Pular para o conteúdo
DóLAR R$ 5,15 ▲ 0,74% EURO R$ 5,87 ▲ 0,40% BITCOIN R$ 435.778 ▼ 0,94% QUARTA-FEIRA, 23/09/2026 14:15
Notícias

China caminha pelo Sul Global e América Latina alcançando EUA e UE

China amplia rotas e protege-se de sanções, enquanto América Latina e Sul Global recebem infraestrutura e tecnologia O post China caminha pelo Sul Global e América Latina alcançando EUA e UE apareceu primeiro em Mídia NINJA.

A triangulação comercial e o redirecionamento produtivo permitem à China contornar as tarifas diretas, enviando mercadorias ou componentes para terceiros países no Sul Global antes do destino final nos EUA. Nesse modelo de alteração de origem, os produtos passam por processos mínimos de montagem ou reordenamento em nações parceiras para obter novos certificados de origem, ocultando a fabricação chinesa. Relatórios de Washington apontam dezenas de países atuando como facilitadores logísticos. Na América Latina, destacam-se México, Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e Peru, além de portos estratégicos no Panamá, Costa Rica e República Dominicana.

Uma verdadeira rota de fuga para chegar aos EUA e à Europa via associações econômicas com nações do Sul Global. Um exemplo é a instalação da BYD no Brasil, com carros híbridos e elétricos que já alcançam picos de quarto lugar no mercado de veículos do gigante sul-americano.

No aprofundamento deste paradigma, apresenta-se o investimento em manufatura local. Deste modo, para evitar barreiras comerciais, empresas chinesas transferem fábricas diretamente para países do Sul Global que possuem acordos comerciais vantajosos com o Ocidente. O aproveitamento dos tratados, como no México, é o principal exemplo na região devido ao USMCA (acordo de livre comércio com EUA e Canadá). Gigantes chineses de setores como o automobilístico instalam-se no território mexicano para exportar aos EUA livres de sobretaxas.

A montagem em CKD, com componentes de alta tecnologia e autopeças fabricados na China e enviados como “kits” para serem finalizados em países latino-americanos e do Sudeste Asiático, é uma ferramenta que tem se mostrado eficiente para a China chegar a mais mercados com preços competitivos, inclusive nos EUA e na Europa.

Este caminho incentiva a geração de demanda por seus produtos, com reciprocidade para esses parceiros, substituição e expansão de mercados consumidores. É uma reação: à medida que o mercado estadunidense vai se fechando, a China redireciona o foco de suas exportações de bens manufaturados de alto valor agregado, como veículos elétricos, painéis solares e eletrônicos, para o próprio Sul Global. O desenvolvimento de parcerias estratégicas para Pequim se mostra via fóruns e pela Iniciativa do Cinturão e Rota, um caminho para assinar novos acordos bilaterais e reduzir tarifas mútuas, criando um ecossistema comercial centralizado no comércio Sul-Sul. O financiamento passa a ser mais focado em tecnologia, assim, a estratégia migra de grandes empréstimos de infraestrutura para investimentos direcionados em telecomunicações (5G), energia renovável e cadeias de fornecimento locais.

Essa movimentação gerou fortes reações de Washington, que passou a pressionar governos latino-americanos a imporem tarifas a produtos chineses e implementou ferramentas de inteligência artificial para monitorar as redes globais de triangulação de carga.

Rumo ao Sul

Os fluxos comerciais globais mudaram significativamente nos últimos anos. Atualmente, o Sul Global tornou-se o principal destino das mercadorias chinesas. Os números gerais do comércio exterior chinês para 2025 são os seguintes: as exportações totais da China atingiram US$ 3,772 trilhões, apresentando um crescimento anual de 5,5% a 5,6% (curiosamente, superior à taxa de crescimento da economia chinesa). Enquanto isso, as remessas para os principais mercados ocidentais (EUA, UE e Japão) totalizaram US$ 1,137 trilhão, representando aproximadamente 30,1% do total de mercadorias exportadas.

A análise por país é bastante reveladora. As exportações para a União Europeia totalizaram US$ 560 bilhões (um aumento de 8,4%). As remessas para os Estados Unidos, como esperado, caíram 20%, para US$ 420,1 bilhões, uma consequência direta da imposição de novas e elevadas tarifas por Washington. As exportações para o Japão atingiram US$ 157,3 bilhões. Somando-se a esse grupo o Reino Unido (aproximadamente US$ 85 bilhões), o Canadá e a Austrália, o total se aproxima de US$ 1,35 trilhão. Esse volume ainda permanece significativamente menor do que as exportações para regiões em desenvolvimento.

