criado para traduzir o conhecimento científico em políticas concretas de abandono dos fósseis.

O painel nasce como resposta direta a uma demanda formulada na COP30, em Belém, onde o presidente do país anfitrião da conferência, Luiz Inácio Lula da Silva, convocou as nações a construir um mapa do caminho para acelerar a saída dos fósseis. A iniciativa foi direcionada a Johan Rockström, do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, e a Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), e conta com apoio oficial da Presidência brasileira da COP30 e dos governos da Colômbia e da Holanda.

Entre os três presidentes do SPGET está Gilberto de Martino Jannuzzi, professor de sistemas de energia da Unicamp. Para ele, o desafio não é a falta de ciência, mas o acesso a ela, especialmente para quem mais vai sentir as consequências. “O Sul Global é onde os grandes desafios vão ser enfrentados, onde o clima vai colocar desafios muito grandes para populações que historicamente foram as que menos contribuíram para esse problema”, afirmou. Jannuzzi também destacou a importância de levar o conhecimento científico para além das universidades: “Nós temos um desafio gigante e a ciência tem algumas opções para oferecer, mas precisamos melhorar a comunicação científica, especialmente para os tomadores de decisão e para a sociedade no geral.”

Um dos dois secretariados do SPGET está sediado na USP. O climatologista Carlos Nobre ressaltou a urgência do momento: “A transição está acelerando, mas o painel científico vai mostrar a importância de acelerar ao máximo, zerar os combustíveis fósseis rapidamente, vai apresentar todas as vantagens de fazer isso, como buscar um novo sistema econômico e político.”

Para Johan Rockström, o painel tem também um papel diplomático. “A razão pela qual este painel é tão importante é dupla: de um lado, trata-se de uma transição complexa que envolve economia, meio ambiente, equidade e elementos fundamentais de justiça. De outro, vejo a ciência desempenhando um papel de ponte entre os países que querem avançar mais rápido na transição e aqueles que ainda duvidam. É uma forma de integrar gradualmente a todos.”

A ministra colombiana do Meio Ambiente, Irene Vélez Torres, destacou o caráter inédito da iniciativa: “Este painel não só repara uma dívida histórica, sendo o primeiro organismo dedicado, enfim, à superação dos combustíveis fósseis na matriz energética, como também nos fala de outro tipo de desafios: quais são as limitações sociais e econômicas para fazer essa transformação o mais rápido possível. Este painel é o primeiro em seu tipo, desenhado para organizar, nos próximos cinco anos, a evidência científica que permita a cidades, regiões, países e coalizões dar esse grande salto.”

Transição justa

O reitor da Universidade de Magdalena, Pablo Vera Salazar, alertou que a mudança energética não pode repetir os erros da exploração fóssil sobre as comunidades locais. “Nós sofremos o que foi a exploração de carvão quando fecharam La Guajira e milhares de famílias ficaram sem os empregos que geravam essa companhia e ainda com os impactos ambientais que deixaram as minas de carvão a céu aberto. Essa transição não pode fazer o mesmo e apenas deixar de explorar nossas terras, nossa riqueza mineral, para agora explorar nossos ventos, nosso sol, montar grandes parques solares e eólicos no meio das comunidades que estão nessa região e elas continuem sem energia, sem água e continuem vivendo na mesma condição de pobreza que estavam antes.” 

Para ele, o diálogo entre Norte e Sul precisa ser simétrico: “Os custos negativos do uso da energia fóssil que se tirava dessa terra e que alimentava o modelo produtivo do mundo têm que ser repensados, para que o negativo não fique no Sul e os benefícios no Norte. Isso implica fortalecer a capacidade científica e tecnológica dos territórios, que a ciência se fale e se publique também em espanhol, em quechua e não somente em inglês, e que tenhamos um modelo de governança global muito mais justo.”

O contexto que torna o lançamento ainda mais urgente é a persistente volatilidade dos preços globais do petróleo, que expõe os riscos de segurança, econômicos e ambientais da alta dependência dos fósseis. O painel tem mandato para sintetizar o conhecimento existente e gerar novos dados sobre marcos anuais de alta ambição para a transição energética, além de mapear as melhores combinações de políticas, arranjos financeiros e soluções tecnológicas para descarbonizar o sistema energético global. Seus resultados deverão alimentar as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) dos países e os debates multilaterais sob a UNFCCC.



Por Midia Ninja

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