Mais uma vez, uma crise silenciosa que atinge diretamente a vida de pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade: o enfraquecimento e a possível interrupção de serviços essenciais prestados pelas casas de acolhida. Enquanto a Casa 1, em São Paulo, já confirmou seu fechamento progressivo por falta de financiamento, a Casa Neon Cunha, no ABC Paulista, acende o alerta ao afirmar publicamente que corre o risco de fechar caso não receba apoio emergencial.
A situação revela não apenas a fragilidade das redes de acolhimento, mas também o impacto de um cenário político e econômico que reduz investimentos sociais, corta parcerias e deixa iniciativas fundamentais à própria sobrevivência de jovens expulsos de casa, pessoas trans, travestis, migrantes e LGBTQIA+ em extrema vulnerabilidade.
Casa 1 confirma encerramento das atividades até 2026
Fundada em 2017, a Casa 1 se tornou referência nacional ao oferecer moradia temporária, atendimento psicológico, cursos, centro cultural e apoio social para jovens LGBTQIA+. Com custos de manutenção que ultrapassam R$ 250 mil por mês, a organização enfrentou queda nas doações, retração de empresas em políticas de diversidade e o fim de financiamentos internacionais.
Em novembro, a direção da Casa 1 anunciou oficialmente o fechamento: o Centro Cultural e a Clínica Social encerraram as atividades ao final de novembro de 2025, enquanto o Centro de Acolhimento permanecerá aberto até abril de 2026, para garantir a transição das pessoas que ainda vivem no espaço.
O anúncio gerou repercussão nacional e reacendeu o debate sobre a ausência de políticas públicas estruturadas para acolhimento LGBTQIA+, setor que permanece majoritariamente dependente de doações e iniciativas privadas.
Casa Neon Cunha: alertas de crise, mas ainda em funcionamento
Localizada no Grande ABC, a Casa Neon Cunha se tornou um dos principais espaços de acolhida contínua para pessoas LGBTQIA+ da região. Em 2024, o abrigo conquistou funcionamento 24 horas e ampliou o número de vagas, atendendo diariamente pessoas em situação de rua, expulsas de casa ou sem rede de apoio.
Apesar dos avanços, o perfil oficial da instituição no Instagram passou a publicar, nos últimos meses, mensagens diretas sobre risco de fechamento.
A Casa também destaca que parte do funcionamento depende de emendas parlamentares e doações individuais — e sem reforço financeiro, a manutenção do atendimento fica ameaçada.
Até o momento, não há anúncio oficial de fechamento, e a Casa segue operando, acolhendo e realizando ações sociais. No entanto, o alerta público demonstra que a instituição vive uma situação delicada.
Um retrato do abandono institucional
O possível fechamento da Casa Neon Cunha e o encerramento anunciado da Casa 1 evidenciam uma realidade preocupante: o Brasil e nem o Estado de São Paulo possuem uma política pública contínua, robusta e garantida para acolhimento LGBTQIA+.
O resultado é o risco constante de que equipamentos essenciais desapareçam — deixando centenas de pessoas sem acesso a moradia segura, alimentação, apoio psicológico e acompanhamento social.
Especialistas apontam que, sem financiamento público permanente, as casas de acolhida continuarão sobrevivendo de maneira instável: ora expandindo serviços, ora quase fechando as portas, sempre à beira do colapso.
Por que isso importa
Para a população LGBTQIA+, especialmente pessoas trans e jovens expulsos de casa, uma casa de acolhida pode significar a diferença entre viver e morrer.
Fechar uma instituição como a Casa 1 — e ameaçar a continuidade da Casa Neon Cunha — representa não apenas uma perda para a comunidade, mas um retrocesso social que coloca vidas em risco.
Esses espaços não são apenas abrigos: são centros de cidadania, afeto, saúde mental, cultura, proteção e dignidade.
E agora?
Frente a essa crise, organizações e ativistas reforçam a necessidade de:
- políticas públicas permanentes de acolhimento LGBTQIA+,
- financiamento sustentável,
- emendas e convênios contínuos,
- apoio direto da sociedade civil,
- e parcerias com empresas que realmente pratiquem responsabilidade social.
Enquanto isso, tanto a Casa 1 quanto a Casa Neon Cunha seguem divulgando campanhas de doação e esforço coletivo para garantir que ninguém seja deixado para trás.
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