Dentro deste novo paradigma, ao mudar o foco para os mercados emergentes, a China conseguiu compensar as perdas nos mercados ocidentais. Os países em desenvolvimento consomem atualmente mais de 60% de todas as exportações chinesas. A Rússia também desempenhou um papel significativo, embora o comércio entre os dois países tenha estagnado um pouco no último ano, mas anteriormente vinha crescendo a um ritmo acelerado.

As exportações para os países abrangidos pela “Iniciativa Cinturão e Rota” (BRI) atingiram US$ 1,913 trilhão no final de 2025, um aumento de 10,6% em relação ao ano anterior. Isso significa que as exportações para os países da BRI representam mais de 50% do total das exportações da China. O volume de comércio somente dentro dessa iniciativa supera facilmente a soma das exportações para os EUA, a UE e o Japão.

Os países do Sudeste Asiático (ASEAN) receberam US$ 665,2 bilhões em mercadorias chinesas (um aumento de 13,4%). A ASEAN manteve sua posição como o maior parceiro comercial da China pelo sexto ano consecutivo, superando os Estados Unidos e o Japão juntos em volume de importações. As remessas para a América Latina ultrapassaram US$ 260 bilhões (dos quais US$ 89,2 bilhões foram para o México), enquanto a África recebeu mais de US$ 190 bilhões em produtos. As exportações para a Índia totalizaram US$ 136 bilhões e, para a Rússia, US$ 103,5 bilhões.

Cabe ressaltar que a reorientação dos fluxos comerciais ocorreu por meio de dois processos paralelos. O primeiro é a reorganização das cadeias produtivas, e aqui a conexão entre a China e o Ocidente permanece, ainda que indiretamente. Diante das tarifas protecionistas nos EUA, os fabricantes chineses começaram a enviar componentes, matérias-primas e produtos intermediários para fábricas no Vietnã, Malásia, Tailândia e México. Lá, as mercadorias passam pela montagem final e entram nos mercados ocidentais com diferentes rótulos de país de origem, evitando tarifas anti-China diretas.

O segundo processo é o crescimento orgânico da demanda nos países em desenvolvimento. Países da Ásia, África e América Latina estão modernizando ativamente sua infraestrutura, adquirindo grandes quantidades de equipamentos de construção, eletrônicos industriais e equipamentos de telecomunicações chineses. Produtos dos “três verdes” — veículos elétricos, baterias de lítio e painéis solares — têm uma demanda enorme. Enquanto a Europa e os EUA erguem barreiras contra as tecnologias climáticas chinesas, outros países as integram perfeitamente em suas economias em crescimento.

Paradigma para integração

O presidente chinês, Xi Jinping, participou no domingo (13/9), em Nova Déli, na Índia, da segunda sessão da 18ª Cúpula do BRICS e proferiu um discurso intitulado “Consolidar as Bases da Cooperação do BRICS e Fortalecer a Força do Sul Global”.

Xi destacou que, enquanto mudanças nunca vistas em um século se aceleram em todo o mundo, o Sul Global, com sua ascensão coletiva, tornou-se um motor-chave da multipolaridade mundial.

“Ao mesmo tempo, o cenário internacional é volátil e repleto de riscos e desafios”, disse Xi, acrescentando que, para trazer estabilidade ao mundo e torná-lo um lugar melhor, os países do BRICS devem assumir a iniciativa histórica, unir o Sul Global e promover o bem-estar de toda a humanidade.

Os países do Sul Global devem defender conjuntamente o Estado de Direito nos assuntos internacionais e salvaguardar as normas básicas das relações internacionais, incluindo a igualdade soberana, a não interferência nos assuntos internos e a resolução pacífica de disputas, disse Xi. É preciso garantir que o direito internacional e as regras internacionais sejam aplicados a todos, sem padrões duplos, acrescentou ele.

Os países do Sul Global devem manter bem alta a bandeira do multilateralismo, defender a autoridade e o papel das Nações Unidas e apoiar as instituições multilaterais na promoção de reformas e no aumento da eficiência, afirmou Xi.

Ele também pediu que se promova a reforma da Organização Mundial do Comércio na direção correta, bem como a reforma e o aprimoramento da arquitetura financeira internacional para aumentar a representatividade e a voz dos países em desenvolvimento.

Os países do Sul Global, segundo Xi, devem sustentar compromissos com uma filosofia de desenvolvimento centrada nas pessoas e empenhar-se em cumprir a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Devem ainda promover conjuntamente a governança da segurança, enfrentar ameaças tradicionais e não tradicionais à segurança e melhorar a governança climática global, observou Xi, pedindo também que se trabalhe mais rapidamente para desenvolver uma estrutura global de governança da IA baseada no consenso, de modo que as novas tecnologias possam iluminar o caminho rumo à prosperidade compartilhada.

“É uma solidariedade que possibilita parcerias, possibilita a democratização do sistema internacional, possibilita um sistema internacional aberto e possibilita um sistema internacional inclusivo”, disse Charles Onunaiju, diretor do Centro de Estudos sobre a China na Nigéria. Já Rakhim Oshakbayev, diretor do Centro TALAP de Pesquisa Aplicada no Cazaquistão e ex-vice-ministro do Cazaquistão para investimentos e desenvolvimento, disse que a cooperação do BRICS deve “reunir as aspirações comuns dos países em desenvolvimento e promover a coordenação e a cooperação”.

Os países do BRICS devem continuar buscando interesses comuns, disse ele, observando que a expansão do grupo impôs maiores exigências à coordenação interna.

Cooperação ascendente com BRICS

Durante o discurso, Xi propôs cinco iniciativas para uma cooperação do “BRICS maior” nas áreas de inteligência artificial, facilitação do comércio e dos investimentos, indústria digital, manufatura inteligente e desenvolvimento de talentos em ciência e tecnologia.

Para realizar grandes feitos e alcançar avanços significativos, é preciso consolidar as bases de uma cooperação do BRICS maior, disse Xi, pedindo que se aproveitem os laços estreitos do BRICS com outros mercados emergentes e países do Sul Global, se mantenha a cooperação aberta para benefício mútuo, se garantam cadeias industriais e de suprimentos estáveis e fluidas e se promova um grande mercado integrado.

“Devemos criar incubadoras para a inovação, atualizar indústrias tradicionais, desenvolver indústrias emergentes e implantar indústrias do futuro”, disse Xi.

Sobre a iniciativa de IA de código aberto e inclusiva, Xi ressaltou que a China será pioneira na criação de uma comunidade de código aberto de IA do BRICS, apoiará a cooperação no desenvolvimento e na aplicação de grandes modelos de linguagem, realizará seminários especializados e cursos de treinamento em IA e construirá um ecossistema aberto para a IA.

Abordando a iniciativa de facilitação do comércio e dos investimentos, a China propõe estabelecer uma parceria de zona econômica especial do BRICS, na qual os países possam criar um portal inteligente, coordenar políticas e construir uma nova fronteira para o desenvolvimento aberto, disse Xi, acrescentando que, em um esforço para cultivar novos impulsionadores da cooperação econômica e comercial, a China realizará o Fórum do BRICS sobre Comércio de Serviços no próximo ano.

Outra questão é a cooperação na indústria digital. Xi destacou que a China promoverá a criação de uma plataforma em nuvem para o ecossistema digital do BRICS e realizará treinamentos em habilidades digitais, intercâmbio tecnológico e alinhamento industrial, a fim de possibilitar, em conjunto, o desenvolvimento da economia digital.

No que tange à iniciativa de cooperação em manufatura inteligente, a China está pronta para ajudar os demais países do BRICS na construção de fábricas inteligentes e no desenvolvimento de padrões e normas, além de promover conjuntamente a transformação e a modernização da manufatura, disse ele.

Ainda sobre o desenvolvimento de talentos em ciência e tecnologia, a China propõe a criação de uma aliança do BRICS para a formação de engenheiros, com o objetivo de promover o desenvolvimento conjunto de engenheiros e o reconhecimento mútuo de padrões de competência, disse Xi, acrescentando que a China lançará um programa de intercâmbio juvenil do BRICS voltado para a inovação científica e tecnológica, a fim de formar mais talentos de alto nível.

As cinco iniciativas propostas por Xi concentram-se em áreas-chave, incluindo tecnologia, indústria, comércio e talentos, oferecendo caminhos concretos para estabelecer uma base sólida para a cooperação prática entre a comunidade mais ampla do BRICS, disse Serik Korzhumbayev, editor-chefe do jornal Delovoy Kazakhstan.

“Isso demonstra a firme determinação da China em compartilhar as oportunidades de sua modernização, um reflexo do espírito de abertura, inclusão e benefício mútuo que sustenta a cooperação do BRICS”, afirmou ele.

A ineficiência das sanções

A mudança na geografia do comércio é acompanhada por retaliações legais de Pequim. Desde 2020, a China vem expandindo sua jurisdição de forma constante, criando sérios riscos para corporações internacionais. Valendo-se da Lei de Sanções Estrangeiras e das disposições da Lista de Entidades Não Confiáveis, as autoridades chinesas construíram um sistema de pressão legal recíproca.

Como observam os autores da Foreign Policy, as empresas transnacionais se veem em um conflito legal brutal. Se uma corporação europeia ou estadunidense cumpre as sanções de seu país e se recusa a trabalhar com certas empresas chinesas, ela viola automaticamente a lei chinesa. Os órgãos reguladores chineses têm o poder de tomar duras medidas retaliatórias: congelar os ativos da empresa infratora na China, proibir a entrada de executivos da empresa e impor multas elevadas.

Especialistas em compliance precisam navegar entre dois sistemas jurídicos mutuamente exclusivos. Cumprir as exigências do Departamento do Tesouro dos EUA garante processo judicial na China, e vice-versa. Essa situação obriga empresas internacionais a avaliarem cuidadosamente os riscos: perder o acesso ao sistema financeiro ocidental agora representa uma contrapartida direta ao risco de serem isoladas do maior polo industrial e mercado do mundo.

Para os atores ocidentais, as estatísticas citadas e as iniciativas legais de Pequim indicam a perda gradual de sua principal alavanca de influência geoeconômica. O conceito de regular o comportamento de outros Estados, concedendo acesso exclusivo aos seus mercados, baseava-se na premissa de que, sem os consumidores europeus e americanos, as economias voltadas para a exportação entrariam em colapso.

Até o momento, o modelo de sanções pouco se mostra funcionando. A China criou um ecossistema comercial alternativo capaz de lidar com volumes massivos de produção industrial. Tarifas e embargos impostos por Washington e Bruxelas estão estimulando a realocação de fábricas de montagem para países terceiros e acelerando a integração comercial da China com outros atores não ocidentais (enquanto o comércio entre eles também está crescendo, embora em ritmo muito mais lento). Como resultado, as sanções estão perdendo sua eficácia como ferramenta universal. No contexto da crescente fragmentação da economia global, a ameaça de perder o mercado ocidental não é mais um argumento decisivo, forçando os EUA e a UE a buscar outros mecanismos para proteger sua competitividade industrial. Isso está se tornando cada vez mais difícil.

Conclusão

Assim, é plausível abordar que a China utiliza os valores da integração com o Sul Global e a América Latina como “atalho” comercial para fazer seus produtos chegarem, precificados de forma agressiva, aos mercados dos Estados Unidos e da Europa. É uma análise muito realista e central nos debates geopolíticos atuais. Essa estratégia é multifacetada e envolve tanto a busca por novas rotas comerciais quanto a fuga de barreiras tarifárias. Neste caminho, gera renda e oportunidades de desenvolvimento aos parceiros. Lembrando que estes devem buscar as negociações mais favoráveis possíveis, com o olhar voltado para o aperfeiçoamento de suas sociedades e para o alcance de condições mais dignas para suas populações, não aceitando o modelo pronto elaborado pelo gigante asiático.

Portanto, não se deve analisar este processo econômico apenas como uma manobra unilateral. O Sul Global, assim como a América Latina, não é apenas um instrumento passivo, e muitos governos locais utilizam o interesse chinês para barganhar investimentos que o Ocidente negligenciou por décadas. Trata-se de uma simbiose complexa: a China ganha rotas alternativas, eficiência de custos e blindagem contra sanções ocidentais, enquanto a América Latina e o Sul Global ganham infraestrutura, mas assumem o risco de se tornar dependentes de uma nova superpotência econômica. O paradigma correto deve alcançar o desenvolvimento mútuo.

Fonte: Mídia Ninja.

Compartilhe esta matéria:
Portal Inhaí

Portal Inhaí

Confira as notícias e colunas publicadas por Portal Inhaí no Portal Inhaí.